terça-feira, outubro 26, 2010

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No tempo dos meus avós (não assim há tanto, já que ainda tenho uma avó) os pais mal se aproximavam dos filhos e os filhos mal conheciam os pais. Maridos saíam de casa de manhã e voltavam quando calhava sem que nesse espaço de tempo sequer dissessem água-vai. Filhos, genros, maridos iam para a guerra e escreviam (quando escreviam) uma cartinha a cada par de meses. Pais de família mantinham ao longo da vida a dicotomia “esposa” / “mulher” sem que alguém sonhasse. Mães eternizavam segredos de família. Irmãos passavam vidas inteiras a viver em países diferentes sem trocarem mais que meros postais. Filhos passavam meses de férias encafuados em quintas nortenhas ou sulistas ou beirãs, sem que lhes fosse possível trocar uma confidência com um amigo. Namorados escondiam-se durante anos. Maridos mantinham senhoras, senhoras mantinham amantes, amantes tinham filhos. Sem ninguém saber.
Os automóveis eram raros, os aviões só para a guerra e as viagens significavam meses em comboios ou navios. As notícias atrasavam-se semanas, um telefonema era um acontecimento, a identidade era uma questão de opinião, famílias passavam vidas inteiras sem se conhecerem apenas por não viverem na mesma cidade.
Morria-se de tudo e de nada, mentia-se a torto e a direito, calava-se até o detalhe menos relevante.

Hoje, e não passou tanto tempo assim, sabemos tudo a toda a hora. Há mais automóveis que bicicletas e mais telemóveis que automóveis. Falamos quando queremos com a prima que está no Butão, com a amiga da Nova Zelândia ou com a tia que mora na porta ao lado. Temos Skype, Messenger, e-mail, Facebook, Twitter, telemóveis e toda a sorte de gadgets que nos garantem o contacto permanente com o mundo. Video gravamos, fotografamos, enviamos e recebemos milhões de informações todos os dias a todas as horas. Basta querermos e, com cinco minutos de pesquisa, encontramos alguém que não vemos há vinte anos, descobrimos uma mentira, uma morada, uma namorada.
Os filhos falam com os pais, enviam sms aos pais, são amigos dos pais, estão contactáveis pelos pais. Os pais falam entre si sobre os filhos, são amigos dos filhos, procuram os filhos, perguntam aos filhos, espiam os filhos.
Hoje, um segredo é um bem raro, precioso e muito difícil de guardar, tal como a privacidade. Toda a gente conhece toda a gente, toda a gente fala com toda a gente, toda a gente vai a todo o lado, toda a gente vê tudo, sabe tudo, ouve tudo, diz tudo.

É por isso que não compreendo por que razão se fala tanto sobre os efeitos perniciosos da falta de comunicação para a sociedade. Qual falta de comunicação, gente? Comunicar, no latim da sua origem, significa qualquer coisa como "desenvolver actividades em conjunto". Hoje, nós não nos limitamos a "desenvolver actividades em conjunto", nós "vivemos em conjunto", "pensamos em conjunto", "respiramos em conjunto". Hoje comunica-se, mas é demais. De maneira diferente, é certo, mas demais.
Perniciosa para a sociedade é a falta de paz e sossego.
Essa é que é essa!

segunda-feira, outubro 11, 2010

Vamos lá deixar-nos de tretas!

Afinal, nós somos a Geração Rasca. Nós somos a fabulosa, resistente, desenrascada, vencedora e irrepetível colheita da década de setenta.
E o que fez de nós essa extraordinária geração de gente rija foi, precisamente, o facto de os nossos pais não nos terem apaparicado até à estupidez e de nem nos passar pela cabeça pedir-lhes ajuda para nos desenrascarmos da enormidade de asneiras que fazíamos. Tínhamos liberdade para fazer grande parte do que nos dava na real gana porque ninguém se ralava muito com as mazelas físicas nem com os traumas permanentes que poderíamos adquirir, não éramos portadores desse grande espião que é o telemóvel e, mais importante que tudo o resto, éramos uns sortudos por termos à nossa disposição a maior variedade de filmes e séries deprimentes da história, que faziam as vezes dos nossos educadores no que tocava a dar lições de realismo. E isso, especialmente as séries, é que nos deu uma estaleca, que faz favor. Fez de nós umas mulherzinhas e uns homenzinhos.
Então porque é que somos uns pais tão totós?

Quem não se recorda da Heidi, por exemplo. A incrível história de uma menina órfã que vivia numa cabana, desterrada no cimo de uma montanha gelada algures na Suíça, com o primo Pedro, também ele órfão e com a Clara, a prima, não só órfã como também paralítica, todos a cargo de um avô velhinho e viúvo.
Ou do Marco, essa grande série sobre um rapaz que a mãe abandona em troca de um trabalho na Argentina e que decide fugir de casa para, sozinho e sem um chavo no bolso, percorrer o mundo à procura dela. E da Pipi das Meias Altas, órfã de mãe, abandonada pelo pai, que sendo rico, lhe deixa uma mala cheia de dinheiro que ela usa para fazer asneira atrás de asneira. E o Tom Sawyer, também ele órfão, danado para a asneirada, cujo melhor amigo é outro órfão que vive sozinho numa cabana em cima de uma árvore e andam sempre descalços.
Ah, o Bambi, essa belíssima história sobre um veado bebé que vê a mãe ser assassinada por caçadores e passa o filme todo a fugir e à procura do pai. Ou A Dama e o Vagabundo, a história de um cão rafeiro que se apaixona por uma cadelinha fina e que, por causa disso, sofre toda a espécie de maus tratos e humilhações.
E o Patinho Feio, a ternurenta narrativa sobre um patinho que nasce diferente dos outros e, por isso, é abandonado não só por todos os animais da quinta onde vive, como inclusivamente, pela própria mãe. Era também o Capuchinho Vermelho, essa belíssima aventura de uma menina que, por desobedecer às instruções da mãe, faz com que a avó seja comida por um lobo...enfim, histórias giras e interessantes sobre a vida em geral e sobre a vida desgraçada de montes de crianças como nós, em particular.
(E ainda dizem que os desenhos animados de hoje são violentos.)
Ora, depois de passarmos anos da nossa vida a levar com petardos vindos de todas as direções, não nos sobrava tempo nem disposição para sermos muito maus (talvez fossemos um pouco abrutalhados, mas nada de mais). Os filmes e séries infantis encarregavam-se de nos dar constantemente conta da sorte que tínhamos na vida, da alegria que era termos quem nos assentasse um par de tabefes por semana, da fortuna de termos quem nos castigasse e impusesse limites e disciplina.

Só que, não se sabe bem porquê, parece que isso tudo, a longo prazo, teve um efeito nefasto sobre nós ou lá o que foi, de maneira que o que acontece hoje com os nossos filhos é exatamente o contrário. Eles são uns sensíveis, uns responsáveis, uns assustados, uns ignorantes, apesar de tudo.
Em primeiro lugar, o excesso de informação transformou-nos (a nós pais) nuns meninos. Hoje vivemos paranoicos com a segurança e os traumas e as depressões dos nossos mais que tudo e nem os autorizamos a ver as notícias ao pequeno-almoço. É que isso, parecendo que não, era capaz de os acalmar.
Em segundo lugar, porque hoje eles passam muito mais tempo em frente ao televisor do que nós passávamos, mas a ver mariquices que não contribuem nada para lhes dar estaleca. Papam séries intermináveis de Pokemons, Dragon Ball’s, Narutos, Gormitis, Winx – tudo realizado em cima de tecnologia espetacular, onde os bons ganham sempre aos maus (apesar de destruírem muitos planetas pelo caminho) e cujos argumentos têm tanto de realista como as promessas do Primeiro Ministro. Gastamos o nosso dinheiro a levar os nossos filhos ao cinema para nos agradecerem o facto de não lhes ter calhado a vida da Annie ou para ao menos verterem uma ou duas lágrimas de pura tristeza pela Lassie? Não. Os nossos filhinhos vão ao cinema para rirem às gargalhadas com o Madagáscar ou com a Idade do Gelo ou com o Shrek.
Pois assim os rapazes e as raparigas que, constituem o futuro deste país, não se preparam para a vida como deve ser. Chegam à idade adulta sem uma noção do que será a pressão da realidade, resguardados das agruras da morte e do abandono, sem saberem encarar, ou muito menos resolver, qualquer questão menor que se lhes depare. Para qualquer coisita lá agarram no telemóvel última geração e ligam aos paizinhos que se encarregam de afinfar um belo par de bofetadas no menino que lhe tirou a bola no recreio, no amigo que teve a influência nefasta sobre ele e no docente autoritário, por o ter traumatizado, coitadinho.
Assim, protegidos de tudo, fechados em casa não vão dar uma queda de bicicleta ou entalar um pé numa roda do carrinho de rolamentos, com a televisão a injetar-lhes ideias parvas na cabeça (sim, no mundo real as pessoas sofrem consequências se fizerem explodir um prédio ou se esmagarem oitenta e nove carros com uma retroescavadora), como hão-de os miúdos crescer, evoluir e aprender?