quarta-feira, outubro 07, 2009

Para contar uma tenho de contar outra antes.

Aqui há atrasado, num jantar muito agradável em casa de uns amigos que vivem emigrados “lá na França”, um amigo deles contou uma história:
Ao que parece, nos anos de juventude, ele e uns “colegas” foram passar uns dias ao Norte e alugaram uma casinha a uma velhota. Quando lá chegaram e a senhora constatou que afinal os marmanjos eram bem mais do que o combinado e achou por bem pedir uns cobres extra aos rapazes.
Eles é que não acharam piada nenhuma ao atrevimento da senhora. Pois se estavam lisos e até tinham arranjado mais uns amigalhaços para aliviar a despesa, que sentido fazia esse disparate? Portanto, fizeram-lhe um manguito e mandaram-na passear. A senhora, nortenha e zangada derivado à afronta dos fedelhos, toca de lhes berrar aos ouvidos, num português cristalino como água de nascente - passo a citar – “Ide-vos foder, seus coninhas!”.

Reparem bem na sofisticação, na subtileza quase poética, na complexidade técnica do imperativo plural colocado na segunda pessoa, com o intuito de reforçar o sentido da ordem ao aumentar a distância imaginária entre emissor e receptor...
Não sei se foi do vinho do jantar (que naquela casa se bebe bem, bebe), se o que foi, mas adorei a história e, logo no momento decidi incluír a expressão no meu vastíssimo léxico. É claro que o decoro me impede de andar por aí a lançar petardos deste gabarito, pelo que tenho passado este último ano e meio a soltar inocentes “ide-vos”, a torto e a direito – motivo de risota constante, primeiro quando eu explicava o significado da expressão, depois porque já muita gente a conhece e acabou por se transformar numa espécie de private joke.

Só que às vezes, no meio destas brincadeiritas pueris, nós olvidamos pequenos detalhes, tais como a existência dos nossos amantíssimos descendentes e sua consequente e muito contemporânea omnipresença nas horas em que estamos assim mais por casa.
Esse detalhe teve como resultado que, no passado Domingo, quando eu disse aos meus piquenos que ia dar o Ídolos, o Vasquinho ficou muito contente – demasiado contente – com o título do programa. Que era muito giro, muito engraçado e ria, ria. E eu, nada, incrédula a avaliar-lhe o estado da psique, uma pontinha de febre, talvez.
De súbito, encarou-me com os olhos espantados, aqueles que ele põe sempre que a dúvida o toma de assalto, e acrescentou – É ide-vos para onde, mãe?

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