Aqui há atrasado, num jantar muito agradável em casa de uns amigos que vivem emigrados “lá na França”, um amigo deles contou uma história:
Ao que parece, nos anos de juventude, ele e uns “colegas” foram passar uns dias ao Norte e alugaram uma casinha a uma velhota. Quando lá chegaram e a senhora constatou que afinal os marmanjos eram bem mais do que o combinado e achou por bem pedir uns cobres extra aos rapazes.
Eles é que não acharam piada nenhuma ao atrevimento da senhora. Pois se estavam lisos e até tinham arranjado mais uns amigalhaços para aliviar a despesa, que sentido fazia esse disparate? Portanto, fizeram-lhe um manguito e mandaram-na passear. A senhora, nortenha e zangada derivado à afronta dos fedelhos, toca de lhes berrar aos ouvidos, num português cristalino como água de nascente - passo a citar – “Ide-vos foder, seus coninhas!”.
Reparem bem na sofisticação, na subtileza quase poética, na complexidade técnica do imperativo plural colocado na segunda pessoa, com o intuito de reforçar o sentido da ordem ao aumentar a distância imaginária entre emissor e receptor...
Não sei se foi do vinho do jantar (que naquela casa se bebe bem, bebe), se o que foi, mas adorei a história e, logo no momento decidi incluír a expressão no meu vastíssimo léxico. É claro que o decoro me impede de andar por aí a lançar petardos deste gabarito, pelo que tenho passado este último ano e meio a soltar inocentes “ide-vos”, a torto e a direito – motivo de risota constante, primeiro quando eu explicava o significado da expressão, depois porque já muita gente a conhece e acabou por se transformar numa espécie de private joke.
Só que às vezes, no meio destas brincadeiritas pueris, nós olvidamos pequenos detalhes, tais como a existência dos nossos amantíssimos descendentes e sua consequente e muito contemporânea omnipresença nas horas em que estamos assim mais por casa.
Esse detalhe teve como resultado que, no passado Domingo, quando eu disse aos meus piquenos que ia dar o Ídolos, o Vasquinho ficou muito contente – demasiado contente – com o título do programa. Que era muito giro, muito engraçado e ria, ria. E eu, nada, incrédula a avaliar-lhe o estado da psique, uma pontinha de febre, talvez.
De súbito, encarou-me com os olhos espantados, aqueles que ele põe sempre que a dúvida o toma de assalto, e acrescentou – É ide-vos para onde, mãe?
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