Fez ontem duas semanas que o Migas nos cagou o carro todo.
Acho que já estamos todos mais habituados uns aos outros, mas ainda temos um longo caminho pela frente.
No sábado passado levámo-lo às vacinas. Foi a primeira vez que viu uma trela e passou-se. Parecia um louco, a saltar e espernear que nem um touro de rodeo americano.
Aqui é altura de abrir um parêntesis:
O único cão que tive na minha vida - até este - nem estou certa de que possa ser classificado de cão. Para já era uma cadela, depois era caniche toy, uma coisinha minuscula e perturbada dos neurónios, com excesso de hormonas e que sofria de complexo de Pit Bull.
Mas uma vez que a boca da cadela não era maior que o gargalo de uma mini, ninguém se ralava muito com os acessos da pequena. Até porque tínhamos alguma condescendência pelo facto de ela ter ficado virgem - toda a gente sabe que isso dá cabo dos nervos.
Acontece que este caso é diferente. Aqui estamos a falar de um cão que a médio prazo acabará por se transformar num burro ( ou numa vaca, como diz a Vera), de peso algures entre os 50 e os 60 quilos. O mesmo que eu, portanto. Animal assim não deverá habituar-se a manifestações singelas de carinho e alegria como saltar em cima das pessoas, abocanhar durante as brincadeiras ou desatar a correr mal saia de casa.
Vai daí, decidi treinar o cão.
Comecei por procurar na Internet treinadores profissionais. Depois percebi que essa não seria uma boa aposta, pois o que acabaria por acontecer seria ele obedecer ao treinador e não a nós. A solução teria de passar por um treino caseiro. Ministrado por mim.
Inscrevi-me num site, onde enviam dicas de adestramento (brasileiro, claro está) por email. Inscrevi-me num outro onde uma senhora explica passo a passo como treinar o cachorro de grande porte com "treino de reforço positivo". Isto, adaptado aos cães deve ser uma teoria daquelas que sugere aos pais não contrariarem as crianças, não gritarem com elas e deixarem-nas crescer como cavalos selvagens num apartamento. Ainda assim pareceu-me bem não basear o treino em gritos e jornaladas.
Li tudo o que havia para ler e passei à fase da implementação.
O primeiro treino foi, portanto, incluído na ida ao veterinário para levar a vacina. A colocação da trela.
Uma das coisas que aprendi sobre os cães é que eles só querem que os donos gostem deles, por isso gostam de nos fazer felizes. Assim, uma das técnicas do reforço positivo é, quando o cachorro faz uma coisa que o dono não aprova, este deve manter-se firme e ignorá-lo, para ele perceber que o dono não está feliz. Voltar-se de costas, olhar para o céu... enfim.
Então, coloquei a trela e instantâneamente ele começou naquela maluqueira. Ora eu, bem instruída que estava, mantive-me firme e de costas enquanto ele puxava e repuxava. Até que senti um alívio repentino na pressão da trela. Pois voltei-me e lá estava o belo do Migas, que de tanto puxar, conseguiu alargar a coleira até ela lhe sair pela cabeça e estava a roer aquilo tudo. Reforço positivo uma merda. Zanguei-me com ele, o Filipe pegou nele ao colo e meteu-o no carro.
Na viagem portou-se lindamente. Calminho até. Nós todos felizes porque fizemos uma viagem de carro em que ele se absteve de nos brindar com dejectos de qualquer espécie. Os miúdos calmos. Uma alegria.
No vaterinário também correu tudo lindamente. A médica virou-o do avesso e até conseguiu ver-lhe a temperatura enfiando-lhe um termómetro pelo rabo.
No fim, achei que ele se tinha portado tão bem que merecia um prémio. Parti um biscoito dos dele em seis e dei-lhe um pedacinho de meio centímetro. O Filipe ficou doido. Dizia-me que eu não podia fazer aquilo, que os cães funcionam no entra e sai automático, que ele ia sujar o carro todo outra vez. Eu desvalorizei, era apenas um mini pedacito.
Saímos da clínica. Arrancámos. Percorremos uns dois quilómetros e pronto, mais um monte de bosta espalhado pela mala do carro. Mais uma viagem de janelas abertas e crianças aos berros. Mais uma discussão em que eu defendia que não tinha sido do biscoito, mas do termómetro no rabo, como se faz aos bebés quando estão presos.
Mais uma vez, chegados ao destino, tive de limpar aquela merda toda ( e de novo literalmente).
Para mulheres chatas, para mulheres que acham que são chatas, para mulheres que acham que os homens as acham umas chatas, para homens chatos, para homens que acham as mulheres umas chatas, para mulheres que acham os homens uns chatos porque as acham umas chatas... Para toda a gente, portanto.
segunda-feira, agosto 31, 2009
domingo, agosto 23, 2009
Já temos cão!
Faz amanhã oito dias. É um Rafeiro do Alentejo, lindo de morrer. Está quase a fazer três meses, é ainda um bebé. Tão querido!
Não sei se foi um mosquito que nos mordeu, se o que foi, mas depois de termos três filhos e de já termos passado por tudo o que isso implica, como a mais nova já tem quase cinco anos e já é autónoma como se tivesse dezassete, como agora íamos poder ter um bocadinho de paz, decidimos que o que os nossos meninos precisavam mesmo não era de férias na neve, nem nas Ilhas Maurícias. Era de um cão. Afinal quem é que quer andar de avião nesta altura, não é?
Mas podíamos ter escolhido um de raça maneirinha, de porte médio, sei lá. Só que, como temos espaço, decidimos que um cão grande é que era. Grande não, gigante.
Fomos buscá-lo a uma terriola algures perto de Monforte, quase em Espanha. Desde que o tínhamos visto, em Junho, acabado de nascer, cresceu para o dobro. Aumentou o peso para qualquer coisa entre o triplo e o quádruplo. Quando o vimos, os miúdos entraram em pânico, nós e o bicho também.
Levávamos uma caixa amorosa, de cartão, que o reteve dentro do carro exactamente 2 segundos. Foi até pormos o carro a trabalhar. Depois disso descemos ao inferno. E ficámos lá durante mais de duas horas.
Duas horas e tal de viagem sem conseguirmos manter o animal na mala do carro. A rede que separa essa parte do resto não chega bem aos lados e ele conseguiu passar. Durante todo o tempo o Migas - é assim que se chama - saltou em cima de nós, dos bancos, de tudo, coitadinho. Nervoso.
A Vera teve um chilique e (até devia ter vergonha de dizer isto) veio o caminho quase todo ao meu colo, no banco da frente, a chorar. A dada altura o pobre sucumbiu à nervoseira e foi ali mesmo, no banco de trás: a mais fétida diarreia que já tive o desprazer de inalar.
Foi o caos.
Parados em plena autoestrada, arranquei a t-shirt ao Vasco, o Filipe tirou a dele e vai disto - esfregar aquela merda (literalmente). Não há, felizmente, que eu conheça, palavras que descrevam o cheiro, mas posso dar uma ideia da confusão: os miúdos todos aos berros, o cão histérico, eu e o Filipe aos gritos. Eu confesso que me deixo sugestionar por aqueles mails cheios de estatísitcas desgraçadas e só pensava na quantidade de acidentes que acontecem com carros que estão parados em auto-estradas, o que contribuiu talvez um bocadinho só para aumentar a tensão.
Por fim, lá deitamos fora as duas t-shirts, tirámos os tapetes do chão do carro e cobrimos o assento de trás o melhor que pudemos. E arrancámos outra vez.
Desta feita, cortei uns pedaços de cartão do caixote e fiquei a segurar de um lado, enquanto o Vasco e a Teresa se revesavam, entre gritos e choradeiras, a segurar do outro. O canito lá se manteve no sitio, mas ainda muito agitado.
Já perto de Lisboa, acho que logo depois da Ponte, não estou certa - essas memórias ficaram nebulosas - fomos carinhosamente brindados com segunda dose. Só que desta não tínhamos mais com que limpar, portanto fizemos o resto do caminho com as janelas escancaradas, a 180, com o cão intervaladamente a patinar em cima daquilo e a tentar sair dali.
Lá chegámos a casa. Ao novo lar do cachorrinho. A uma nova vida para todos nós.
E fomos dar-lhe banho. E limpar aquela porcaria toda. E gastar uma autêntica fortuna em redes, estacas, casota, comedouros, ração, escova, brinquedos, coleira, chapinha e o caraças.
Mas é bom para as crianças, não é?
(Se alguém me explicasse porquê é que eu agradecia).
Não sei se foi um mosquito que nos mordeu, se o que foi, mas depois de termos três filhos e de já termos passado por tudo o que isso implica, como a mais nova já tem quase cinco anos e já é autónoma como se tivesse dezassete, como agora íamos poder ter um bocadinho de paz, decidimos que o que os nossos meninos precisavam mesmo não era de férias na neve, nem nas Ilhas Maurícias. Era de um cão. Afinal quem é que quer andar de avião nesta altura, não é?
Mas podíamos ter escolhido um de raça maneirinha, de porte médio, sei lá. Só que, como temos espaço, decidimos que um cão grande é que era. Grande não, gigante.
Fomos buscá-lo a uma terriola algures perto de Monforte, quase em Espanha. Desde que o tínhamos visto, em Junho, acabado de nascer, cresceu para o dobro. Aumentou o peso para qualquer coisa entre o triplo e o quádruplo. Quando o vimos, os miúdos entraram em pânico, nós e o bicho também.
Levávamos uma caixa amorosa, de cartão, que o reteve dentro do carro exactamente 2 segundos. Foi até pormos o carro a trabalhar. Depois disso descemos ao inferno. E ficámos lá durante mais de duas horas.
Duas horas e tal de viagem sem conseguirmos manter o animal na mala do carro. A rede que separa essa parte do resto não chega bem aos lados e ele conseguiu passar. Durante todo o tempo o Migas - é assim que se chama - saltou em cima de nós, dos bancos, de tudo, coitadinho. Nervoso.
A Vera teve um chilique e (até devia ter vergonha de dizer isto) veio o caminho quase todo ao meu colo, no banco da frente, a chorar. A dada altura o pobre sucumbiu à nervoseira e foi ali mesmo, no banco de trás: a mais fétida diarreia que já tive o desprazer de inalar.
Foi o caos.
Parados em plena autoestrada, arranquei a t-shirt ao Vasco, o Filipe tirou a dele e vai disto - esfregar aquela merda (literalmente). Não há, felizmente, que eu conheça, palavras que descrevam o cheiro, mas posso dar uma ideia da confusão: os miúdos todos aos berros, o cão histérico, eu e o Filipe aos gritos. Eu confesso que me deixo sugestionar por aqueles mails cheios de estatísitcas desgraçadas e só pensava na quantidade de acidentes que acontecem com carros que estão parados em auto-estradas, o que contribuiu talvez um bocadinho só para aumentar a tensão.
Por fim, lá deitamos fora as duas t-shirts, tirámos os tapetes do chão do carro e cobrimos o assento de trás o melhor que pudemos. E arrancámos outra vez.
Desta feita, cortei uns pedaços de cartão do caixote e fiquei a segurar de um lado, enquanto o Vasco e a Teresa se revesavam, entre gritos e choradeiras, a segurar do outro. O canito lá se manteve no sitio, mas ainda muito agitado.
Já perto de Lisboa, acho que logo depois da Ponte, não estou certa - essas memórias ficaram nebulosas - fomos carinhosamente brindados com segunda dose. Só que desta não tínhamos mais com que limpar, portanto fizemos o resto do caminho com as janelas escancaradas, a 180, com o cão intervaladamente a patinar em cima daquilo e a tentar sair dali.
Lá chegámos a casa. Ao novo lar do cachorrinho. A uma nova vida para todos nós.
E fomos dar-lhe banho. E limpar aquela porcaria toda. E gastar uma autêntica fortuna em redes, estacas, casota, comedouros, ração, escova, brinquedos, coleira, chapinha e o caraças.
Mas é bom para as crianças, não é?
(Se alguém me explicasse porquê é que eu agradecia).
Subscrever:
Comentários (Atom)