Há uns meses estavamos sem ninguém que nos arranjasse o jardim. Falaram-me de um jardineiro, contactei-o e pedi um orçamento para o deixar impecavel. Precisava pronto no fim de semana, por isso adjudiquei sem discutir. O senhor não cumpriu o prazo nem o resultado andou sequer perto do que lhe tinha sido pedido.
Precisei de um serralheiro para me arranjar umas janelas. Foi lá um, fez o orçamento, eu adjudiquei e ele nunca mais apareceu. Foi lá outro, nem sequer chegou a enviar orçamento.
Precisei de alguém para me arranjar a máquina da roupa. Dos três contactos que me deram, o único que me atendeu o telefone (os outros não atenderam nem devolveram a chamada) recusou ir de Carnaxide a Cascais fazer o trabalho. Note-se que eu nem lhe disse qual era a avaria.
Quis inscrever uma das minhas filhas na natação. Era obrigatório fazer uma aula experimental para aferir o nível. Liguei para marcar. Não podia, tinha de ser presencial. Perguntei porquê. Porque sim, foi a resposta. Expliquei que tenho três filhos, trabalho o dia todo, cada um deles pratica uma actividade e era complicado para mim ir lá de propósito só para marcar a aula, que então iria tentar outro sitio. Está bem, respondeu o senhor.
Numa conversa recente com uma rapariga nova, com licenciatura, salário, casa e homem unido de facto, ela disse-me em três minutos, três pedidos diferentes que tinha feito ao estado, e conseguido: subsidio de apoio à maternidade por ser mãe solteira, apoio na escola por ter baixos rendimentos e baixa médica para poder ir à praia. Tudo fraudulento. E só destas conheço mais dois casos. Tudo mentira.
Estes são apenas alguns dos exemplos que me ocorreram em cinco minutos.
A triste realidade é que são estas pessoas que passam os dias nas televisões a reclamar da falta de apoios do estado, do desemprego, das más condições de vida, da troika, dos políticos, da chuva e de tudo. São estes porque quem realmente precisa não anda na rua a reclamar, faz pela vida, tem outras preocupações. Trabalho não falta por aqui, por Lisboa, pelas cidades, pelas zonas urbanas. Pode não ser o mais glamouroso ou bem remunerado, pode não ter o melhor horário, pode envolver sacrificios, mas é mais digno que viver na pendura, além de ser a corda que pode puxar por uma melhoria de vida. Trabalho não falta, por aqui. Falta é quem o queira fazer.
No interior do país é que não há. Nas terras onde fecham fábricas todos os dias e, por muito que se procure, não há mesmo trabalho e a única solução é muitas vezes largar a família e sair do país sem nada a não ser um punhado de esperança em cada algibeira. Mas curiosamente também é nessas zonas que há maior empreendedorismo, que se arregaça as mangas e se vai à luta.
É muito fácil fazer birras e lamentar o que á nossa vida poderia ter sido mas não foi. Mas a verdade é que até os vigaristas, para serem bem sucedidos, trabalham que se fartam.
Se não fosse esta atitude de encosto, de exigência permanente e desresponsabilização total por parte de quem poderia ajudar a aliviar a carga, se calhar havia mais para quem realmente precisa. Havia tudo: trabalho, serviços, apoios, respeito... tudo.
.
1 comentário:
Muito certa a tua analise, nao poderia estar mais certa.
Enviar um comentário