Faz amanhã oito dias. É um Rafeiro do Alentejo, lindo de morrer. Está quase a fazer três meses, é ainda um bebé. Tão querido!
Não sei se foi um mosquito que nos mordeu, se o que foi, mas depois de termos três filhos e de já termos passado por tudo o que isso implica, como a mais nova já tem quase cinco anos e já é autónoma como se tivesse dezassete, como agora íamos poder ter um bocadinho de paz, decidimos que o que os nossos meninos precisavam mesmo não era de férias na neve, nem nas Ilhas Maurícias. Era de um cão. Afinal quem é que quer andar de avião nesta altura, não é?
Mas podíamos ter escolhido um de raça maneirinha, de porte médio, sei lá. Só que, como temos espaço, decidimos que um cão grande é que era. Grande não, gigante.
Fomos buscá-lo a uma terriola algures perto de Monforte, quase em Espanha. Desde que o tínhamos visto, em Junho, acabado de nascer, cresceu para o dobro. Aumentou o peso para qualquer coisa entre o triplo e o quádruplo. Quando o vimos, os miúdos entraram em pânico, nós e o bicho também.
Levávamos uma caixa amorosa, de cartão, que o reteve dentro do carro exactamente 2 segundos. Foi até pormos o carro a trabalhar. Depois disso descemos ao inferno. E ficámos lá durante mais de duas horas.
Duas horas e tal de viagem sem conseguirmos manter o animal na mala do carro. A rede que separa essa parte do resto não chega bem aos lados e ele conseguiu passar. Durante todo o tempo o Migas - é assim que se chama - saltou em cima de nós, dos bancos, de tudo, coitadinho. Nervoso.
A Vera teve um chilique e (até devia ter vergonha de dizer isto) veio o caminho quase todo ao meu colo, no banco da frente, a chorar. A dada altura o pobre sucumbiu à nervoseira e foi ali mesmo, no banco de trás: a mais fétida diarreia que já tive o desprazer de inalar.
Foi o caos.
Parados em plena autoestrada, arranquei a t-shirt ao Vasco, o Filipe tirou a dele e vai disto - esfregar aquela merda (literalmente). Não há, felizmente, que eu conheça, palavras que descrevam o cheiro, mas posso dar uma ideia da confusão: os miúdos todos aos berros, o cão histérico, eu e o Filipe aos gritos. Eu confesso que me deixo sugestionar por aqueles mails cheios de estatísitcas desgraçadas e só pensava na quantidade de acidentes que acontecem com carros que estão parados em auto-estradas, o que contribuiu talvez um bocadinho só para aumentar a tensão.
Por fim, lá deitamos fora as duas t-shirts, tirámos os tapetes do chão do carro e cobrimos o assento de trás o melhor que pudemos. E arrancámos outra vez.
Desta feita, cortei uns pedaços de cartão do caixote e fiquei a segurar de um lado, enquanto o Vasco e a Teresa se revesavam, entre gritos e choradeiras, a segurar do outro. O canito lá se manteve no sitio, mas ainda muito agitado.
Já perto de Lisboa, acho que logo depois da Ponte, não estou certa - essas memórias ficaram nebulosas - fomos carinhosamente brindados com segunda dose. Só que desta não tínhamos mais com que limpar, portanto fizemos o resto do caminho com as janelas escancaradas, a 180, com o cão intervaladamente a patinar em cima daquilo e a tentar sair dali.
Lá chegámos a casa. Ao novo lar do cachorrinho. A uma nova vida para todos nós.
E fomos dar-lhe banho. E limpar aquela porcaria toda. E gastar uma autêntica fortuna em redes, estacas, casota, comedouros, ração, escova, brinquedos, coleira, chapinha e o caraças.
Mas é bom para as crianças, não é?
(Se alguém me explicasse porquê é que eu agradecia).
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