São umas chuvosas quatro da tarde de um Domingo qualquer. Já que vão ficar por casa, Cristina decide fazer umas limpezas. Pedro não está interessado no programa. A Formula 1 está a começar, é o Grande Prémio de despedida do Schumacher, as arrumações que esperem.
Pois sim, mas não pode ser. A casa está um nojo, não é limpa desde que a Rosa foi para a terra, há uma semana. E não é todos os Domingos que se apanham os dois sem crianças numa tarde horrível, perfeita para essas tarefas. Não tarda estão os três de volta e depois é que ninguém consegue fazer nada.
Cristina decide começar na mesma. Arranca desenfreada e areja a casa, faz as camas, pendura as toalhas de rosto no toalheiro, as de banho no aquecedor. Sacode os tapetes, bate as almofadas, apanha a roupa para lavar, dobra a que está apenas desarrumada. Recolhe alguns brinquedos, limpa o pó aos quartos e lava as casas de banho. Terminada a zona de dormir, Cristina dirige-se à cozinha, furiosa com a visão do marido impassível esparramado pelo sofá.
De repente a loiça que sai da máquina parece ter a mesma opinião que ela, pratos batem uns contra os outros a caminho do armário, copos chocalham contra os que já estão arrumados,
talheres parecem saltar para dentro da gaveta, mas de vez em quando desiquilibram-se e espalham-se no chão com estardalhaço.
- Cristina, o que é que estás a fazer? – pergunta Pedro sem mexer nem uma pestana.
- Nada – responde ela - O que é que achas?
- Senta-te aqui um bocado.
- Oh sim, claro. E isto faz-se sozinho. Se me ajudasses eu depois até me sentava, mas agora não posso.
Pedro distrai-se com um percalço do seu piloto favorito. Um furo, parece.
Cristina continua nas suas limpezas. Agora aspira. Aspira tudo, primeiro a cozinha, o corredor e depois a sala. Estranho, há ali qualquer coisa agarrada ao chão, mesmo em frente do televisor, que parece não sair. Cristina insiste, insiste, aspira, aspira, até que o marido perde a cabeça.
- Desculpa lá, mas tens que vir fazer isso agora?
- E queres que eu faça quando, quando os miúdos chegarem?
- Mas não aspiraste já o suficiente?
- Não. Se limpo é para ficar bem limpo.
- Deixa estar. Eu já faço isso. Senta-te aqui e já acabamos isso os dois.
- Pensas que eu não te conheço? Se depender de ti vivemos num chiqueiro, no meio do esterco absoluto. E para além de não ser higiénico, não foi assim que eu fui educada e é um mau exemplo para os miúdos. Mas deixa-te estar. Eu faço. Eu faço tudo. Longe de mim perturbar o senhor barão. Deixe-me só recordar sua alteza porque é que eu me recuso a despedir a Rosa. Aqui está um bom exemplo do que seria se eu a mandasse embora. Eu é que não ando a dormir, meu amigo. Já bem basta ter de aturar isto quando ela vai de férias.
- Porra que é chata, caraças. Diz lá então o que é que queres que eu faça.
Pedro levanta-se e desliga o televisor.
- Eu não quero que tu faças nada, não percebeste ainda? Se tu quiseres fazes, se não vai-te lixar.
- Diz lá, eu quero fazer. Estou ansioso!
- Há roupa para estender e roupa estendida para dobrar e passar a ferro. É preciso meter a loiça na máquina, lavar o chão da cozinha e a casa de banho da entrada. Mais nada, o resto já eu fiz.
Cristina senta-se no sofá anteriormente ocupado pelo real traseiro do marido. Pega numa revista e recosta-se. Pedro avança para o estendal e começa a dobrar a roupa toda. Cristina levanta-se imediatamente e vai beber um copo de água.
- Pedro, a roupa não é toda para dobra, há aí coisas que têm de ser passadas.
- Que coisas? Para além das minhas camisas não há nada que precise de ser passado.
- Então não há? Achas que vou guardar nas gavetas pijamas que parecem panos de chão?
- E que mal é que tem, não podes dormir com um pijama amarrotado?
- E os miúdos, vão para a escola assim?
- Que mal tem? Endireita-se com a mão, olha.
- Não quero as coisas nas minhas gavetas, na minha casa, nesse estado, pronto. E as meias são para juntar aos pares. Se metes tudo ao molho nunca mais usas duas meias iguais.
Cristina bufa desesperada.
- Porra que tenho eu que fazer tudo! Deixa lá que eu faço isto, mete a loiça na máquina, então.
Pedro, com maus modos e pior vontade, faz o que lhe diz a mulher e dirige-se para a sala.
- Pedro, os tachos têm de ser lavados à mão, senão ficam na mesma. Estes que estavam aqui já saíram sujos na máquina anterior.
- Deixa estar, são lavados outra vez, pode ser que fiquem melhores.
- Mas assim a loiça do jantar não cabe e vamos ter de fazer outra máquina. E gasta muita água.
- Estás preocupada com a água que a máquina gasta, mas lavas o lixo que é para reciclar.
- Claro, senão fica a cheirar mal.
- Se o despejares não fica.
- E se o lavares eu não preciso de estar sempre a despejá-lo.
- Tu?
- Sim, eu. Há quanto tempo não tiras um saco do caixote?
- Tiro sempre.
- Deixa-me rir. Vai mas é limpar a casa de banho em vez de estares a dizer disparates.
- Pára de me dar ordens.
- Se não as der tu não fazes nada...
Quando acabou de dobrar a roupa Cristina lavou o chão da cozinha e foi espreitar que tal se safava o marido nas limpezas.
Ficou horrorizada.
- Estás doido? Tu por acaso estás a limpar a retrete com o esfregão da loiça?
- E qual é o mal? Tem detergente, e sabes para que é que serve o detergente? Para desinfectar, imagina tu.
- Porco! Que nojo. Achas que eu agora vou limpar a mesa da cozinha com o mesmo pano que serviu para esfregar a tua merda? Realmente és mais útil na sala. Pira-te daqui (parece anormal, porra!). Vai, se faz favor, buscar o pano azul que está na prateleira pequena do armário da cozinha. E com cuidado que eu acabei de lavar o chão.
Pedro atira com o pano que tinha na mão pelos ares e logo por azar este cai dentro da sanita.
Cristina lança-lhe um olhar furibundo e range os dentes para se conter, enquanto ele se dirige à cozinha. Assim que ele coloca o pézinho calçado em cima do seu chão acabadinho de esterilizar, Cristina descontrola-se e desata aos berros.
Pedro agarra na chave e avança para a porta.
- Estás louca. É só o que te digo, estás completamente louca e queres que eu enlouqueça também.
- Onde é que vais?
- Buscar os miúdos. Entretanto vê lá se te acalmas.
Sai e atira a porta com brutalidade.
Cristina olha para o chão e vê bocadinhos de estuque espalhados por todo o lado. Abre a porta e sai atrás dele.
2 comentários:
Um post em que se denota a parcialidade da autora, obviamente.Os traços caricaturais do homem estão de longe mais exagerados.O que se compreende.
No fundo, o homem (propositadamente com letra minúscula) é vítima e agente, ao mesmo tempo, de um sistema social ocidental milenar.
Nós vivemos com a culpa mas nunca a admitiremos.Tentamos minimizar os danos com quotas e tiques cavalheirescos.Parvoíces!
Mais uma vez parece que estou a assistir à cena toda...
Será mesmo igual em todas as casas??
Raios partam os homens!!!!
Enviar um comentário