Hoje apareceu aqui uma coleguinha de trabalho que foi mãe há dois mesitos. O bebé é um amor e dei por mim a sentir uma espécie de saudade. Mas depois ele começou a chorar e a bolsar e as recordações emergiram em catadupa, fazendo-me de imediato pensar na vida boa que tenho.
Na realidade, estou numa fase maravilhosa da minha existência enquanto profissional da maternidade. As minhas crianças já estão bastante crescidas, o que quer dizer que começam a dispôr de alguma... (deixem-me cá saborear esta palavra linda) au-to-no-mi-a.
Apenas quem já passou por isto poderá compreender uma mãe que se encontre no estado em que eu estou – o puro deleite, o prazer sublime, o absoluto êxtase que se apodera da pessoa no dia em que deixa de fazer tudo para começar a mandar fazer algumas coisas.
Neste momento amo algumas frases, que me soam a música tocada por anjos quando se soltam da minha exausta faringe e, mais maravilhoso de tudo, sem eu me mexer.
Na realidade, é mesmo possível dar-se ordens em todos os tipos de frase da nossa língua. Temos o clássico imperativo parental: vão lavar os dentes e o seu negativo: não sais de casa vestida assim, mas podemos sempre utilizar um agradável interrogativo como: já vestiram os pijamas? ou mesmo um sonso exclamativo do género: que linda, já sabe limpar o rabinho!
Haverá poesia mais bela?
Haverá momento mais formidável na vida de uma mãe que aquele em que ela, terminando a esmerada refeição acabadinha de confeccionar pelo marido, senta-se no sofá novo do IKEA e solta displicentemente: quando acabarem ponham a loiça na máquina, e eles põem mesmo?
Isto já para não falar no jeito que dá. Nestes dias tenho posto em prática algumas regras de responsabilização dos mais velhos, do género irem ao Polisuper comprar pão enquanto eu fico estacionada em segunda fila ou espreitarem ali na papelaria se a Gramática encomendada já chegou. Coisas simples que além de os ajudarem a exprimir-se e a orientar-se, ainda os obrigam a conferir os trocos. Um jeitão, mesmo.
Bom, lá estou eu, mas a certa altura a coleguinha dobrou-se para retirar o petiz no carrinho afim de proceder à amamentação do mesmo, deixando ao apreço de todos os embasbacados presentes os extraordinários atributos com que se encontra dotada nesta fase da sua vida.
E aí é que eu percebi o sentimento que me tinha toldado a razão minutos antes. Era saudade sim, mas de me fazer acompanhar por um decote daqueles.
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