A questão filosófica era, a beijoca - havia quem defendesse que as crianças devem sempre cumprimentar toda a gente de beijinho, eu dizia redondamente que não.
O argumento pro-beijo era que se trata apenas de uma questão de educação - quem não beija é mal educado. Pronto.
Mas isso não é assim. A coisa não é tão simples como pode parecer - o problema alcança uma distância bem mais profunda. Pode até levar à ruina de uma família. Bom, vá, talvez nem tanto, mas pode deixar marcas.
Vejamos:
Beijar é um acto universal de demonstração de afecto, certo? Em algumas sociedades catar os piolhos também o é e não é por isso que andamos por aí a espiolhar-nos uns aos outros - por acaso até há quem ande, mas pronto.
E devemos ensiná-los a demontrar esse afecto por qualquer pessoa? Devemos ensinar os nossos meninos a pular para o colo da ministra da Educação que foi à escola inaugurar a cantina, do senhor Joaquim da mercearia, da senhora da carrinha que vai buscar o recente colega de natação, do namorado da irmã mais velha do primo da melhor amiga, e beijá-los profusamente?
Bem me parecia.
Agora, se passamos os primeiros dez anos da vida deles a obrigá-los a beijar tudo o que mexe, poderemos surpreender-nos quando se tornarem beijadores compulsivos? Como reagiremos quando a filha da nossa amiga for conhecida por Marrona, a amiga dela por Ferrinhos, a outra por Batoque e a sobrinha da vossa irmã, de repente passar a ser a Beijona? Como impedir o nascimento prematuro de uma daquelas reputações capazes de a preceder por uma adolescência inteira e ainda parte da idade adulta? Haja coerência!
Só para cimentar esta ideia, vamos lá debruçar-nos sobre alguns conceitos:
Cumprimento:
Acto de cumprir.
2. Execução; observância.
3. Acto!Ato de cumprimentar; saudação; vénia.
4. Cerimónia.
dar cumprimento: executar, cumprir.
por cumprimento: por cerimónia (mas sem vontade).
Esta defenição foi retirada ipsis verbis do Dicionário de Lingua Portuguesa da Porto Editora. E que eu veja não diz em lado nenhum que das definições de cumprimento façam parte os actos de: beijar; beijocar; afinfar beijocas fôfas em bochechas gordas e sapudas de velhotas enjoativas; sugar pequenos pedaços àsperos das faces suadas de cavalheiros com halitose; encostar a boca a uma superficie e emitir um som ridiculo parecido com o que o desentupidor de canos faz no lavatório.
Aqui fala-se em vénia, por exemplo. O acto de cumprimentar com cerimónia, guardando uma certa distância. Uma coisa muito mais elegante, civilizada e higiénica que poderá até preservar os nossos meninos de gripes, constipações e isso. Assim sim. Como eu gostaria de ver os meus esterilizados meninos a fazerem vénias a torto e a direito, tão arrumadinhos e primorosos.
Deixemos de sonhar. Temos outro conceito:
Beijo:
s. m.
1. Acção de beijar.
2. Toque de lábios em pessoa ou coisa.
3. Ósculo.
beijo de Judas: beijo traiçoeiro.
beijo de paz: o que se dá em sinal de reconciliação.
Cá está - Onde é que diz aqui - cumprimento; forma de cumprimentar outrém?
Exacto. Não diz.
Aliás, fala-se aqui de beijo traiçoeiro e de beijo de paz. Eu é que não estou a ver nenhum destes como motivo para fazer os nossos pequenos principes andarem a esbeijocar o mundo inteiro. traíram alguém? Não. Têm de pedir perdão por terem nascido? Também não.
Nem sequer nos estou a ver, mães e pais extremosos, a enfiar o Zovirax na lancheira do almoço dos nossos petizes, logo ali ao lado do Clearasil e da sande de Nutella.
Ah, podem vir ainda perguntar então como é que se cumprimenta alguém de quem não se gosta ou que não se conhece?
Simples. Se ensinamos os nossos filhos a serem sinceros, fontais e a não dizerem mentiras, é nosso dever, nossa obrigação, estimular essas qualidades - por isso não devem, pura e simplesmente cumprimentar pessoas de quem não gostam. E já que os ensinamos a nunca, jamais em tempo algum, falarem com desconhecidos, então, em nome da lógica e da coerência, também não devem cumprimentar aqueles que não conhecem.
Assunto arrumado.
Pronto, tudo bem, uma pancadinha nas costas, um passou bem, vá. Mas depois desinfectam as mãozinhas, sim?
Já agora, essa de catar os piolhos, podíamos instituir, não?
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