- Inês, chega! Pára com isso! Assim não conseguimos sair de casa, filha. Tens de escolher só uma e depressa. Não tarda estamos tão atrasados que mais vale ficarmos em casa, é isso que queres, querida? Tira daí a mão Joana, vais estragar a mesa, bolas! Inês, veste-te lá e vai ver onde é que andam os teus irmãos. Estamos tão atrasados, Cristo! Qualquer dia sou despedida e depois quero ver. Mascaram-se mas é para irem andar às esmolas!
Madalena corre do quarto para a sala, para a cozinha, para a casa de banho, de novo para a cozinha, de volta ao quarto. Enfia as calças pretas, a camisola de gola alta, o blazer de veludo. Relanceia um olhar pelo espelho e pensando nas palavras da irmã, sorri para si. Hippie? Quem lhe dera! Isso era dantes. Agora era apenas uma mãe/mulher/profissional a tentar fazer o possível. Amarra o cabelo num rabo de cavalo apressado, engole o resto do iogurte e continua.
– Francisco, despacha-te com isso, caramba, são só cereais! E de manhã não há playstation. Quantas vezes é que eu tenho de dizer as mesmas coisas, criaturas? Lavaste os dentes? Inês, o que é isso, filha? Não, querida, não é um rabo de cavalo e não não estás como eu. Isso mais parece o rabo de uma doninha irritada. Dá cá que eu faço como deve ser. Assim. Que boneca, vê lá ao espelho. Igualzinha à mãe, agora sim.
O Tomás? Tomááás! Estás aqui, gordo? Dá cá que a mãe aperta. Sim querido, o Homem Aranha também usa ténis. Sim, e também usa capa de chuva quando chove como hoje, claro. Não, amor. Capacete não, vai lá arrumar isso. Diooooogoooooo! Alguém viu o Pai? Ainda está na casa de banho?
- Diogo, importas-te? Será que o senhor barão pode levantar o rabinho do trono e dar uma ajudinha antes que me dê uma coisa?
- Calma, general, estou a acabar. Já não se pode vir à casa de banho em paz?
- Quando tens quatro crianças para entregar mascaradas na escola daqui a vinte e cinco minutos, não, não podes. Vês-me por acaso sentada na sala a ler uma revista? Pois é. Mexe-te! Vá lá!
- Disseste quatro? A Joaninha também vai mascarada, coitadinha?
- Coitadinha porquê? Está tão feliz vestida de flor. Está farta de dançar. Anda lá ver. O Francisco é que me deixa doente. Tens de falar com ele. Não larga a porcaria da playstation, parece um bicho. E nem queria vestir o fato, depois da trabalheira que eu tive. Obriguei-o, olha. Está tão giro de Zorro, todo charmoso.
- Aquele é que ainda nos vai dar dores de cabeça. Sabes que...
Mas Madalena já tinha desaparecido.
Pouco depois volta a meter a cabeça pela porta da casa de banho.
- Podes levá-los tu?
- Eu? Nem penses, já devia estar numa reunião.
- Tem piada. Tem mesmo graça. Estás há horas sentado na retrete a ler uma revista, e quando eu te peço uma coisa, por uma vez, dizes logo que não podes. Logo hoje que tenho a apresentação para fazer, é que vou chegar atrasada. Claro porque os filhos são só meus, não é? As responsabilidades são só minhas. Até parece que os fiz sozinha.
- Lá vens tu com a treta da conversa. Não é nada disso. Estou atrasado para uma reunião, mais nada. Se fosse outro dia eu ia. Vou amanhã. Hoje não.
- Então também vou fazer isso. Hoje não posso ir levá-los. Ficam em casa, pronto. Tomam conta uns dos outros. É assim? Estou atrasada, Diogo. A Inês já mudou quinhentas vezes de roupa, porque a fada não tem chapéu e a bailarina não pode ir de botas e mais sei lá eu o quê. O Francisco está feito parvo agarrado à maquineta e ainda nem sequer lhe fiz o bigode, a Joana anda a pintar a sala com as canetas de feltro e o Tomás passeia-se calmamente com o teu capacete enfiado. Há roupa espalhada por toda a casa e a cozinha está um pandemónio. Podes colaborar, ou não?
Diogo entra na sala a bater com os pés com muita força no chão de madeira. Arqueia os braços, enche o peito de ar e muito direito, com o sorriso mal disfarçado pela careta feroz, berra:
– Praças! Atenção! Revista!
Em menos de nada a fada enfia um gorro de Pai Natal, o Zorro aparece de bigode pintado a caneta de feltro e o capacete desaparece engolido pelo caos.
Perdido de riso, Diogo coloca-se ao lado dos filhos.
– Sentido! Peito para fora! Barriga para dentro! Continência! – E depois, voltando-se para a mulher:
- Como vê, senhora generala, é tudo muito simples. Os seus soldados estão prontos e sem stress nenhum. Não estamos, companheiros? Do resto trata-se depois.
Companhia! Marche!
Agora, mãe, podes calçar uns sapatos, ou vais de chinelos?
6 comentários:
Isto tudo merece ser compilado num "Diário duma família tuga"
Força!
Li todas as histórias editadas em 10 de Julho, e concordo plenamente com o "Macho Said"...Esta veia para a escrita merece a publicação de umas crónicas da Marta! Diverti-me imenso, ri e...até deitei uma lagrimita na da Mãe...há mesmo veia artística no ar.
Adorei! Revi-me na "Cristina", recordei a minha mãe, que para além de não fazer nada, ainda tinha um emprego, mas mesmo assim conseguiu não fazer nada muito bem.Escreves lindamente! Não queria carregar no rato para a página descer, com medo que acabasse.Continua!
Como sabes sou uma complete ignorant nestas modernices, vim só ver a bola e ver se sou capaz de responder... Se sim, amanhã volto e leio tudo do principio ao fim... Bjs kikas
Finalmente entei no teu blog ...viva...mas como já são quase 7 horas da tarde vou me pisgar do servicio , mas antes vou printá-lo para ler hoje á noite ..amanhã te blogo ...este verbo até que é giro...
Eu Blogo
Tu Blogas
Ele Bloga
Nós Blogamos
Vòs Blogais
Eles Blogam
Blozix
Ele há coisas...Merecias mais tempo para escrever e animar os nossos dias que são tão chatos...
Continua!!!!
Parabéns!!!!
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