Ela, sete anos. Dentro do carro, entre dois suspiros:
- Ai mãe, hoje estou tão desconsolada...
- Estás filha? E porque é que estás desconsolada?
(silêncio)
- Mãe, o que é desconsolada?
Para mulheres chatas, para mulheres que acham que são chatas, para mulheres que acham que os homens as acham umas chatas, para homens chatos, para homens que acham as mulheres umas chatas, para mulheres que acham os homens uns chatos porque as acham umas chatas... Para toda a gente, portanto.
quinta-feira, novembro 30, 2006
segunda-feira, novembro 27, 2006
Crianças...
Ele, cinco anos , deitado na cama, quase a dormir:
- Ó mãããe, como é que se aprende?
- A ouvir com muita atenção e a treinar muito.
- E como é que eles metem fechaduras nas portas?
- Então, com parafusos, puxadores e uma máquina de fazer buracos, como a do pai.
- E como é que as adultas engravidam?
- Ora, só quando são muito crescidos, quando já são marido e mulher, os adultos dão muitos beijinhos e depois vai uma sementinha para a barriga da mulher.
- De que cor?
- Não sei, deve ser transparente, é muito pequenina.
- E depois como é que crescem os braços e as pernas aos bebés?
- Crescem, à medida que o tempo passa, e depois o bebé nasce já todo completo.
- E como é que ele toma banho dentro da barriga? A mãe bebe o champô?
- ...
- Ó mãããe, como é que se aprende?
- A ouvir com muita atenção e a treinar muito.
- E como é que eles metem fechaduras nas portas?
- Então, com parafusos, puxadores e uma máquina de fazer buracos, como a do pai.
- E como é que as adultas engravidam?
- Ora, só quando são muito crescidos, quando já são marido e mulher, os adultos dão muitos beijinhos e depois vai uma sementinha para a barriga da mulher.
- De que cor?
- Não sei, deve ser transparente, é muito pequenina.
- E depois como é que crescem os braços e as pernas aos bebés?
- Crescem, à medida que o tempo passa, e depois o bebé nasce já todo completo.
- E como é que ele toma banho dentro da barriga? A mãe bebe o champô?
- ...
sexta-feira, novembro 24, 2006
Direito de resposta
"o homem (propositadamente com letra minúscula) é vítima e agente, ao mesmo tempo, de um sistema social ocidental milenar".
Hã, hã. Sim, sim. Pois.
Amigo Bud (wiser considero inadequado),
Em relação a isto tenho a dizer duas coisas:
Uma - Vítima é a pessoa perseguida, injustiçada, sacrificada, desgraçada, ludibriada por ou ao serviço dos interesses de alguém. Se o homem é vítima de alguma coisa, é apenas de si próprio. A maioria dos homens são uns bananas (excepção feita a meia dúzia de casos), indolentes, moles, passivos e desinteressados. Pior e maior erro, substimam-nos constantemente.
A outra é - Homens, se as vossas mulheres são insuportáveis e vos dão cabo do juizo, a culpa é certamente vossa.
E tenho dito!
Hã, hã. Sim, sim. Pois.
Amigo Bud (wiser considero inadequado),
Em relação a isto tenho a dizer duas coisas:
Uma - Vítima é a pessoa perseguida, injustiçada, sacrificada, desgraçada, ludibriada por ou ao serviço dos interesses de alguém. Se o homem é vítima de alguma coisa, é apenas de si próprio. A maioria dos homens são uns bananas (excepção feita a meia dúzia de casos), indolentes, moles, passivos e desinteressados. Pior e maior erro, substimam-nos constantemente.
A outra é - Homens, se as vossas mulheres são insuportáveis e vos dão cabo do juizo, a culpa é certamente vossa.
E tenho dito!
terça-feira, novembro 07, 2006
Nós NÃO SOMOS CHATAS!
São umas chuvosas quatro da tarde de um Domingo qualquer. Já que vão ficar por casa, Cristina decide fazer umas limpezas. Pedro não está interessado no programa. A Formula 1 está a começar, é o Grande Prémio de despedida do Schumacher, as arrumações que esperem.
Pois sim, mas não pode ser. A casa está um nojo, não é limpa desde que a Rosa foi para a terra, há uma semana. E não é todos os Domingos que se apanham os dois sem crianças numa tarde horrível, perfeita para essas tarefas. Não tarda estão os três de volta e depois é que ninguém consegue fazer nada.
Cristina decide começar na mesma. Arranca desenfreada e areja a casa, faz as camas, pendura as toalhas de rosto no toalheiro, as de banho no aquecedor. Sacode os tapetes, bate as almofadas, apanha a roupa para lavar, dobra a que está apenas desarrumada. Recolhe alguns brinquedos, limpa o pó aos quartos e lava as casas de banho. Terminada a zona de dormir, Cristina dirige-se à cozinha, furiosa com a visão do marido impassível esparramado pelo sofá.
De repente a loiça que sai da máquina parece ter a mesma opinião que ela, pratos batem uns contra os outros a caminho do armário, copos chocalham contra os que já estão arrumados,
talheres parecem saltar para dentro da gaveta, mas de vez em quando desiquilibram-se e espalham-se no chão com estardalhaço.
- Cristina, o que é que estás a fazer? – pergunta Pedro sem mexer nem uma pestana.
- Nada – responde ela - O que é que achas?
- Senta-te aqui um bocado.
- Oh sim, claro. E isto faz-se sozinho. Se me ajudasses eu depois até me sentava, mas agora não posso.
Pedro distrai-se com um percalço do seu piloto favorito. Um furo, parece.
Cristina continua nas suas limpezas. Agora aspira. Aspira tudo, primeiro a cozinha, o corredor e depois a sala. Estranho, há ali qualquer coisa agarrada ao chão, mesmo em frente do televisor, que parece não sair. Cristina insiste, insiste, aspira, aspira, até que o marido perde a cabeça.
- Desculpa lá, mas tens que vir fazer isso agora?
- E queres que eu faça quando, quando os miúdos chegarem?
- Mas não aspiraste já o suficiente?
- Não. Se limpo é para ficar bem limpo.
- Deixa estar. Eu já faço isso. Senta-te aqui e já acabamos isso os dois.
- Pensas que eu não te conheço? Se depender de ti vivemos num chiqueiro, no meio do esterco absoluto. E para além de não ser higiénico, não foi assim que eu fui educada e é um mau exemplo para os miúdos. Mas deixa-te estar. Eu faço. Eu faço tudo. Longe de mim perturbar o senhor barão. Deixe-me só recordar sua alteza porque é que eu me recuso a despedir a Rosa. Aqui está um bom exemplo do que seria se eu a mandasse embora. Eu é que não ando a dormir, meu amigo. Já bem basta ter de aturar isto quando ela vai de férias.
- Porra que é chata, caraças. Diz lá então o que é que queres que eu faça.
Pedro levanta-se e desliga o televisor.
- Eu não quero que tu faças nada, não percebeste ainda? Se tu quiseres fazes, se não vai-te lixar.
- Diz lá, eu quero fazer. Estou ansioso!
- Há roupa para estender e roupa estendida para dobrar e passar a ferro. É preciso meter a loiça na máquina, lavar o chão da cozinha e a casa de banho da entrada. Mais nada, o resto já eu fiz.
Cristina senta-se no sofá anteriormente ocupado pelo real traseiro do marido. Pega numa revista e recosta-se. Pedro avança para o estendal e começa a dobrar a roupa toda. Cristina levanta-se imediatamente e vai beber um copo de água.
- Pedro, a roupa não é toda para dobra, há aí coisas que têm de ser passadas.
- Que coisas? Para além das minhas camisas não há nada que precise de ser passado.
- Então não há? Achas que vou guardar nas gavetas pijamas que parecem panos de chão?
- E que mal é que tem, não podes dormir com um pijama amarrotado?
- E os miúdos, vão para a escola assim?
- Que mal tem? Endireita-se com a mão, olha.
- Não quero as coisas nas minhas gavetas, na minha casa, nesse estado, pronto. E as meias são para juntar aos pares. Se metes tudo ao molho nunca mais usas duas meias iguais.
Cristina bufa desesperada.
- Porra que tenho eu que fazer tudo! Deixa lá que eu faço isto, mete a loiça na máquina, então.
Pedro, com maus modos e pior vontade, faz o que lhe diz a mulher e dirige-se para a sala.
- Pedro, os tachos têm de ser lavados à mão, senão ficam na mesma. Estes que estavam aqui já saíram sujos na máquina anterior.
- Deixa estar, são lavados outra vez, pode ser que fiquem melhores.
- Mas assim a loiça do jantar não cabe e vamos ter de fazer outra máquina. E gasta muita água.
- Estás preocupada com a água que a máquina gasta, mas lavas o lixo que é para reciclar.
- Claro, senão fica a cheirar mal.
- Se o despejares não fica.
- E se o lavares eu não preciso de estar sempre a despejá-lo.
- Tu?
- Sim, eu. Há quanto tempo não tiras um saco do caixote?
- Tiro sempre.
- Deixa-me rir. Vai mas é limpar a casa de banho em vez de estares a dizer disparates.
- Pára de me dar ordens.
- Se não as der tu não fazes nada...
Quando acabou de dobrar a roupa Cristina lavou o chão da cozinha e foi espreitar que tal se safava o marido nas limpezas.
Ficou horrorizada.
- Estás doido? Tu por acaso estás a limpar a retrete com o esfregão da loiça?
- E qual é o mal? Tem detergente, e sabes para que é que serve o detergente? Para desinfectar, imagina tu.
- Porco! Que nojo. Achas que eu agora vou limpar a mesa da cozinha com o mesmo pano que serviu para esfregar a tua merda? Realmente és mais útil na sala. Pira-te daqui (parece anormal, porra!). Vai, se faz favor, buscar o pano azul que está na prateleira pequena do armário da cozinha. E com cuidado que eu acabei de lavar o chão.
Pedro atira com o pano que tinha na mão pelos ares e logo por azar este cai dentro da sanita.
Cristina lança-lhe um olhar furibundo e range os dentes para se conter, enquanto ele se dirige à cozinha. Assim que ele coloca o pézinho calçado em cima do seu chão acabadinho de esterilizar, Cristina descontrola-se e desata aos berros.
Pedro agarra na chave e avança para a porta.
- Estás louca. É só o que te digo, estás completamente louca e queres que eu enlouqueça também.
- Onde é que vais?
- Buscar os miúdos. Entretanto vê lá se te acalmas.
Sai e atira a porta com brutalidade.
Cristina olha para o chão e vê bocadinhos de estuque espalhados por todo o lado. Abre a porta e sai atrás dele.
Pois sim, mas não pode ser. A casa está um nojo, não é limpa desde que a Rosa foi para a terra, há uma semana. E não é todos os Domingos que se apanham os dois sem crianças numa tarde horrível, perfeita para essas tarefas. Não tarda estão os três de volta e depois é que ninguém consegue fazer nada.
Cristina decide começar na mesma. Arranca desenfreada e areja a casa, faz as camas, pendura as toalhas de rosto no toalheiro, as de banho no aquecedor. Sacode os tapetes, bate as almofadas, apanha a roupa para lavar, dobra a que está apenas desarrumada. Recolhe alguns brinquedos, limpa o pó aos quartos e lava as casas de banho. Terminada a zona de dormir, Cristina dirige-se à cozinha, furiosa com a visão do marido impassível esparramado pelo sofá.
De repente a loiça que sai da máquina parece ter a mesma opinião que ela, pratos batem uns contra os outros a caminho do armário, copos chocalham contra os que já estão arrumados,
talheres parecem saltar para dentro da gaveta, mas de vez em quando desiquilibram-se e espalham-se no chão com estardalhaço.
- Cristina, o que é que estás a fazer? – pergunta Pedro sem mexer nem uma pestana.
- Nada – responde ela - O que é que achas?
- Senta-te aqui um bocado.
- Oh sim, claro. E isto faz-se sozinho. Se me ajudasses eu depois até me sentava, mas agora não posso.
Pedro distrai-se com um percalço do seu piloto favorito. Um furo, parece.
Cristina continua nas suas limpezas. Agora aspira. Aspira tudo, primeiro a cozinha, o corredor e depois a sala. Estranho, há ali qualquer coisa agarrada ao chão, mesmo em frente do televisor, que parece não sair. Cristina insiste, insiste, aspira, aspira, até que o marido perde a cabeça.
- Desculpa lá, mas tens que vir fazer isso agora?
- E queres que eu faça quando, quando os miúdos chegarem?
- Mas não aspiraste já o suficiente?
- Não. Se limpo é para ficar bem limpo.
- Deixa estar. Eu já faço isso. Senta-te aqui e já acabamos isso os dois.
- Pensas que eu não te conheço? Se depender de ti vivemos num chiqueiro, no meio do esterco absoluto. E para além de não ser higiénico, não foi assim que eu fui educada e é um mau exemplo para os miúdos. Mas deixa-te estar. Eu faço. Eu faço tudo. Longe de mim perturbar o senhor barão. Deixe-me só recordar sua alteza porque é que eu me recuso a despedir a Rosa. Aqui está um bom exemplo do que seria se eu a mandasse embora. Eu é que não ando a dormir, meu amigo. Já bem basta ter de aturar isto quando ela vai de férias.
- Porra que é chata, caraças. Diz lá então o que é que queres que eu faça.
Pedro levanta-se e desliga o televisor.
- Eu não quero que tu faças nada, não percebeste ainda? Se tu quiseres fazes, se não vai-te lixar.
- Diz lá, eu quero fazer. Estou ansioso!
- Há roupa para estender e roupa estendida para dobrar e passar a ferro. É preciso meter a loiça na máquina, lavar o chão da cozinha e a casa de banho da entrada. Mais nada, o resto já eu fiz.
Cristina senta-se no sofá anteriormente ocupado pelo real traseiro do marido. Pega numa revista e recosta-se. Pedro avança para o estendal e começa a dobrar a roupa toda. Cristina levanta-se imediatamente e vai beber um copo de água.
- Pedro, a roupa não é toda para dobra, há aí coisas que têm de ser passadas.
- Que coisas? Para além das minhas camisas não há nada que precise de ser passado.
- Então não há? Achas que vou guardar nas gavetas pijamas que parecem panos de chão?
- E que mal é que tem, não podes dormir com um pijama amarrotado?
- E os miúdos, vão para a escola assim?
- Que mal tem? Endireita-se com a mão, olha.
- Não quero as coisas nas minhas gavetas, na minha casa, nesse estado, pronto. E as meias são para juntar aos pares. Se metes tudo ao molho nunca mais usas duas meias iguais.
Cristina bufa desesperada.
- Porra que tenho eu que fazer tudo! Deixa lá que eu faço isto, mete a loiça na máquina, então.
Pedro, com maus modos e pior vontade, faz o que lhe diz a mulher e dirige-se para a sala.
- Pedro, os tachos têm de ser lavados à mão, senão ficam na mesma. Estes que estavam aqui já saíram sujos na máquina anterior.
- Deixa estar, são lavados outra vez, pode ser que fiquem melhores.
- Mas assim a loiça do jantar não cabe e vamos ter de fazer outra máquina. E gasta muita água.
- Estás preocupada com a água que a máquina gasta, mas lavas o lixo que é para reciclar.
- Claro, senão fica a cheirar mal.
- Se o despejares não fica.
- E se o lavares eu não preciso de estar sempre a despejá-lo.
- Tu?
- Sim, eu. Há quanto tempo não tiras um saco do caixote?
- Tiro sempre.
- Deixa-me rir. Vai mas é limpar a casa de banho em vez de estares a dizer disparates.
- Pára de me dar ordens.
- Se não as der tu não fazes nada...
Quando acabou de dobrar a roupa Cristina lavou o chão da cozinha e foi espreitar que tal se safava o marido nas limpezas.
Ficou horrorizada.
- Estás doido? Tu por acaso estás a limpar a retrete com o esfregão da loiça?
- E qual é o mal? Tem detergente, e sabes para que é que serve o detergente? Para desinfectar, imagina tu.
- Porco! Que nojo. Achas que eu agora vou limpar a mesa da cozinha com o mesmo pano que serviu para esfregar a tua merda? Realmente és mais útil na sala. Pira-te daqui (parece anormal, porra!). Vai, se faz favor, buscar o pano azul que está na prateleira pequena do armário da cozinha. E com cuidado que eu acabei de lavar o chão.
Pedro atira com o pano que tinha na mão pelos ares e logo por azar este cai dentro da sanita.
Cristina lança-lhe um olhar furibundo e range os dentes para se conter, enquanto ele se dirige à cozinha. Assim que ele coloca o pézinho calçado em cima do seu chão acabadinho de esterilizar, Cristina descontrola-se e desata aos berros.
Pedro agarra na chave e avança para a porta.
- Estás louca. É só o que te digo, estás completamente louca e queres que eu enlouqueça também.
- Onde é que vais?
- Buscar os miúdos. Entretanto vê lá se te acalmas.
Sai e atira a porta com brutalidade.
Cristina olha para o chão e vê bocadinhos de estuque espalhados por todo o lado. Abre a porta e sai atrás dele.
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