A cena da janela tinha sido verdadeiramente memorável. Uma peixeirada triste com a consequência inevitável de um corte de relações entre ela e a vizinha. E entre ela e o marido, também.
Depois de se confrontar com a asneira que a mulher tinha acabado de fazer, à chegada à varanda, Pedro desatou numa gritaria louca, onde descontrolada, desiquilibrada e irresponsável foram os epítetos mais suaves que lhe dirigiu.
E por muito que Cristina clamasse que tinha sido um acidente, nada o amansou. Entretanto a vizinha irrompeu-lhes pelo jardim para se juntar ao festival de agressões, o que foi mais dramático ainda. A senhora, dos seus 70 anos, vivia sozinha e tinha sido acordada pelo rebentamento do vidro. E estava muito perturbada. Apresentou-se então com a gadelha cinzenta em riste e o punho eriçado a sair de um roupão quase desfeito, certamente a reviver os gloriosos tempos de luta estudantil. Tinha resolvido, a senhora, beber uns goles de “qualquer coisa que lhe acalmasse os nervos” antes de ir pedir satisfações. Ora, eram nove horas da manhã, a vizinha estaria certamente em jejum de uma noite. O corpo, carente e desidratado, reagiu mal e a senhora trazia, portanto, uma valente bebedeira.
Cristina, por sua vez, encontrava-se muito nervosa. Começara por se atrasar imenso para o o encontro com as amigas, mas se fosse só isso, tudo bem. Só que depois a fúria por o marido não acudir ao filho que chorava, a queda na varanda, o vidro partido, a discussão com Pedro e, finalmente, uma velha bêbeda entrar-lhe pela casa dentro a insultá-la, foram impulsos eléctricos a mais. Assim que a vizinha começou a desbobinar os impropérios que o alcool não censurou, Cristina teve um ataque de riso tão violento, convulsivo e hormonal, que acabou num inevitável ataque de choro igualmente abrupto, espasmódico e descontrolado.
Pior. O marido que já antes considerava que ela precisava de um internamento urgente, tomou partido da velhota alcoolizada e o nível da conversa afundou-se de vez.
No início, depois de acalmar a risota, Cristina deitou água na fervura, tentou alertar o marido para o facto de a esposa ser ela, por isso ser mais lógico que ele ficasse do seu lado, que estavam ali os filhos e tal. Tentou chamar a senhora à razão, explicou-lhe que fazia melhor em tomar um chá e meter-se na cama, que naquelas condições não fazia ali nada de útil.
Estava a ser-lhe difícil manter o controlo, até porque Cristina tinha um incomodativo mau feitio que não precisava de muito rastilho para explodir. Mas ao ver que nada surtia efeito sobre os seus adversários, cessou de lutar contra si mesma e deixou-se ir. E aí é que foram elas.
De tal maneira foi a triste cena que acabou com uma Cristina lavada em lágrimas acocorada no meio da relva, enquanto o marido controlado levava uma vizinha apopléctica e alcoolizada em braços, de regresso a casa.
Quando voltou à sua, Pedro regozijou-se por aquilo não ter acontecido em sua casa, estava feliz por tê-la intacta e bem estimada.
Com um desejo tão forte de sentir outra vez que estava tudo normal, Pedro não reparou que estilhaços era o que mais havia à sua volta. Pedaços, fragmentos, havia-os por todo o lado. Os do seu casamento.
5 comentários:
Ficou muito fixe!!!!
Parabéns!!!!
Mana B
Isto é tudo muito complexo...
BOLAZ! Confesso que não cheguei lá!
O Episódio II é, tal como o nome indica, a sequência do Episódio I...:-)
Sim. Obrigado, MCE.
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