A Verinha tem seis anos e parece um anjinho. É uma criatura doce e cheia de mimo, de cachos loiros a emolurar uma carinha redondinha e rosada onde cintilam duas lagoas azuladas. Uma ternurinha. Quase sempre. Não fora a influência nefasta que o convívio com os pré adolescentes lá de casa tem exercido sobre ela e que a faz comportar-se como se tivesse aqueles catorze anos a precisar de um par de estalos que todas nós já tivemos - umas há mais tempo que as outras, eu, por exemplo foi há dois ou três anitos apenas.
Nessas alturas, em que a jovem insolente brota de dentro dela sem aviso, a surpresa faz com que não consiga manter-me séria, o que não contribui nada para impôr algum respeito.
Este Domingo, sentados à mesa da Páscoa, vejo pelo canto do olho a Verinha sentada na sua cadeira, de pés em cima do assento, caracóis loiros a escorrer-lhe pelas pernas abaixo, a analisar a crosta de uma esfoladela recente no joelho.
Aproximo-me dela e pergunto o que se passa. Ela levanta a cabeça e olha-me com uma sombra de tristeza nos berlindes azuis:
- Mãe, a crosta partiu-se e está a ver-se carne na minha ferida.
Faço um ar incrédulo e pergunto retoricamente enquanto me dobro sobre ela para ver melhor:
- Carne?
Ela volta a baixar a atenção para o joelho:
- Não. É arroz, queres ver?
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