quinta-feira, agosto 17, 2006

Queres que me descreva?

Queres que me descreva? Não vale a pena, não vais ficar a conhecer-me melhor por isso. Pelo contrário, até podes não querer conhecer-me de todo. Insistes? Está bem, vais ver que tenho razão.

Vou dizer-te algumas coisas, o regular: que não sou alta nem baixa, passei já dos 30 e tenho o cabelo curto e escuro o que me dá um aspecto franzino. Que sou professora. Que uso óculos graduados e não gosto de saltos altos. Acho que é isto. Chega para descrever uma pessoa. Chega até para se formar uma opinião, não é?

Posso tentar adivinhar como me imaginas. Magra, tímida, circunspecta, pálida e solteira. O corte de cabelo poderá ser arrapazado a combinar com o conjunto.

Mas e se agora eu acrescentar que já tive dois casos com dois alunos?
Pois se calhar já me atribuis uma índole mais duvidosa, um corte de cabelo mais moderno, uma mini-saia. Os óculos serão certamente mais leves do que antes. Um decote, imaginas-me com um decote? Agora talvez sim, e bem recheado, mas antes imaginavas-me sem peito, aposto.

Ou imaginas que que dou aulas sim, mas não a putos do liceu. Ensino inglês comercial a executivos de topo, por exemplo.
Aí já muda tudo de figura. Agora já não sou uma docente comilona disfarçada de freira mas uma profissional dura, meio masculina e sem grande vida pessoal, que dá umas quecas mais para encher o tempo que para preencher a vida. Ou uma mãe dedicada e esposa competente, licenciada em germânicas e católica praticante?

E se eu te disser agora que tenho uma tatuagem?
Aposto que já me imaginas mais radical. Tenta lá perceber onde tenho eu a tatuagem. E o que tenho eu tatuado?
Agora serei uma vanguardista de cabelo oleoso, óculos pretos e piercing na língua, ou uma cabra de saia reduzida, camisa transparente e escorpião no fundo das costas. Qual delas?
Se calhar vais imaginar que tenho tatuado no seio esquerdo, mesmo sobre o coração, um N de Nuno, um filho que perdi há anos. Ou uma estrela no tornozelo direito, uma parvoíce que fiz na adolescência e ainda não tive coragem de tirar.

Posso dizer-te que adoro viajar, mas aí vais ficar na dúvida: será que gosto de destinos exóticos e selvagens ou serei uma aficcionada de grandes metrópoles e visitas culturais? Adoro praia, mas sou praticante de naturismo ou uso um fato de banho gigantesco e fora de moda? Que gosto de arte, mas de esculura, cinema, música ou pintura? Dos impressionistas ou dos cubistas? Pop ou rock, música clássica ou de câmara? Woody Allen ou Fellinni?
Posso dizer-te que gosto de uma música do Roger Waters, o que não significa que seja uma fã. Gosto apenas de uma música que ilustra uma fase da minha vida que me é muito querida. E que fase é essa? Uma paixão fulminante, a viagem de finalistas, o dia em que tirei a carta de condução?
Posso dizer-te tantas coisas, já viste? Mas nunca será suficiente.

A cada coisa que eu te disser vai corresponder uma imagem que tu constróis na tua cabeça, uma opinião que fazes a meu respeito, um sentimento que te aproxima ou afasta de mim. Não posso fazer isso. E não posso dizer-te tudo. Um ser humano é indescritível porque complexo demais.
Tu tens necessidade de tornar coerentes os teus pensamentos com os teus preconceitos, porque te disseram que se andei com alunos sou prevertida tu nem queres saber de que estudantes se trata, porque se te digo que sou loira e alta e magra e gira imaginas-me parva, futil, egoísta e burra. Porque se te digo que sou freira pensas que devo ser gorda, velha e recalcada, ou talvez se eu empregar o termo noviça já imagines uma rapariga infeliz e traumatizada. Porque se te falo em tatuagem devo ser esquisita, porque se te conto que de vez em quando apanho umas bebedeiras e flirto com uns rapazes serei certamente uma pêga.
Se te dou uma descrição minha há sempre coisas que ficam por dizer e essas podem ser as mais importantes.
Podes não querer conhecer-me depois de me conheceres, é legítimo e eu respeito, ou podes querer conhecer-me cada vez melhor, mas decidires isso antes, apenas porque leste algumas palavras que escrevi sobre mim... sinceramente, não concordo. Ninguém sabe falar de si e nenhum de nós se vê com os olhos dos outros.
Dás-me agora razão?

quarta-feira, agosto 16, 2006

Férias doces férias...

Abro a custo os olhos que não querem, resistem. Lentamente foco o raio de luz que entra pela cortina entreaberta. Tento perceber, mais para acordar a mente que pelo rigor cientifico do estudo, que horas serão: o raio que espreita é difuso - ou é muito cedo ou temos um céu cheio de nuvens. Se a primeira hipótese me agrada bastante, já da segunda não posso dizer o mesmo. Estamos em Agosto, de férias algures na costa alentejana, onde não há rigorosamente nada para fazer que não seja ir à praia. Ora se estiver mau tempo temos um problema que será, como entreter 3 crianças num dia de chuva em nenhures. Ponho o ouvido à escuta. Não se ouve nada. Se os miúdos ainda dormem então a primeira hipótese deve ser a mais provável. Do meu lado direito o Pedro ressona. A teoria da hora volta a ganhar. Muito cedo ainda. Ao longe escuto o canto de um galo. Definitivamente devem ser umas sete da manhã. Perfeito. É hoje.
Levanto-me de um salto com o projecto para levar a cabo nas próximas horas, antes de a casa acordar, a fervilhar dentro de mim. Todos os dias tenho tentado fazer isto e ainda não consegui. É hoje mesmo.
Primeiro tomar um pequeno almoço opíparo na varanda, sentada para variar, ofuscada pelo reflexo do Sol no mar quieto, o aroma inigualável das manhãs de Verão e a melodia cadente das ondas pequenas da maré vaza a atafulharem-me os sentidos. A seguir, estender a pernas sobre a cadeira em frente, abrir o meu Salto Mortal tão procurado mas só agora reeditado, e ler. Ler durante hora e meia, com o silêncio completo, rigorosamente absoluto a soar como música para os meus ouvidos. Tiro da gaveta do armário um bikini que trago à luz do dia para ver se combina a parte de cima com a de baixo, uns calções e um top branco de alças. Esgueiro-me do quarto e visto-me à pressa na casa de banho. O tempo desperdiçado tem de ser mínimo.
Na cozinha descubro desconsolada que não há pão. Nem leite, bolas. Procuro o telemovel para me certificar das horas, pode ser que a mercearia já esteja a funcionar. Afinal são 08:00h...oh não...talvez se me despachar... Não encontro os meus chinelos de praia por isso levo os do Pedro que estão na varanda. São tamanho 44 mas para o que é, chega.Vou numa corrida.
Acabo por demorar mais do que queria, aproveito para trazer outras coisas de que precisamos: papel higienico, cenouras, ovos, leite com chocolate, iogurtes, garrafões de água, cigarros.
08:35h quando regresso. Começo a perder a esperança. Aspiro um prato de cereais em pé, debruçada sobre o lava-loiças. Quando termino largo-o lá dentro e corro para a varanda. No caminho oiço a Joaninha a choramingar no quarto, sinal de que acordou e quer o biberão. Ainda olho de relance, através da janela o livro pousado em cima da mesinha de metal branco descascado, mas dirijo-me antes ao quarto deles.
Tiro a minha bonequinha da cama, encho-a de mimos e beijinhos e vamos as duas fazer o bibon. Deito-a ainda muito ensonada no sofá a beber o seu leitinho e disponho-me a ir buscar o livro para ficar ali ao pé dela a ler. Ligeira alteração de planos, ainda assim quase satisfatória.
Assim que me levanto aparecem outros dois bonecos de olhos e bocas inchadas a cheirar a cama e a fome.
Mudo novamente de direcção e faço um prato de cereais para cada um: Chocapic para a Madalena e Estrelitas para o Tomás. Com eles sentadinhos à mesa, a Joaninha quase a adormecer outra vez no sofá, talvez consiga sentar-me durante 5 minutos...
Quase corro para a varanda, quase me atiro para a cadeira trémula, quase rasgo o livro à procura da página onde ia – é evidente que alguém achou giro brincar com o marcador. Digo quase, porque não chego a concretizar. Á porta da cozinha sou interceptada pelo elemento malcheiroso em falta – o Pedro, e, se bem que tento com afinco fugir-lhe, não consigo. O Pedro sabe ser muito persuasivo quando quer alguma coisa, e choraminga como ninguém. Que não lhe ligo nenhuma, que só penso em estar sozinha a ler, que não quero estar com ele e com os miúdos, está bem, que vai sozinho para a praia com eles para eu ficar em paz, se tenho assim tanto tempo livre para desperdiçar as férias, vamos meninos que a mãe precisa de sossego e connosco não consegue...E eles, vá lá mãe, vem connosco para a praia, vááááá lááá, ou então ficamos cá nós contigo...
Bem, é de tal ordem que eu desisto mesmo. Resumindo, o Pedro tem a dor de barriga matinal (ainda terá outra a seguir ao jantar) e fecha-se na casa de banho e eu acabo a fazer sandes, preparar a fruta, a água fresca, os iogurtes e sumos e colheres e guardanapos e ovos cozidos. E sempre a com a música de fundo trocada, em lugar da desejada melodia calmante do mar invade-me o ruido desesperante e esganiçado dela, ó mãe não quero desses, quero os de chocolate, e ele, mas de chocolate já comeste muitos eu só comi um e agora este é para mim, e ela mas não comeste mais porque não quiseste, e ele, mas eu esqueci-me e quando vi tu já tinhas comido todos, e ela azareeee, e ele estúpida e eu um tabefe a cada um e o de chocolate no lixo.
E mais uma vez o meu plano sai furado, o todo anula a parte, o grupo vence o indivíduo, a fera desiste da presa.
Amanhã vou ver se consigo acordar às 6.