sexta-feira, janeiro 12, 2007

Episódio I

Já estava atrasada e corria de um lado para o outro. Enquanto enfiava coisas na mala ia entoando uma ladaínha sem interlocutor: pijama, creme de dia, desmaquilhante, se calhar levo o creme de noite também, e o de corpo, pode apetecer-me depois do banho...secador, escova de cabelo, de dentes, de sobrancelhas..não esta não é preciso. Calças de ganga. Não, de algodão. De algodão, são mais cómodas que as de ganga e no carro faz diferença. É melhor levar mais umas, nunca se sabe...
De repente Cristina parou o que estava a fazer para se colocar à escuta. Primeiro incerta, mas depois absolutamente segura do que tinha ouvido - um dos filhos chorava no jardim. Aguentou alguns segundos, a ver se o marido socorria a criança, mas como não observava movimentações nesse sentido decidiu ir ela própria ver o que se passava.
Nervosa por estar cada vez mais atrasada, Cristina resolveu sair para o jardim pelo janelão da sala. Exasperou-se ao ver um monte de almofadas à volta de um monte de bonecos, mesmo em frente à passagem. A praguejar um pouco mais alto do que devia, levantou a perna direita para passar por cima do obstáculo e saltar directamente para a varanda, mas desiquilibrou-se e acabou por aterrar com força mas sem firmeza. Imediatamente sentiu o pé fugir-lhe. Para não se espalhar em esparregata agarrou-se ao cortinado e, com um puxão, saltou para a frente, numa tentativa desesperada de juntar o pé esquerdo ao outro. Não mediu a força de impulso e viu-se práticamente a voar janela fora, para finalmente se estatelar no chão ao lado da criança que agora ria a bandeiras despregadas.
Atordoada, sentou-se e olhou à volta em busca do culpado. Depressa os seus olhos, ainda ofuscados pelo brilho do sol da manhã, encontraram o que procuravam: encostado à parede, encarando-a como que a desafiá-la, estava um patim. Um patim, porra! Pequeno, azul e prateado, novinho em folha.
Louca de fúria, Cristina levantou-se, agarrou no aparelho assassino e juntando todas as suas forças, atirou-o tão longe quanto conseguiu. Arrependeu-se tarde demais. Um baque seco, a explosão, um segundo... e o grito estridente de uma mulher. Os seus receios estavam confirmados.
Pedro aproximou-se, de passo lento e mãos nos bolsos, do local onde Cristina e o filho mais velho se encontravam estarrecidos a olhar para a frente.
Para uma janela de um apartamento no prédio em frente.
- O que é que se passa aqu...? – as palavras de Pedro congelaram, tal como tudo o resto, aliás, quando foi atingido pelo que tinha acontecido. Dava a ideia de ter passado um anjo anestesista que tinha salpicado aquelas três almas com pózinhos mágicos de parar o tempo. Dois adultos e uma criança, absolutamente estáticos apoiados no rebordo de uma varanda, de olhos e bocas escancarados, a tentar compreender a dimensão dos estragos.
No prédio da frente, a janela trucidada continuava lá, não desaparecia como se não quisesse fazer a vontade de Cristina de que tudo fosse apenas um pesadelo.
Pouco depois o feitiço quebrou-se e, do interior da moribunda janela, surgiu uma cabeça de mulher, desgrenhada, surpreendida e furiosa, que lançava dardos em chama pelas pálpebras intumescidas de quem acabou de ser acordada.(continua)

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