quinta-feira, julho 22, 2010

Isto não é publicidade!

Não sou melómana. O que gosto na música, não é da música em si, enquanto arte ou génio ou exercício performativo. É daquilo que a música me faz sentir que eu gosto. Sensações, memórias, às vezes situações tão específicas que parecem gravadas na minha alma com banda sonora.

Lembro-me da primeira vez que ouvi Rodrigo Leão: estava ao telefone com um amigo meu e a certa altura ele pediu-me para esperar, que ia buscar alguma coisa. Enquanto esperava comecei a prestar atenção à musica que ele ouvia e, assim que ele regressou, perguntei-lhe o que era. Aqui está uma recordação cuja banda sonora se chama Alma Mater.
A minha primeira viagem de avião. Foi a Londres. Banda sonora: Roxette - Tourism.
A despedida de solteira da minha irmã Leonor - Amarguinhas...

Também há músicas que em lugar de situações, me recordam pessoas. Algumas, infelizmente, já cá não estão. Felizmente que quase todas ainda andam por aí.
Quase que posso garantir que, para cada pessoa de quem gosto, haverá uma música que se lhe cola:
Fugees - Killing me softly - Filipe, o meu maridão;
Solid - Ashford & Simpson - o meu Pai;
Tenho uma carta escrita... - (não sei de quem é e um dia ainda vai dar uma crónica) - a minha irmã Bárbara;
Lusitana Paixão - Dulce Pontes - a minha irmã Leonor;
The pros and cons of hitchhiking - Roger Waters - meu irmão Alex;
Grease - Ágata;
Alma Mater - Rodrigo Leão - Pedro "Gonain" Silveira

And so on...

Mas também há músicas que, quando oiço, me fazem lembrar sitios, épocas, fases da minha vida. E são essas as que mais gosto de ouvir - principalmente as que fazem parte da banda sonora da minha adolescência: as intermináveis férias de Verão, o 2001, as variadíssimas discotecas que houve no Hotel Paris, o Plateau, a Kapital... mas principalmente, especialmente, inesquecívelmente, tudo o que passava no News - a mítica discoteca na Malveira da Serra onde os meus pais não queriam deixar-nos ir porque não sei quantos anos antes, quando aquilo ainda era o Jet7, houve lá uma cena de facada onde morreu uma pessoa, mas nós íamos na mesma. E ainda bem.
You can do magic; Danger Zone; Kiss me deadly; Def Leppard; Goo goo Dolls; Aldo Nova; Police; The Cars; Alice Cooper; Russ Ballard; Guns N' roses; Ride like the Wind; Will you never be my friend.... enfim, são tantas, tantas, tantas músicas, tantas bandas que é impossível falar aqui de todas.
Muita gente tem cd's gravados pelos Dj's desta época, que ouve de trás para a frente em casa, no carro, no local de trabalho. Pois descobri recentemente uma coisa muito melhor: 105.4FM
A rádio que passa o que para uns é (apenas) a melhor música mas para mim (para nós), é muito mais do que isso: é a música das nossas vidas.
Hoje, quando entrarem no carro para voltarem para casa, amanhã, quando acordarem de manhã ou quando se meterem no carro para ir de férias, não se esqueçam: 105.4 Cascais FM.
E vão ver se não tenho razão!

quarta-feira, julho 07, 2010

Em 2015 será assim:

A última vez que fui ao teatro talvez tenha sido no verão passado, em julho ou agosto.
Era uma peça supostamente engraçada e cheia de ação, que seria o batismo de um conhecido nosso como encenador, mas onde ele faria também uma perninha como ator. Ele disse-nos logo na receção: hão de reparar bem no ato em que ato os sapatos. É excecional.
Mas afinal foi dececionante para nós enquanto espetadores. Uma das atrizes era quase anorética e surgia com uma minissaia absurda. Outra, de aspeto miserável, aparecia com um ridículo chapéu em forma de cato. Na parte masculina, um dos atores era uma criatura abjeta e muito pouco talentosa que mais parecia um espermatozoide radioativo com um ataque epilético, sendo que o outro não lhe ficava atrás no ar de quem tinha metido a cabeça no micro-ondas, mas suplantava – o de longe em inatividade e falta de noção do projeto como um todo.
Aborrecidos, acabamos por sair dali em contrarrelógio diretos para o aeroporto. Egito era o nosso destino.
O nosso amigo intercetou-nos aos berros:
– Deem- nos uma segunda oportunidade, não veem que os atores são ótimos?
Nós adotamos imediatamente um semblante perentório e respondemos:
- Para com isso, rapaz! Andamos a correr durante o dia todo para vermos esta bodega! Para a próxima hás de ter mais cuidado com a seleção de atores para o espetáculo.
Arrancamos dali a toda a brida pela autoestrada diretos ao aeroporto e em cinco minutos estavamos lá. O alívio foi coletivo. Se perdessemos o avião teríamos de fretar um jato, e isso era exatamente o que nós não queríamos.

Este texto é uma treta mas é só para dizer que
FOI ESCRITO AO ABRIGO DO NOVO ACORDO ORTOGRÁFICO

quinta-feira, julho 01, 2010

Porque é que as conversas dos adultos demoram tanto?

É uma das perguntas que os meus filhos me fazem constantemente. Eu poderia responder que no meu caso demoram porque eu não me calo ou porque os adultos não brincam, por isso conversam. Mas essa não é a verdade. As conversas dos adultos demoram muito porque...

Sempre tive alguma pena de não ter nenhum talento extraordinário, revelado logo na infância. Via os coleguinhas de escola, alguns pequenos prodígios ao piano, na ginástica, na matemática, na beleza, no que fosse. Mas eu, nunca tendo sido propriamente horrorosa também não era nenhuma estampa, apesar de nunca ter sido propriamente má aluna, também nunca fui especialmente boa – por exemplo, nunca na vida tive um 20 - e sempre fui consistentemente uma verdadeira nódoa em toda e qualquer actividade que envolvesse mais coordenação motora que levar os talheres à boca.
Contudo, a certa altura descobri que, mesmo não sendo um prodígio nem similar, tinha uma característica mais desenvolvida que a média – não, não era o rabo – era a memória. De facto sempre tive uma memória verdadeiramente notável e que talvez seja a responsável pelas minhas consistentes notas medianas, já que o estudo não era de certeza.
Mas como o cérebro é estranho e a memória selectiva, a minha dava-me mais para letras de músicas (que eu decorava à segunda vez que ouvia e, se fosse muito repetitiva, podia ser logo à primeira), números de telefone e principalmente, nomes e caras. Era de tal forma eficiente como fisionomista que a minha mãe recorria a mim como se à agenda: “lembras-te daquela loira meio parva, casada com aquele colega do pai do nariz estranho?” E logo eu disparava nome e, se fosse pessoa que eu conhecesse bem, número de telefone. Bastava-me ver uma cara uma vez e nunca mais me esquecia nem da identificação nem da origem. Da mesma forma, sabia os nomes de todos os livros e filmes que via, dos autores e dos actores, enfim, era uma espécie de catálogo.
Agora, não sei se é das gravidezes, da falta de sono, das noitadas, do excesso de trabalho, do desgaste da idade ou de tudo isto junto, mas sinto uma intensa e rápida decrepitude a tomar conta das minhas faculdades. Acontece-me quase todos os dias encontrar pessoas que me cumprimentam e até conversam animadamente, que me perguntam pelos meus irmãos, às vezes pelos meus pais ou filhos, e que eu não faço a mais leve ideia de quem sejam. Como sou simpática por natureza, sinto vergonha de admitir perante alguém que se me dirige de forma tão calorosa, que estou completamente a zeros, por isso disfarço e tento perceber pelo contexto da conversa se chego lá. O que na maioria das vezes não acontece, admito, e acabo a fazer figura de parva.
Por ter vivido a vida toda na mesma terra é natural que eu conheça muita gente, que de vez em quando encontro aqui ou ali e com quem dou dois dedos de conversa. Estas falhas já são tão comuns que no final há sempre um dos meus filhos que pergunta – sabias quem era? Infelizmente cada vez mais respondo que não.
Mas eles não se ralam nada e eu já quase não ligo nenhuma. Desenganem-se que eu estou plenamente consciente de não ser a única com este problema. Aliás, parece-me que quase toda a gente da minha geração anda assim. É giro, porque as conversas passam a dar a sensação de de serem chamadas telefónicas com problemas de rede:

- Já viste o ... pá, o novo filme do.... daquele, caraças, que anda com aquela que fazia o Sexo e a Cidade, a loira....
- Ah, o..... , eles não andam, são casados, sim, o..... pá, como é que ele se chama, sei perfeitamente quem é, entrava naquele filme em que fazia de mau aluno .... Não interessa, já estou a ver. Não sabia que tinha um filme novo. Vale a pena, é?
- Vale, é giro. É passado na Austria, num dos sitios onde ficamos de uma das vezes que estivemos há uns quatro ou cinco anos, lembras-te? Tinha um nome estranho.
- Nomes estranhos têm todos os sitios onde estivemos na Austria. Foi no ano em que fomos nós e mais quem?
- Foi no ano daquelas duas doidas, primas do .....
- Sim, sim, as ...... bolas, sim, sim, as primas daquele que é actor...
- Músico.
- Músico?
- Sim, até fez a banda sonora de uma série qualquer, há pouco tempo... com o argumento daquele antipático que escreve no Expresso.
- Sim, lembro-me o... caraças, pá! Esteves Cardoso? Não... é o outro.
- Exacto o Sousa Tavares... isso. O cd...

Lá está, quem não tem conversas destas que atire a primeira pedra!