terça-feira, janeiro 23, 2007

Episódio II

A cena da janela tinha sido verdadeiramente memorável. Uma peixeirada triste com a consequência inevitável de um corte de relações entre ela e a vizinha. E entre ela e o marido, também.
Depois de se confrontar com a asneira que a mulher tinha acabado de fazer, à chegada à varanda, Pedro desatou numa gritaria louca, onde descontrolada, desiquilibrada e irresponsável foram os epítetos mais suaves que lhe dirigiu.
E por muito que Cristina clamasse que tinha sido um acidente, nada o amansou. Entretanto a vizinha irrompeu-lhes pelo jardim para se juntar ao festival de agressões, o que foi mais dramático ainda. A senhora, dos seus 70 anos, vivia sozinha e tinha sido acordada pelo rebentamento do vidro. E estava muito perturbada. Apresentou-se então com a gadelha cinzenta em riste e o punho eriçado a sair de um roupão quase desfeito, certamente a reviver os gloriosos tempos de luta estudantil. Tinha resolvido, a senhora, beber uns goles de “qualquer coisa que lhe acalmasse os nervos” antes de ir pedir satisfações. Ora, eram nove horas da manhã, a vizinha estaria certamente em jejum de uma noite. O corpo, carente e desidratado, reagiu mal e a senhora trazia, portanto, uma valente bebedeira.
Cristina, por sua vez, encontrava-se muito nervosa. Começara por se atrasar imenso para o o encontro com as amigas, mas se fosse só isso, tudo bem. Só que depois a fúria por o marido não acudir ao filho que chorava, a queda na varanda, o vidro partido, a discussão com Pedro e, finalmente, uma velha bêbeda entrar-lhe pela casa dentro a insultá-la, foram impulsos eléctricos a mais. Assim que a vizinha começou a desbobinar os impropérios que o alcool não censurou, Cristina teve um ataque de riso tão violento, convulsivo e hormonal, que acabou num inevitável ataque de choro igualmente abrupto, espasmódico e descontrolado.
Pior. O marido que já antes considerava que ela precisava de um internamento urgente, tomou partido da velhota alcoolizada e o nível da conversa afundou-se de vez.
No início, depois de acalmar a risota, Cristina deitou água na fervura, tentou alertar o marido para o facto de a esposa ser ela, por isso ser mais lógico que ele ficasse do seu lado, que estavam ali os filhos e tal. Tentou chamar a senhora à razão, explicou-lhe que fazia melhor em tomar um chá e meter-se na cama, que naquelas condições não fazia ali nada de útil.
Estava a ser-lhe difícil manter o controlo, até porque Cristina tinha um incomodativo mau feitio que não precisava de muito rastilho para explodir. Mas ao ver que nada surtia efeito sobre os seus adversários, cessou de lutar contra si mesma e deixou-se ir. E aí é que foram elas.
De tal maneira foi a triste cena que acabou com uma Cristina lavada em lágrimas acocorada no meio da relva, enquanto o marido controlado levava uma vizinha apopléctica e alcoolizada em braços, de regresso a casa.
Quando voltou à sua, Pedro regozijou-se por aquilo não ter acontecido em sua casa, estava feliz por tê-la intacta e bem estimada.
Com um desejo tão forte de sentir outra vez que estava tudo normal, Pedro não reparou que estilhaços era o que mais havia à sua volta. Pedaços, fragmentos, havia-os por todo o lado. Os do seu casamento.

segunda-feira, janeiro 22, 2007

É um homem do Norte...

Sentadinhos à mesa de um restaurante, os três petizes e sua mãezinha.
Petiza espertinha de 7 anos:
- Ò mãããeee, a Verinha está a tirar grões de arroz do meu prato!
Mãezinha paciente:
- Deixa-a lá, se já tivesses acabado de comer ela não estava a mexer no teu prato. E não é grões, é grãos que se diz. E quando se fala de arroz até acho mais correcto dizer bago, grão é assim mais redondinho..(nem sei se isto é assim, mas pareceu-me bem, na altura).
Petiza espertinha de 7 anos:
- Desculpa lá Mãe, mas nem é bago, é baga que se diz!

Neste momento, o petiz do meio, aluado, despassarado, etéreo, considerou pertinente envolver-se na conversa:
Petiz aluado de 5 anos:
- Eu sei o que é uma baga...
Mãezinha paciente, já de sorriso a tremelicar no canto da boca, imaginando o que se seguiria:
- Então, diz lá o que é.
Petiz aluado de 5 anos:
- É quando há muita gente para entrar num sitio mas os lugares não chegam para todos.

É ou não é um homem do norte?

sexta-feira, janeiro 12, 2007

Episódio I

Já estava atrasada e corria de um lado para o outro. Enquanto enfiava coisas na mala ia entoando uma ladaínha sem interlocutor: pijama, creme de dia, desmaquilhante, se calhar levo o creme de noite também, e o de corpo, pode apetecer-me depois do banho...secador, escova de cabelo, de dentes, de sobrancelhas..não esta não é preciso. Calças de ganga. Não, de algodão. De algodão, são mais cómodas que as de ganga e no carro faz diferença. É melhor levar mais umas, nunca se sabe...
De repente Cristina parou o que estava a fazer para se colocar à escuta. Primeiro incerta, mas depois absolutamente segura do que tinha ouvido - um dos filhos chorava no jardim. Aguentou alguns segundos, a ver se o marido socorria a criança, mas como não observava movimentações nesse sentido decidiu ir ela própria ver o que se passava.
Nervosa por estar cada vez mais atrasada, Cristina resolveu sair para o jardim pelo janelão da sala. Exasperou-se ao ver um monte de almofadas à volta de um monte de bonecos, mesmo em frente à passagem. A praguejar um pouco mais alto do que devia, levantou a perna direita para passar por cima do obstáculo e saltar directamente para a varanda, mas desiquilibrou-se e acabou por aterrar com força mas sem firmeza. Imediatamente sentiu o pé fugir-lhe. Para não se espalhar em esparregata agarrou-se ao cortinado e, com um puxão, saltou para a frente, numa tentativa desesperada de juntar o pé esquerdo ao outro. Não mediu a força de impulso e viu-se práticamente a voar janela fora, para finalmente se estatelar no chão ao lado da criança que agora ria a bandeiras despregadas.
Atordoada, sentou-se e olhou à volta em busca do culpado. Depressa os seus olhos, ainda ofuscados pelo brilho do sol da manhã, encontraram o que procuravam: encostado à parede, encarando-a como que a desafiá-la, estava um patim. Um patim, porra! Pequeno, azul e prateado, novinho em folha.
Louca de fúria, Cristina levantou-se, agarrou no aparelho assassino e juntando todas as suas forças, atirou-o tão longe quanto conseguiu. Arrependeu-se tarde demais. Um baque seco, a explosão, um segundo... e o grito estridente de uma mulher. Os seus receios estavam confirmados.
Pedro aproximou-se, de passo lento e mãos nos bolsos, do local onde Cristina e o filho mais velho se encontravam estarrecidos a olhar para a frente.
Para uma janela de um apartamento no prédio em frente.
- O que é que se passa aqu...? – as palavras de Pedro congelaram, tal como tudo o resto, aliás, quando foi atingido pelo que tinha acontecido. Dava a ideia de ter passado um anjo anestesista que tinha salpicado aquelas três almas com pózinhos mágicos de parar o tempo. Dois adultos e uma criança, absolutamente estáticos apoiados no rebordo de uma varanda, de olhos e bocas escancarados, a tentar compreender a dimensão dos estragos.
No prédio da frente, a janela trucidada continuava lá, não desaparecia como se não quisesse fazer a vontade de Cristina de que tudo fosse apenas um pesadelo.
Pouco depois o feitiço quebrou-se e, do interior da moribunda janela, surgiu uma cabeça de mulher, desgrenhada, surpreendida e furiosa, que lançava dardos em chama pelas pálpebras intumescidas de quem acabou de ser acordada.(continua)