Em criança, quando me perguntavam pela profissão da minha Mãe eu respondia
- Doméstica.
Se me perguntavam ,o que é isso, eu respondia de imediato:
- Não faz nada.
************
Quando eu e os meus irmãos andavamos na escola não almoçavamos lá como a maioria das outras crianças. Porque a nossa mãe não fazia nada íamos sempre almoçar a casa. E não gostávamos. Em casa comia-se muitas vezes peixe, salada, sopas, frutas. Sobremesas só em dias de festa e refrigerantes idem. Uma seca.
Era durante essas horas que a minha mãe que não fazia nada, cosia um botão, trocava uma camisola, substituia o lápis partido, desenhava com mercúrio uma maçã num joelho esfolado.
Chegávamos da escola a meio da tarde. A minha mãe estava em casa para nos receber. Era a hora de nos ajudar com os trabalhos de casa e de se certificar de que não faltava nada para o dia seguinte. Nunca nenhum de nós soube qual era a sensação de não levar as sapatilhas no dia de ginástica ou de ter de explicar à professora a falta de um compasso. Nunca aconteceu ir à despensa e constatar que não havia bolachas, leite, farinha, fita cola, tira nódoas, panos de pó. Queríamos fazer um cozinhado e não faltava nada. Muitas vezes, só o dinheiro para se vestir de novo ou fazer férias faltava. E nós não dávamos por isso.
Porque a minha mãe não fazia nada.
Na escola eram famosas as nossas máscaras. Em Carnavais consecutivos, sem gastar um tostão, a minha mãe colocava-nos no podium dos concursos. Recortava, colava, acrescentava, cosia, pintava, remendava. E aturava. Porque não fazia nada.
Cresci sem jamais pôr em causa a evidência de que a minha mãe estaria sempre lá : nas festas da escola, da ginástica, do judo, do ballet; nas reuniões de pais, nas chegadas de passeios, nas partidas para férias, no último dia de escola, na primeira menstruação . Nunca questionei que uma mãe soubesse tudo. A minha sabia. Sempre com a mesma segurança foi fada dos dentes, costureira, médica, psicóloga, monstro, veterinária, electricista, professora, jardineira, encenadora.
Cresci sem dar valor a detalhes como os cheiros da minha casa. O óleo de cedro, os roupeiros primorosos, o café fresco, as toalhas de banho, a cama lavada, são aromas que ainda consigo sentir quando lá entro.
Cresci com a certeza de que qualquer coisa, pouco utilizada que seja, estará sempre limpa à frente, por trás, debaixo e entre.
Cresci numa casa onde era banal ser a minha mãe a tratar as mazelas - fisicas e psíquicas - dos nossos amigos. Certamente foi ela, muitas vezes, a única que os ajudou, também a eles. Que ouviu, apoiou e tratou todos quantos precisaram.
Era sempre ela quem levantava os estores para nos acordar e quem apagava as luzes quando já todos dormiam de noite. Mas não fazia nada.
Como não fazia nada, a minha mãe via de facto os filhos quando olhava para nós. Com um olhar apenas, a minha mãe percebia. Não perguntava, lia. Não castigava, apelava. Fazia-se desentendida, deixava passar o que não merecia o esforço. Deixou-nos ser crianças enquanto pode e fez-nos crescer quando chegou a hora. Não nos julgava e não nos comparava. Não fazia nada.
Cresci habituada a vê-la chorar. Mais. Cresci habituada a vê-la perdoar.
Nunca perdi tempo a pensar que uma mãe perdoa tudo aos filhos, esquece tudo pelos filhos, recomeça sempre pelos filhos, mas sofre infinitamente mais por eles.
5 comentários:
A minha Mãe também é doméstica, mas por mais que me esforce, não consigo recordar-me de tanto não fazer nada. É que a minha não fazia mesmo nada, nem sequer estava em casa quando eu chegáva da escola. Há gente com muita sorte. Ainda bem....
muito bom este "Mãe é tudo",
bjs
Teresa
Olha marta eu agora quando me perguntam o que faco... nao digo que sou domestica mas "housewife" (e um bocadinho estranho para mim!)... mas tal como a tua mae "tambem nao faco nada", mas estou super cansada!!!
Olha mas so te digo, a tua mae Devia ser fantastica... as vezes so com uma ja achamos que e complicado, quanto mais com tantas criancas em casa!?
Ja sei a quem e que tu sais!!!
Bjs,
De facto chorei a ler esta tua história que é bem real pq falas da tua mãe com muito amor. És mãe e filha ao mesmo tempo, como eu agora, e reconheces a mãe-exemplo que tens. Ela deve ter muito orgulho em ti, na filha e na mãe que és. Tenho a certeza que os teus filhos um dia vão falar de ti assim! Bjs Amiga
Liliana
Quanto mais vezes leio esta história mais gosto dela.Acabo sempre por choramingar um bocadinho, mas faz bem para não esquecer as coisas realmente importantes da vida.
Mais uma vez parabéns!!!
Mana B
Enviar um comentário