quarta-feira, agosto 16, 2006

Férias doces férias...

Abro a custo os olhos que não querem, resistem. Lentamente foco o raio de luz que entra pela cortina entreaberta. Tento perceber, mais para acordar a mente que pelo rigor cientifico do estudo, que horas serão: o raio que espreita é difuso - ou é muito cedo ou temos um céu cheio de nuvens. Se a primeira hipótese me agrada bastante, já da segunda não posso dizer o mesmo. Estamos em Agosto, de férias algures na costa alentejana, onde não há rigorosamente nada para fazer que não seja ir à praia. Ora se estiver mau tempo temos um problema que será, como entreter 3 crianças num dia de chuva em nenhures. Ponho o ouvido à escuta. Não se ouve nada. Se os miúdos ainda dormem então a primeira hipótese deve ser a mais provável. Do meu lado direito o Pedro ressona. A teoria da hora volta a ganhar. Muito cedo ainda. Ao longe escuto o canto de um galo. Definitivamente devem ser umas sete da manhã. Perfeito. É hoje.
Levanto-me de um salto com o projecto para levar a cabo nas próximas horas, antes de a casa acordar, a fervilhar dentro de mim. Todos os dias tenho tentado fazer isto e ainda não consegui. É hoje mesmo.
Primeiro tomar um pequeno almoço opíparo na varanda, sentada para variar, ofuscada pelo reflexo do Sol no mar quieto, o aroma inigualável das manhãs de Verão e a melodia cadente das ondas pequenas da maré vaza a atafulharem-me os sentidos. A seguir, estender a pernas sobre a cadeira em frente, abrir o meu Salto Mortal tão procurado mas só agora reeditado, e ler. Ler durante hora e meia, com o silêncio completo, rigorosamente absoluto a soar como música para os meus ouvidos. Tiro da gaveta do armário um bikini que trago à luz do dia para ver se combina a parte de cima com a de baixo, uns calções e um top branco de alças. Esgueiro-me do quarto e visto-me à pressa na casa de banho. O tempo desperdiçado tem de ser mínimo.
Na cozinha descubro desconsolada que não há pão. Nem leite, bolas. Procuro o telemovel para me certificar das horas, pode ser que a mercearia já esteja a funcionar. Afinal são 08:00h...oh não...talvez se me despachar... Não encontro os meus chinelos de praia por isso levo os do Pedro que estão na varanda. São tamanho 44 mas para o que é, chega.Vou numa corrida.
Acabo por demorar mais do que queria, aproveito para trazer outras coisas de que precisamos: papel higienico, cenouras, ovos, leite com chocolate, iogurtes, garrafões de água, cigarros.
08:35h quando regresso. Começo a perder a esperança. Aspiro um prato de cereais em pé, debruçada sobre o lava-loiças. Quando termino largo-o lá dentro e corro para a varanda. No caminho oiço a Joaninha a choramingar no quarto, sinal de que acordou e quer o biberão. Ainda olho de relance, através da janela o livro pousado em cima da mesinha de metal branco descascado, mas dirijo-me antes ao quarto deles.
Tiro a minha bonequinha da cama, encho-a de mimos e beijinhos e vamos as duas fazer o bibon. Deito-a ainda muito ensonada no sofá a beber o seu leitinho e disponho-me a ir buscar o livro para ficar ali ao pé dela a ler. Ligeira alteração de planos, ainda assim quase satisfatória.
Assim que me levanto aparecem outros dois bonecos de olhos e bocas inchadas a cheirar a cama e a fome.
Mudo novamente de direcção e faço um prato de cereais para cada um: Chocapic para a Madalena e Estrelitas para o Tomás. Com eles sentadinhos à mesa, a Joaninha quase a adormecer outra vez no sofá, talvez consiga sentar-me durante 5 minutos...
Quase corro para a varanda, quase me atiro para a cadeira trémula, quase rasgo o livro à procura da página onde ia – é evidente que alguém achou giro brincar com o marcador. Digo quase, porque não chego a concretizar. Á porta da cozinha sou interceptada pelo elemento malcheiroso em falta – o Pedro, e, se bem que tento com afinco fugir-lhe, não consigo. O Pedro sabe ser muito persuasivo quando quer alguma coisa, e choraminga como ninguém. Que não lhe ligo nenhuma, que só penso em estar sozinha a ler, que não quero estar com ele e com os miúdos, está bem, que vai sozinho para a praia com eles para eu ficar em paz, se tenho assim tanto tempo livre para desperdiçar as férias, vamos meninos que a mãe precisa de sossego e connosco não consegue...E eles, vá lá mãe, vem connosco para a praia, vááááá lááá, ou então ficamos cá nós contigo...
Bem, é de tal ordem que eu desisto mesmo. Resumindo, o Pedro tem a dor de barriga matinal (ainda terá outra a seguir ao jantar) e fecha-se na casa de banho e eu acabo a fazer sandes, preparar a fruta, a água fresca, os iogurtes e sumos e colheres e guardanapos e ovos cozidos. E sempre a com a música de fundo trocada, em lugar da desejada melodia calmante do mar invade-me o ruido desesperante e esganiçado dela, ó mãe não quero desses, quero os de chocolate, e ele, mas de chocolate já comeste muitos eu só comi um e agora este é para mim, e ela mas não comeste mais porque não quiseste, e ele, mas eu esqueci-me e quando vi tu já tinhas comido todos, e ela azareeee, e ele estúpida e eu um tabefe a cada um e o de chocolate no lixo.
E mais uma vez o meu plano sai furado, o todo anula a parte, o grupo vence o indivíduo, a fera desiste da presa.
Amanhã vou ver se consigo acordar às 6.

2 comentários:

Anónimo disse...

Olha tenho aqui um livro que ja e 2 segunda vez que vai na mala para ler nas ferias e que vem outra vez como veio!
Eu nao me levanto as 6h, mas deito-me as 3h para se consigo fazer as coisas com o silencio da noite!
So que as vezes nem vou dormir, nem consigo fazer o que quero, porque estou tipo as velhotas sentada e deixar cair a cabeca morta de sono, mas continuo nesta luta por algum tempo ate que alguem acaba por vencer... o sono ou eu!?
Beijinhos amiga.

Anónimo disse...

Para leres o Salto Mortal, tens que acordar bem mais cedo do que as 6 da manhã... É um livro grande e um Grande Livro que eu li (acho que há 4 anos atrás).
Depois diz-me se gostaste...