segunda-feira, julho 10, 2006

Manhã submersa

Dou mais uma volta enquanto acabo de ouvir o Nuno Markl na Comercial. Adoro ouvir o Nuno Markl logo de manhã. Deixa-me bem disposta não só porque tem um sentido de humor discreto e inteligente, mas porque admiro as pessoas que conseguem levantar-se para começar a trabalhar às 6 da madrugada. Páro em segunda fila e desespero por um momento até conseguir inventar uma frincha onde enfiar o meu Golf novinho. Finalmente encaixo-o numa curva, entre um bloco de cimento e uma Ford Galaxy. Saio do carro, finto um dejecto, enfrento o prédio opulento, volto a trás para verificar se o carro está fechado. Tomo mentalmente nota para não me esquecer de procurar o comando. Entro no escritório, bom dia à esquerda e à direita, tentando acalmar o cabelo ainda húmido e evitar assim a formação da “nuvem” que me dá um aspecto no mínimo desfocado - que raio, pareço uma doida!.
Atravesso o corredor fervilhante. Dentro do elevador olho para o espelho e tomo consciência de que estou uma lástima, para não variar. Os olhos ainda inchados, a pele a precisar de praia, o cabelo loiro “quase até à raiz”. - À chegada ao 2º já vai enrolado num nó porque senão já pareço uma peruca de arame. Chego ao meu lugar mais apresentável, acho eu.
Pouso a mala aberta enquanto murmuro um bom dia discreto. A mala cai, apanho-a do chão duvidoso, sacudo-a vagamente, observo por um instante e com espanto crescente, a indescritível montanha de tralha espalhada à minha volta. Catálogo de roupa de criança a aguardar tempo de antena, conta do telemóvel (nem sei se já está paga), segundo aviso da conta do gás, notificação das finanças com data de há um mês, talões de multibanco, o pincel de um batôn que não sei onde anda. Enfim, o elástico favorito desaparecido há séculos, isqueiro, uma mola partida, a carteira também ela a precisar de limpeza, agenda electrónica sem bateria há semanas. Tudo amarfanhado e velho, abundanetemente regado a migalhas de tabaco. Comando, nem vê-lo. Atiro a tralha de novo para dentro da mala enquanto faço uma nota mental para não me esquecer de a arrumar à noite. Fico irritada comigo mesma por chutar tudo para depois e juro, mas juro com convicção que de hoje não passa. Pouso a mala de novo, mas desta vez fechada, e finalmente sento-me, respiro fundo e olho à volta. Faço sempre isto. Assim que me sento olho à volta. Não sei bem para quê mas deve ser para constatar mais uma vez que fui a última a chegar.

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