Tanto se tem escrito ultimamente sobre este assunto, que eu prometi a mim mesma não lhe tocar nem com uma palavra. Nem às eleições, nem à gripe.
Mas hoje a minha filha mais velha comunicou-me, com um gáudio completamente despropositado, uma vez que não faz a mínima ideia do que se trata, que o Verão Azul ia voltar a dar na televisão.
Comecei por lhe explicar no meu tom mais maternal e condescendente que não, que ela estava a confundir, deveria ser outra coisa qualquer, mas depois, uma amiga dela que estava presente, corroborou, também muito excitada - ainda não percebi se é verdade ou se estavam a falar dos DVD da Planeta Agostini.
E depois perguntaram-me as duas: o que é o Verão Azul?
Cristo, como é que se explica a duas crianças de dez anos o que foi o Verão Azul?
Haveria tanto para dizer antes...
Mas como é que se explica a duas crianças que vivem no dilema de escolher um de entre mais de duzentos canais de televisão e que têm telemóvel e computador portátil com ligação à Internet, que nós passámos a nossa infância apenas com dois canais à escolha e que tudo o que víamos era a cinza e sépia?
Como é que se explica a duas crianças de dez anos que fazem férias no estrangeiro e passam a vida em programas com os amigos, em shoppings com doze salas de cinema ou num dos milhares de Mac Donald's que há por todo o lado, que nós passávamos os fins de semana em casa, muitas vezes com os avós, e que não tínhamos muito mais que fazer que não fosse batota ao Monopólio, andar de biciclata, bater nos irmãos ou ver os programas de BD eslovaca do Vasco Granja. Ou, quanto muito, o Dallas?
O Verão Azul não foi apenas uma série, foi A série. A primeiríssima série juvenil jamais transmitida em Portugal. Feita para nós. Só para nós. E a cores. Uma série com protagonistas de carne e osso (e não de plasticina), com problemas infanto-adolescentes iguaizinhos aos nossos, que passavam férias na praia exactamente como nós, que andavam em bicicletas velhas como as nossas, só que, em vez de terem os pais em cima o tempo todo, tinham dois velhotes amorosos e super compreensivos que nunca levantavam a voz nem os castigavam, mesmo quando eles passavam um episódio inteiro a fazer asneiras.
Lembro-me tão bem de corrermos todos para a pequena Grundig da sala assim que escutávamos os primeiros acordes da inconfundível música do genérico, que eu morria de desgosto por não conseguir assobiar...
Eu era a Bea.
Recordo como se fosse ontem uma cena em que ela, triste com um qualquer drama da sua recém adolescência, de sandálias na mão, passeava nostálgica à beira-mar. Sozinha. E de como eu passei a sonhar viver suficientemente perto da praia para poder fazer uma coisa assim - sair de casa e ir chorar dramáticamente descalça num areal deserto, de olhos em alvo na direcção de um oceano calmo e transparente, para, no final ele aparecer, aquele por quem eu chorava - que devido a um muito conveniente episódio telepático, me tinha encontrado - e acabava por abraçar com amor.
(É que a minha realidade era um tudo nada diferente: além de sermos uma família relativamente numerosa, o que impossibilitava por completo qualquer sonho de solidão, vivíamos a quilómetros da praia, sendo que a mais próxima era o Guincho, if you know what I mean...).
Enfim, era isto o Verão Azul. E não há forma de o explicar à minha filha. Só espero que um dia ela tenha o seu para tentar explicar aos meus netos. Seria muito bom para ela.
2 comentários:
Parabéns Marta, ...por colocares aqui a única explicação, descrição, memórias, o possível de dizer, sobre o que foi a nossa meninice. - Um grande bj !
Obrigada!
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