Exemplo:
Um casal, na casa dos 30, com filhos, empregos e vida social. Esse casal, num certo fim de semana, tem uma festa. Trata-se de um evento normal, pode ser um aniversário. Não é um casamento nem um baptizado, é apenas a celebração informal de um aniversário de um amigo(a). Pormenor: sem crianças.
A questão coloca-se assim, deste modo simples e linear.
Agora vamos introduzir aqui mais um dado: o amigo(a) é afinal a irmã dele. Única irmã. Mas é a cunhada quem recebe o convite.
É de noite, o Pedro e a Cristina estão sentados lado a lado no sofá da sala, onde assistem a um episódio da série preferida dele.
- Pedro, a Nicas telefonou-me hoje. Temos a festa dela no dia 24.
- Festa de?
- Anos. A tua irmã faz anos no dia 22 mas faz a festa no dia 24 que é o Sábado seguinte.
- Ah. Ok. Depois lembra-me, mais perto do dia. Ainda falta muito tempo.
- Lembro-te? Porquê? Não consegues lembrar-te sozinho?
- Custa-te muito? Então não lembres.
- Não é que me custe, mas faz-me confusão que não saibas quando é que a tua irmã faz anos, é só isso.
- E por acaso eu tenho de saber as datas todas de cor? Tenho isso na minha agenda, no dia vejo. Qual é o drama?
- Ah sim? E é claro que no dia vês. Não precisas de pensar nisso antes. Tens aqui a empregada que trata de tudo não é? Então e se eu também decidir tratar de tudo no próprio dia? Quanto é que apostas que não vamos à festa?
-Não vamos? Mas a festa é da minha irmã. Eu vou.
- Então importas-te de pensar comigo, se faz favor? Não podemos levar os miúdos, temos de decidir com quem é que eles ficam e isso tem de ser tratado com tempo. Nesse dia a Joana tem a festinha da Madalena, por isso não dá jeito ficarem com a minha mãe que não tem carro para a levar. Se calhar era melhor ficarem com os teus pais.
- Claro. E os meus pais são motoristas da menina, não? Não vai à festa, pronto, não morre por causa disso.
- Coitada dela, anda toda entusiasmada porque este ano parece que vão organizar uma aula de hip hop na piscina. Não fala noutra coisa há que tempos. Eu gostava que ela fosse. Então vamos nós pô-la lá e pedimos aos teus pais para irem buscá-la, pode ser?
- E vão sair de casa de propósito? É igual. Pede a alguém que a traga da festa.
- Pois, sim. Não podemos pedir aos teus pais que a transportem porque não são motoristas, mas podemos pedir a uma mãe qualquer, que eu não conheço de parte nenhuma, para andar às voltas que isso já não tem mal nenhum. Deixa lá que eu trato disso. Vou lá eu.
- Então vai.
- E já agora, a festa vai ser no casino. Se os teus pais ficarem com eles, podes levar a cama do Manelinho e o resto das coisas para lá logo de manhã? Queria ver se ia ao cabeleireiro, mas dou cabo do cabelo se andar a transportar as coisas. Assim à hora levávamos só os miudos e o resto já lá estava.
- Vais ao cabeleireiro fazer o quê? Está óptimo o teu cabelo. Até gosto mais dele assim do que todo penteadinho. E isso não tem lógica nenhuma. Quando levarmos os miúdos levamos as coisas deles, evidentemente.
- Não quero. Quero sair de casa fresca e arranjada, sem ter de andar a passear caixas com sopa, caminhas, brinquedos, roupas, fraldas, etc. E vou acabar por dar cabo das unhas, ainda por cima. Eu levo lá as coisas quando sair para o cabeleireiro. Caso encerrado. E o que será que ela quer pelos anos? Quando é que podes ir ter comigo à hora de almoço para vermos isso?
- Deixa estar que eu trato disso.
- Tratas? Quando? Nunca? Pensas que eu não te conheço? No próprio dia lembras-te de repente que não compraste nada e eu que me lixe com a logística dos miúdos porque tu piras-te bem a propósito e só voltas à hora da festa. Achas que eu sou parva ou que ando a dormir? Eu compro o presente esta semana e fica o caso tratado. E então, ligas à tua mãe a sber se ela pode ficar com eles?
- Depois ligo.
- Quando?
- Depois.
- Depois pode ser muito em cima da hora e a tua mãe não poder. Ainda nos lixamos com isso. Liga agora.
- Agora já é tarde.
- Tarde? São dez da noite.
- A minha mãe deita-se cedo.
- Tão cedo?
- Sim, porquê? Agora não pode? Tu não deixas? Será que também és tu que vais decidir quando é que a minha mãe vai dormir?
- Então pronto, ligas amanhã?
- Ligo quando me apetecer.
- Ainda acabamos por não ir à festa por causa disso. Porra. Eu ligo amanhã para a tua mãe. Casmurro!
- Chata.
- Preguiçoso.
- CHATA!
- Chato és tu. Não tenho pachorra para te aturar. Fazes cá tanta falta como uma pandeireta num velório.
Agora vamos supor que quem recebe o telefonema é ele:
É de noite, o Pedro e a Cristina estão sentados lado a lado no sofá da sala, onde assistem a um episódio da série preferida dele. O Pedro pergunta:
- Que horas são?
- Dez da noite, porquê?
- Eh, pá, esqueci-me! Hoje é a festa da minha irmã. Tenho de ir. Até logo.
- ???
4 comentários:
Muito bem escrito, divertido e pertinente.
Gostei muito deste ultimo (principalmente, da escolha dos nomes ;) ) mas, acho o da "Mae e tudo" imbativel, por todas as razoes e + alguma.
Muitos parabens, Marta! Ganhaste + uma fa!
Anica
Ahhh... ahhh... diverti-me imenso a ler... entao o final... curto e grosso como so podia!!!
Por falar em anos... calculo que hoje esteja a haver algures uma festa... em casa, num restaurante... mas desta vez deve ter sido bem mais facil de resolver a logistica porque se bem conheco a aniversariante... os filhos tambem devem estar presentes!?
Muitos Parabens!!!
Beijinhos,
LP
Claramente! São os homens que não servem para nada! Ou melhor, até servem, mas esse assunto não é para aqui chamado... e não servem todos...
Eu sou como a Cristina; mas só em pensamentos. Sabem porquê?
Porque a Cristina é a "Verdadeira chata!".Quantas "cristinas" conhecemos? Uma data delas, algumas até amigas próximas. Por isso, acho que o melhor é continuar em silêncio, pois eu odiava viver com uma Cristina.
É verdade que quase todos os homens são uns inuteis, e eu adorava ser como eles, não penar em nada, não me preocupar com nada!
A propósito Marta, desculpa não te ter dado presente de anos, mas dei numa de homem e fiquei à espera que o meu marido tratasse disso. Se não fosse gostar tanto de ti, até me tinha sabido lindamente!Mas olha, tu é que ficaste a arder.
Continua, que eu vou parar, afinal este blog, é teu!
Bjs SRC
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