Era uma vez um menino muito querido e que se portava sempre muito bem. Esse menino tinha um sonho: ter um cão. Acontece que ele vivia com a avó velhinha e ela não lhe dava um porque não podia tomar conta dele. Por muito que o menino dissesse que tomaria conta do bicho, a velhota não acreditava e mantinha-se irredutível.
Um dia o menino ia para a escola quando ouviu na beira do caminho uma espécie de gemido. Procurou para ver o que seria e, debaixo de um monte de ervas encontrou um cachorrinho que tremia muito assustado. Comoveu-se, e mesmo sabendo que a avó não queria, decidiu levar o animal para casa.
Decidiu nesse dia ser responsável por esse bichinho e que ele seria sempre a sua prioridade em tudo. Mesmo contra os avisos da senhora prometeu alimentá-lo, brincar com ele, passeá-lo, dar-lhe banho, enfim tomar conta dele. E o cachorro feliz, depressa se transformou num lindo cão, barulhento e brincalhão como são os cães. Foram tempos muito felizes para os dois. Pasavam o tempo todo juntos sempre no maior companheirismo e amizade. Nunca se separavam um do outro.
Mas o tempo foi passando e chegou o Verão. E com ele chegaram os convites para férias e temporadas com os primos e os amigos. Era a época do ano de que o menino mais gostava. Praia e diversão todo o dia durante semanas e semanas. Mas com o Verão chegou também o problema do cão. O que havia de lhe fazer? Não podia levá-lo para as férias e em casa também não podia ficar. Pensou, pensou, pensou e decidiu agarrar nas suas poupanças e meter o cão num canil.
Nesse dia a avó chamou-lhe a atenção – Olha, um animal não é uma coisa que se deixe por aí de qualquer maneira. Ele está muito habituado a ti e vai reagir mal.
- Não vai nada. Ele é esperto e eu não posso deixar de ir nas minhas férias por causa dele.
E assim fez. E foi bom porque apesar de o ter deixado prostrado e com aquela carinha de abandono e de no regresso ter encontrado o animal ofendido, a crise depressa lhe passou e voltaram a ser os bons amigos de sempre. Mas mais convites vieram e a todos o menino queria atender: era o fim de semana em casa do amigo e ia o cão para casa do primo A; era a festa na quinta distante do amigo B e era o cão atirado para o canil de novo e assim por diante. No regresso ele compensava sempre o cachorro pelas suas ausências, mas de facto de cada vez o menino menos paciência tinha para dedicar ao seu animal que o adorava e sofria com estas mudanças.
Pouco a pouco o bicho foi-se habituando a andar sozinho. Saía de casa de manhã e voltava apenas de noite. O menino sabia que ele voltava sempre, por isso nem se preocupava em saber o que fazia ele durante o dia, o que comia nem por onde andava. Sabia apenas que ao cair do dia o cão voltava sempre. E o menino achava graça a esta nova relação. Não tinha de estar sempre a pensar no que fazer ao animal porque ele não parava em casa e não dava trabalho nenhum à avó, e como passava o tempo todo sujo nem sequer valia a pena dar-lhe banho e muito menos levá-lo a passear. Era o melhor dos mundos – Nos dias frios de Inverno, sempre que lhe apetecia ficar por casa, lá ficava o seu amigo fiel, deitado no chão a aquecer-lhe os pés, sempre sedento de alguma atenção. Assim que o tempo melhorava lá iam os dois para a rua - às vezes juntos, às vezes cada um para seu lado, sem compromisso nenhum. E o animal já nem gania quando o menino o deixava em casa nem estava sempre a pedir-lhe atenção. De tal maneira que em pouco tempo até passou a dormir no jardim. Afinal já era crescido para dormir numa caminha dentro de casa.
Certo dia, ao pôr do sol o cão não voltou para casa como era hábito. O menino entrou em desespero: o cachorro nunca fizera isto. Sem saber onde ir foi para a rua a ver se o via. Depois de procurar toda a noite voltou para casa de braços caídos e coração nas mãos. Ao cabo de muitos dias e alguns anúncios descobriu o cão em casa de um vizinho.
O vizinho era um pouco mais velho que ele próprio e ao abrir a porta trazia o animal ao colo. Ao fazer o gesto de lhe pegar para o levar, o cão assustou-se e com uma feroz rosnadela a acompanhar deu-lhe uma valente dentada na mão. O menino de tão surpreendido nem sentiu a dor. Afinal a dor no coração era maior.
O vizinho pediu muitas desculpas e que ele tentasse entender – o cão e ele eram muito amigos. Passavam juntos tardes e tardes de brincadeira desde há muitos meses. Era inclusivamente lá em casa que ele comia durante o dia e até tinha uma caminha para dormir a sesta. O rapaz nem sabia que o animal tinha dono...
Há uns dias o cão tinha sido atropelado ali perto. Como não tinha coleira e o vizinho não sabia se pertencia a alguém nem se preocupou em procurar e recolheu-o na sua casa. Tratou-o, mimou-o e ficaram ainda mais amigos.
Agora, ao fim destes dias, parece que ele já não queria voltar...
1 comentário:
Vejo aqui... uma alegoria talvez? Cuidado homem. Não sejas como o menino... o cão ainda te foge. ;-)
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