-Bem malta, vou andando.
-Não vás já. Aguenta mais um bocado. O Manel ainda vem cá ter.
- Não, vou andando, ainda tenho que fazer.
- São quase 3 da manhã.
- Tenho coisas para tratar.
- De que é que vais tratar a esta hora?
- Vou tratar a minha vida.
- Deixem-na lá. Se ela quer ir embora, vai. Já está com as paranóias.
- Exacto. Vou. Beijinhos e até amanhã.
- Queres boleia?
- Não, não, deixa estar. É só um bocadinho, vou a pé.
Saio do restaurante bafiento para uma noite límpida e fresca. Enquanto caminho inspiro com força, prendo o ar por um bocado e depois deixo-o sair todo de uma vez. Três, quatro vezes seguidas. Desde miúda que faço isto, é como rodopiar. Com a tontura os objectos dançam, o cérebro baralha-se, tudo muda. Mas por um momento apenas. O momento em que saio do meu corpo e me vejo de longe, em que me sinto maior que eu. É apenas ilusão, eu sei. Preciso de mais que exercícios respiratórios para tratar a minha vida.
Tratar. Ora aí está uma boa palavra.Trata-se uma doença, trata-se uma ferida, um assunto, uma picada de insecto. Trata-se o que nos incomoda, o que nos ocupa o tempo, o que queremos despachar. Vou mesmo tratar a minha vida.
Subo os doze andares que separam o meu mini apartamento do chão. O elevador continua sem luz, hoje não me importo. Estou animada com a perspectiva.
Olho para a minha casa como se fosse a primeira vez, às vezes temos de fazer este exercício. A vida cega-nos, também por isso temos de tratá-la.
Deixamos de ver a nossa casa, os nossos amigos, a família, o trabalho, de nos ver a nós. Avançamos sobre as coisas como quem anda pela auto-estrada, sem apreciar o caminho. De vez em quando temos de tomar a estrada nacional, parar nos lugares típicos, comer devagar, ouvir os outros.
A mim ninguém me ouve. Se calhar ouve, mas não escuta.
Respondem-me, mas na realidade não sabem a quê. Tenho tanta gente à minha volta, muitos insistem que me conhecem, mas não.
Eu não existo.
Por isso ninguém me vê.
Cada um olha para mim como quer, como dá jeito, como aprendeu. Eu sou apenas uma imagem. E não há solidão maior.
Olho para a minha casa. Fui eu que a fiz, mas não sou eu. É um reflexo na água, distorcido. De mim? Nem por isso. Talvez da minha vida, da minha educação, de tudo o que pensei que devia ser. Tudo está como é suposto. Sofás em L - estimados; mesa no meio - arrumada; tapete por baixo - limpo; estante com livros - organizada; cortinas nas janelas - engomadas.
Mas eu não sou como devia. E estou cansada de tentar.
Reparo num quadro encostado e levanto-o. Avanço para a parede para o pendurar, mas de repente não me apetece. Se vou tratar a minha vida é melhor começar já. Não quero pendurar o quadro ali, nem sequer gosto muito dele. É um óleo antigo, presente de curso dos meus pais. Nele, uma mulher ainda jovem e elegante aproxima-se de uma casa no meio de um bosque ou jardim. A cabeça da mulher pende ligeiramente para a frente, como quem olha o chão para não tropeçar. Pela luz percebe-se que a cena se passa durante o dia, mas é tudo tão sombrio, tão abandonado que me entristece.
Não. Não vou pendurá-lo na parede da minha sala. Aí é onde ele “devia” estar.
Afinal não vou pendurá-lo sequer, não gosto dele, não o quero em minha casa, faz-me infeliz.
Agarro no quadro e atiro com ele para longe. Sabe-me bem. Pego-lhe de novo e começo a bater com ele. Contra tudo o que aparece. Portas, móveis, paredes, chão. Sinto-me tomada por uma espécie de felicidade histérica. Piso-o, espezinho-o, desfaço-o. Abandono-o. Desenfreada começo a varrer tudo, arranco cortinados e espalho os farrapos, atiro cadeiras, entorno armários, cómodas, prateleiras. Sinto-me livre, livre!
Rodopio com uma garrafa na mão e deixo o liquido pastoso escorrer. Por mim abaixo, pelas paredes acima. Sou livre. Faço o que me apetece, não tenho de explicar nem temer, não vou fingir mais. Estou a tratar a minha vida. Rio às gargalhadas.
Canso-me. Páro diante da janela e observo o reflexo que ela devolve. Aquela sou eu?
Dispo-me. Uma peça de cada vez, sem tirar os olhos do reflexo que me repete, até à nudez completa. Odeio o meu corpo, mete-me nojo.
Sempre o odiei, mas nunca ninguém compreendeu. Respondiam sempre - as minhas irmãs, as minhas amigas - que era um corpo invejável, que tinha mamas em quantidade e rabo em forma, quem dera a tanta gente, que eu não tinha razão nenhuma. Até se irritavam.
Mas o meu corpo não me pertence. Como a minha casa e a minha vida, o meu corpo não me diz nada. É falador, simpático, sorri para quem vai atrás, atira-se sobre quem está de frente. É expansivo, tem necessidades, pede atenção.
Eu não. Sou calada, encolhida, seca, insignificante. Não gosto dele, e ele não gosta de mim. Não me obedece, não me respeita, faz coisas que eu não quero fazer, fala de coisas que eu não quero falar.
Vou tratar a minha vida, por isso vou tratar o meu corpo. Não quero o que não me pertence.
A imagem à minha frente desvanece-se à medida que o vidro se afasta para o lado. No seu lugar surge a noite fresca e límpida que me trouxe. Chego-me à varanda e apoio-me no parapeito. Um arrepio percorre-me.
Penso em cada luz acesa. Pode ser uma casa, dentro dela estarão pessoas. Pode ser um carro, e transporta alguém. Pode ser um prédio, e nele morar muita gente. Essas pessoas serão todas diferentes, muitas delas cobardes, em menor número os felizes mas, quase nenhuns serão verdadeiros. Como eu.
Quantas dessas pessoas terão alguma vez tido a coragem de tratar a sua vida? Quantas dessas pessoas terão tido a franqueza de enfrentar o seu fracasso?
Subo para o muro da varanda. 12 andares separam a minha carne do chão. Separo as pernas e os braços. Inspiro fundo, com força. Sustenho o ar por um bocado e depois deixo-o sair todo de uma vez. Duas, três, quatro vezes.
Quantas pessoas estarão neste momento a peparar-se para fazer o que eu vou fazer? Quantas, das que pensam conhecer-me, sequer suspeitam?
Finalmente a verdade. Pela primeira vez na vida faço algo em que acredito.
A tontura. Fecho os olhos, atiro a cabeça para trás e o corpo para a frente.
Sou livre, faço o que quero e o que quero, é voar.
Cristina desliga o computador e encosta-se para trás na cadeira. Fecha os olhos e estica-se com força.
Pedro chama do quarto
– então, não te deitas?
- estou a acabar. É só tratar uma coisa.
Cristina levanta-se e despe, peça por peça, a roupa que tem vestida.
2 comentários:
muito bom Marta! parabéns!
este anónimo aqui de cima era eu...
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