Queres que me descreva? Não vale a pena, não vais ficar a conhecer-me melhor por isso. Pelo contrário, até podes não querer conhecer-me de todo. Insistes? Está bem, vais ver que tenho razão.
Vou dizer-te algumas coisas, o regular: que não sou alta nem baixa, passei já dos 30 e tenho o cabelo curto e escuro o que me dá um aspecto franzino. Que sou professora. Que uso óculos graduados e não gosto de saltos altos. Acho que é isto. Chega para descrever uma pessoa. Chega até para se formar uma opinião, não é?
Posso tentar adivinhar como me imaginas. Magra, tímida, circunspecta, pálida e solteira. O corte de cabelo poderá ser arrapazado a combinar com o conjunto.
Mas e se agora eu acrescentar que já tive dois casos com dois alunos?
Pois se calhar já me atribuis uma índole mais duvidosa, um corte de cabelo mais moderno, uma mini-saia. Os óculos serão certamente mais leves do que antes. Um decote, imaginas-me com um decote? Agora talvez sim, e bem recheado, mas antes imaginavas-me sem peito, aposto.
Ou imaginas que que dou aulas sim, mas não a putos do liceu. Ensino inglês comercial a executivos de topo, por exemplo.
Aí já muda tudo de figura. Agora já não sou uma docente comilona disfarçada de freira mas uma profissional dura, meio masculina e sem grande vida pessoal, que dá umas quecas mais para encher o tempo que para preencher a vida. Ou uma mãe dedicada e esposa competente, licenciada em germânicas e católica praticante?
E se eu te disser agora que tenho uma tatuagem?
Aposto que já me imaginas mais radical. Tenta lá perceber onde tenho eu a tatuagem. E o que tenho eu tatuado?
Agora serei uma vanguardista de cabelo oleoso, óculos pretos e piercing na língua, ou uma cabra de saia reduzida, camisa transparente e escorpião no fundo das costas. Qual delas?
Se calhar vais imaginar que tenho tatuado no seio esquerdo, mesmo sobre o coração, um N de Nuno, um filho que perdi há anos. Ou uma estrela no tornozelo direito, uma parvoíce que fiz na adolescência e ainda não tive coragem de tirar.
Posso dizer-te que adoro viajar, mas aí vais ficar na dúvida: será que gosto de destinos exóticos e selvagens ou serei uma aficcionada de grandes metrópoles e visitas culturais? Adoro praia, mas sou praticante de naturismo ou uso um fato de banho gigantesco e fora de moda? Que gosto de arte, mas de esculura, cinema, música ou pintura? Dos impressionistas ou dos cubistas? Pop ou rock, música clássica ou de câmara? Woody Allen ou Fellinni?
Posso dizer-te que gosto de uma música do Roger Waters, o que não significa que seja uma fã. Gosto apenas de uma música que ilustra uma fase da minha vida que me é muito querida. E que fase é essa? Uma paixão fulminante, a viagem de finalistas, o dia em que tirei a carta de condução?
Posso dizer-te tantas coisas, já viste? Mas nunca será suficiente.
A cada coisa que eu te disser vai corresponder uma imagem que tu constróis na tua cabeça, uma opinião que fazes a meu respeito, um sentimento que te aproxima ou afasta de mim. Não posso fazer isso. E não posso dizer-te tudo. Um ser humano é indescritível porque complexo demais.
Tu tens necessidade de tornar coerentes os teus pensamentos com os teus preconceitos, porque te disseram que se andei com alunos sou prevertida tu nem queres saber de que estudantes se trata, porque se te digo que sou loira e alta e magra e gira imaginas-me parva, futil, egoísta e burra. Porque se te digo que sou freira pensas que devo ser gorda, velha e recalcada, ou talvez se eu empregar o termo noviça já imagines uma rapariga infeliz e traumatizada. Porque se te falo em tatuagem devo ser esquisita, porque se te conto que de vez em quando apanho umas bebedeiras e flirto com uns rapazes serei certamente uma pêga.
Se te dou uma descrição minha há sempre coisas que ficam por dizer e essas podem ser as mais importantes.
Podes não querer conhecer-me depois de me conheceres, é legítimo e eu respeito, ou podes querer conhecer-me cada vez melhor, mas decidires isso antes, apenas porque leste algumas palavras que escrevi sobre mim... sinceramente, não concordo. Ninguém sabe falar de si e nenhum de nós se vê com os olhos dos outros.
Dás-me agora razão?
4 comentários:
Muito giro e surpreendente!
Gostei muito de ler.
É sempre um momento muito divertido entrar no teu blog.Faz-nos viajar...
Amei!!!!
Continua
Bjs mana B
Possa... já tinha em mente escrever um "muito bom" antes de entrar nesta secção de comentários, mas já ali está um. Não me quero repetir. Então aqui vai: "Trés bien." ;)
Gostei muuuuiiito!
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