segunda-feira, agosto 31, 2009

E a vida continua

Fez ontem duas semanas que o Migas nos cagou o carro todo.
Acho que já estamos todos mais habituados uns aos outros, mas ainda temos um longo caminho pela frente.

No sábado passado levámo-lo às vacinas. Foi a primeira vez que viu uma trela e passou-se. Parecia um louco, a saltar e espernear que nem um touro de rodeo americano.

Aqui é altura de abrir um parêntesis:
O único cão que tive na minha vida - até este - nem estou certa de que possa ser classificado de cão. Para já era uma cadela, depois era caniche toy, uma coisinha minuscula e perturbada dos neurónios, com excesso de hormonas e que sofria de complexo de Pit Bull.
Mas uma vez que a boca da cadela não era maior que o gargalo de uma mini, ninguém se ralava muito com os acessos da pequena. Até porque tínhamos alguma condescendência pelo facto de ela ter ficado virgem - toda a gente sabe que isso dá cabo dos nervos.
Acontece que este caso é diferente. Aqui estamos a falar de um cão que a médio prazo acabará por se transformar num burro ( ou numa vaca, como diz a Vera), de peso algures entre os 50 e os 60 quilos. O mesmo que eu, portanto. Animal assim não deverá habituar-se a manifestações singelas de carinho e alegria como saltar em cima das pessoas, abocanhar durante as brincadeiras ou desatar a correr mal saia de casa.
Vai daí, decidi treinar o cão.
Comecei por procurar na Internet treinadores profissionais. Depois percebi que essa não seria uma boa aposta, pois o que acabaria por acontecer seria ele obedecer ao treinador e não a nós. A solução teria de passar por um treino caseiro. Ministrado por mim.
Inscrevi-me num site, onde enviam dicas de adestramento (brasileiro, claro está) por email. Inscrevi-me num outro onde uma senhora explica passo a passo como treinar o cachorro de grande porte com "treino de reforço positivo". Isto, adaptado aos cães deve ser uma teoria daquelas que sugere aos pais não contrariarem as crianças, não gritarem com elas e deixarem-nas crescer como cavalos selvagens num apartamento. Ainda assim pareceu-me bem não basear o treino em gritos e jornaladas.
Li tudo o que havia para ler e passei à fase da implementação.
O primeiro treino foi, portanto, incluído na ida ao veterinário para levar a vacina. A colocação da trela.
Uma das coisas que aprendi sobre os cães é que eles só querem que os donos gostem deles, por isso gostam de nos fazer felizes. Assim, uma das técnicas do reforço positivo é, quando o cachorro faz uma coisa que o dono não aprova, este deve manter-se firme e ignorá-lo, para ele perceber que o dono não está feliz. Voltar-se de costas, olhar para o céu... enfim.
Então, coloquei a trela e instantâneamente ele começou naquela maluqueira. Ora eu, bem instruída que estava, mantive-me firme e de costas enquanto ele puxava e repuxava. Até que senti um alívio repentino na pressão da trela. Pois voltei-me e lá estava o belo do Migas, que de tanto puxar, conseguiu alargar a coleira até ela lhe sair pela cabeça e estava a roer aquilo tudo. Reforço positivo uma merda. Zanguei-me com ele, o Filipe pegou nele ao colo e meteu-o no carro.

Na viagem portou-se lindamente. Calminho até. Nós todos felizes porque fizemos uma viagem de carro em que ele se absteve de nos brindar com dejectos de qualquer espécie. Os miúdos calmos. Uma alegria.
No vaterinário também correu tudo lindamente. A médica virou-o do avesso e até conseguiu ver-lhe a temperatura enfiando-lhe um termómetro pelo rabo.
No fim, achei que ele se tinha portado tão bem que merecia um prémio. Parti um biscoito dos dele em seis e dei-lhe um pedacinho de meio centímetro. O Filipe ficou doido. Dizia-me que eu não podia fazer aquilo, que os cães funcionam no entra e sai automático, que ele ia sujar o carro todo outra vez. Eu desvalorizei, era apenas um mini pedacito.
Saímos da clínica. Arrancámos. Percorremos uns dois quilómetros e pronto, mais um monte de bosta espalhado pela mala do carro. Mais uma viagem de janelas abertas e crianças aos berros. Mais uma discussão em que eu defendia que não tinha sido do biscoito, mas do termómetro no rabo, como se faz aos bebés quando estão presos.
Mais uma vez, chegados ao destino, tive de limpar aquela merda toda ( e de novo literalmente).

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