segunda-feira, julho 10, 2006

Mudam as moscas...

Empurro a chave contra a fechadura. Um jeitinho e... já está. Dentro de casa atiro várias vezes com a porta até fechar. Largo as chaves na mesa da entrada e o computador em cima de um caixote de cartão – a Cristina não gosta que se ponha nada em cima da mesa. Descalço os sapatos. Largo a gravata e os botões de punho, desaperto o colarinho e arregaço as mangas da camisa.
Entro na cozinha, tiro o pacote de leite do frigorífico e bebo duas goladas. Faço um pão com manteiga e vou para a sala. Ligo a televisão, sento-me, ajeito as almofadas, encosto-me, estico-me.
Reparo que há qualquer coisa diferente. Não sei ao certo, mas sinto uma calma esquisita, um silêncio. Chamo pela Cristina mas ninguém responde.
Estranho, a esta hora ela já costuma estar em casa. Aliás, a esta hora, num dia normal, já eu estou com vontade de sair outra vez. A Cristina está sempre aos berros. Se ela soubesse como são os meus dias andava de joelhos para me agradecer a vida que tem, mas não, só sabe é chatear-me com merdas que não interessam a ninguém. É a fechadura, os sapatos, a roupa, o caraças. É porque bebo leite do pacote e é um nojo e tenho de dar o exemplo senão qualquer dia temos filhos e anda tudo a fazer a mesma porcaria cá em casa, porque utilizei a mesma faca para abrir o pão e barrar a manteiga e não pode ser, há facas para tudo, porque estou a comer na sala e nem um prato trouxe e vou encher tudo de migalhas e depois os empregados que limpem. Chata. Ela podia já ter percebido que eu depois faço. Mas não, tem de ser quando a madame entende.
Já deixei de sonhar com o dia em que eu entro em casa e lá está ela, lingerie preta, saltos altos, sorriso sedutor. Disponível.
Isso é uma coisa que pura e simplesmente não acontece num casamento. Pelo menos no meu não acontece. Lingerie nem a vejo, não sei como é. Sexo, ultimamente só em noites de festa ou casamentos: bebemos uns copos, dançamos e a coisa lá desencrava.
Agarro no comando e começo a saltar canais. Notícias, porcarias, séries de médicos, futebol. Páro no futebol. Agradeço intimamente ao motivo que reteve a Cristina. Onde será que ela anda? No supermercado, talvez. Um grande bem haja para ela.
Sinto-me bem e acabo por adormecer.

*****

Estou ajoelhada à porta, a mala despejada no chão, uma ilha no meio do caos. Qual será a reacção dele? Tenho a sensação de que a chave desapareceu só para me irritar. Como sempre acontece, enfim ela surge, reluzente no fundo da mala, como quem sorri a dizer – então não me vias? Estive sempre aqui. Estou nervosa e reparo nisso quando a minha mão faz a chave chocalhar contra a fechadura. Endireito-me, dou um toque no cabelo, passo as mãos pela cara.
Empurro a chave com força. Praguejo intimamente ao verificar que o Pedro continua a não a ter oleado. De facto, se não sou eu a tratar de tudo não há nada que apareça feito.
Não vou pensar nisso agora.
Com um jeitinho fecho a porta por dentro. Imediatamente a presença dele atinge-me como uma explosão. Chaves a arranhar a cómoda inglesa, pasta em cima da caixa do candeeiro, no mesmo sitio desde há sei lá quantos meses, sapatos, gravata, botões de punho, tudo espalhado. Espreito para a sala. O Pedro dorme no sofá com a respiração forte a fazer ondas no mar de migalhas que o envolve, a televisão sintonizada na Sport TV. Entro na cozinha sabendo já o que vou encontrar. Sem espanto nem fúria guardo o leite, meto a faca do pão na máquina, limpo a bancada com um pano húmido. Hoje não me apetece discutir. Aliás, tenho a impressão de que nem hoje nem nunca mais. Desisto de discutir.
Tenho pensado muito e principalmente conversado imenso. Na realidade, todas as mulheres se queixam do mesmo, da natureza dos homens. Fazem pouco, desarrumam tudo, não ouvem nada. Mas agora vejo as coisas com mais clareza e percebo que é inútil tentar mudar o meu marido. Os homens são mesmo todos iguais, um bocado como as crianças – temos de falar com calma, dizer apenas uma coisa de cada vez, não mandar, não gritar, não repetir. Ou não conseguimos nada deles. É deixá-los fazer o que querem, da forma que entendem. É sermos tão básicas quanto eles. É falar menos e rir mais. Eles gostam de ter graça, que nós lhes achemos graça.
Vou ao quarto, ponho a mala em cima da cadeira, arrumo o casaco no armário.
Estou mesmo convicta, hoje não me vou aborrecer. Visto a lingerie preta novinha à estreia, meias de liga, sapatos altos, maquilhagem ligeira, cabelo apanhado, perfume suave. Quantas vezes o Pedro já falou nisto? Continuo nervosa. Faço uma depilação sumária com a lâmina de barbear dele, dou um jeito nas sobrancelhas, não resisto a uma borbulha que fica marcada. Bolas!

Vou acordá-lo. Ele já está desperto mas ainda sem ter dado pela minha chegada. Não faz perguntas, aproveita simplesmente.
Enfim, a surpresa surpreende, os nervos desaparecem, é tudo muito romântico, estamos bem e sintonizados. Depois, enrolamos-nos um no outro, ficamos só assim, a olhar o vazio, a respirar a vida que afinal às vezes é calma. Penso como gosto dele, como tudo pode ser diferente se houver vontade. O Pedro levanta-se e vai à cozinha. Estou esfomeada e fico a sonhar com o que aí vem. Morangos e champagne? Talvez umas tostas de queijo e banana...
Ele volta satisfeito com duas sandwuiches de carne assada e dois batidos de morango. Penso no trabalho que esta refeição ainda me vai dar, mas não digo nada, estou positiva.
Encostamos-nos um ao outro e comemos com prazer.
Sinto-me imensamente curiosa por saber em que altura vai o Pedro decidir arrumar tudo o que deixou espalhado, mais o que fez na cozinha, mas aguento e não pergunto. Terá de ser ele a decidir. Conversamos como há muito não fazíamos, trocamos carícias e fazemos juras de amor eterno.
Algum tempo depois decidimos ir dormir. Vou sem olhar para trás. E ele também.

Na manhã seguinte acordamos sorridentes. O Pedro despacha-se rápidamente e sai de casa. Eu tenho tempo, vou tomar o pequeno-almoço. Saio do quarto, olho à volta. Como que anestesiada vou até à cozinha. E não me surpreendo. Nem me zango. Limito-me a sentar-me numa cadeira, esconder a cara nas mãos, e chorar.

5 comentários:

Anónimo disse...

Fartei-me de rir. QQ homem que o é se revê... A única questão é que realmente as mulheres são sempre a mesma coisa, o que torna o final previsível... ;-)

Anónimo disse...

Olha que não. Olha que não. Nem todos os homens são assim, nem todas as mulheres são assim. Há casos em que tudo se passa exactamente ao contrário... às vezes. E quando acontece é tão bom! (excepção feita à lingerie preta. Num homem... não fica assim tão bem. Enfim, cada um com o que tem) ;-)

Anónimo disse...

Parabéns pelo blogg, está muito bem escrito e acho que muitas/Muitos(?) se revêem nestas situações!E bem haja muitas mães que não "faziam nada", gostaria de não fazer nada pelo menos "dois dias" por semana!
MM

Anónimo disse...

A história das nossas vidas, não é? Bem escrito, continua gaja. Escreve um subordinado ao tema Silicone...

Anónimo disse...

Adorei.