sexta-feira, outubro 02, 2009

Faz agora três anos...

... que o meu Pai decidiu celebrar as suas primeiras sessenta primaveras com uma festa na sua casa do Alentejo, onde reuniria (e reuniu) aqueles, que ao longo da vida realmente tocaram o seu coração.
Igual a si próprio, não se preocupou mínimamente com as susceptibilidades que tal decisão poderia ferir - apenas resolveu fazer assim. E quem não fosse convidado é porque não estava incluído no rol dos Eleitos, logo, se ficasse aborrecido, que metesse uma rolha.
Quando tivemos de decidir que presente oferecer, nós, os filhos mais velhos, demos voltas e voltas às nossas quase todas loiras cabecinhas. É que o senhor trata de adquirir rigorosamente tudo aquilo que quer, no preciso momento em que o desejo se manifesta. Isso é óptimo para ele, que vive contente, mas dificulta sobremaneira a vida ao resto da população.
Após aturado brainstorming concluímos que, se ele fazia questão de carregar de simbolismo o momento da sua passagem a sexagenário, então seria esse o nosso caminho: fazer um DVD com fotografias, para projectar depois da ceia.
Felizmente, a nossa mãe é uma pessoa extraordinária, pois compilou os momentos mais marcantes da vida dos quatro filhos em albuns ordenados cronológicamente, que foi oferecendo a cada um à medida que voávamos para fora do ninho. Ainda por cima, mesmo estando eles divorciados há quase vinte anos, a senhora conservou todos os albuns relativos aos anos de casamento. E como o nosso Pai casou segunda vez, já tem carradas de fotos dos anos mais recentes.
Resumindo, entrámos em pânico. Eram milhares e milhares de fotografias para seleccionar e o tempo, para não variar, muito escasso.
Passamos rapidamente à definição de critérios: apesar de não parecer nada, o Dr. é um piegas e chora com relativa facilidade. Por isso mesmo, o que nós pretendíamos era obter um momento simbólico, mas que não fosse deprimente nem constrangedor para ninguém.
Vai daí, decidimos reduzir ao mínimo indispensável as fotos onde aparecesse a nossa mãe e aquelas onde estivessem pessoas já falecidas – como o Avô e a Tia Teresa.
Primeira triagem feita e continuavam a ser centenas.
Passamos ao segundo critério: só seriam seleccionadas fotos onde ele estivesse presente e, quanto mais caricata, ridicula e divertida fosse a foto, melhor. Afinal trata-se de um homem que adora divertir-se e estar rodeado de pessoas animadas, pelo que essa tarefa foi a mais simples para nós.
Triagem concluída, passamos à digitalização – ah, como os nossos filhos terão a vida facilitada!
Já que não tinha participado muito nessa fase, ofereci-me para, com a mana mais velha, produzir efectivamente, o dito DVD.
Na antevéspera da festa fomos para minha casa e estivemos entre as 21H e as 05 da manhã, as duas sentadas à frente de um computador a tirar, pôr, acrescentar, cortar, alterar, juntar e ampliar fotografias. No final, já meio vesgas, lembrámos-nos que ainda tínhamos de escolher uma música. O voto foi unânime: tinha de ser o My Way.
Quem conheça o meu Pai saberá que digo a verdade – foi para ele e não para Frank Sinatra, que Paul Anka escreveu aquela letra. Sem sombra de dúvidas.
Pesquisa feita, lá gamámos a versão da net.
Ainda hoje, quando me lembro dessa madrugada, me comovo. Tenho a impressão que terá sido o maior pranto que partilhei com alguém na minha vida. O DVD estava suave, romântico, uma retrospectiva muito positiva de uma vida que foi, e felizmente ainda é, uma vida cheia. Absolutamente perfeito.
Portanto – lixo.
Era tudo o que nós não queríamos. Intensidade dramática aos pontapés, emoções à flor da pele. Quase uma despedida.
Pior – se nós as duas completamente sóbrias, tínhamos ficado naquele pranto, imagine-se a reacção do grupo depois de um jantar bem ensopado, como acontece nestas alturas. Fora de questão.
Mais uma hora e acabamos por escolher o “Simply the Best” da Tina Turner. Coadunava-se bem com a ideia que o meu Pai tem de si próprio – um ego maior que Júpiter - e era uma música animada, que até dava para dançar. Nada de lamechices nem choradeiras. Festas querem-se alegres, não é?
Então deviam ter visto o resultado.
Nem quero imaginar se tivesse ficado o My Way.

3 comentários:

Xica disse...

já vi que nestas nossas famílias etudoigual.
Adorei o relato!

Bjs

xica disse...

Olha lá, e então meter cá o vídeo, não pode ser???? Assim a malta também via....

me disse...

Se eu o tivesse já cá estava, mas ficou no Alentejo. Uma pena.