segunda-feira, outubro 12, 2009

Ele há coisas...

Sou uma pessoa dada a compulsões. Não é que seja obcessiva compulsiva, mas que anda por aqui um genezito vagabundo, lá isso anda.
Esta queda para o exagero é um tudo nada limitativa para mim e imensamente exasperante para quem me rodeia, mas admitamos – às vezes é útil.
Tudo o que decido fazer faço como se disso dependesse a continuação da vida humana no planeta– se estou a ler um livro que me agrada não falo com ninguém, não vejo televisão, chego mesmo a recusar convites - só páro quando chego ao fim. Se me disponho a arrumar um roupeiro não como nem cozinho para ninguém enquanto não voltar a colocar tudo no sítio. Se decido fazer tricot, começo duas ou três peças e fico como um robot até as acabar a todas.
Foi o que me aconteceu recentemente. Só que, deve ser do caruncho, de tanto tricotar, de tanto a lã roçar no meu delicado pescoço, arranjei uma alergia que me ia enlouquecendo. Andei assim uns quatro ou cinco dias, queixosa e entristecida por não poder tricotar a meu bel prazer. Ao cabo deste tempo as borbulhas do pescoço começaram a alastrar pela cabeça toda quase fazendo com que aqui a Martinha, perdesse o juízo.
Na sexta feira foi o aniversário do meu Pai e, apesar do incómodo lá me arrastei para a celebração. Foi uma daquelas reuniões magnas em que nos amontoámos todos: os sete filhos, genros, nora, netas e neto e alguns amigos. Tudo muito cheio de abracinhos e carinhos, que há tanto que não estamos assim todos juntos e é tão bom, que saudades, que saudades!
No Sábado passei a tarde com duas amigas e correspondente descendência. Entre um cigarro e uma língua de gato lá me viram a borbulhagem e emitiram a sua douta opinião – que devia ser uma alergia
À noite, ainda muito incomodada, com o pescoço todo assanhado e a cabeça com o aspecto de ter sido atacada por um enxame de abelhas raínhas com problemas hormonais, lá fui, qual esposa extremosa e dedicada, acompanhar o meu marido a um concerto de música clássica. Posso dizer, sem receio de exagerar, que fui para a Gulbenkian com a mesma vontade com que os meus filhos comem esparregado, e com a mesma cara,. Só que eu não cuspo.
De volta a casa encontramos a baby sitter enfiada na casa de banho com a Teresa. A primeira coisa que me veio à cabeça foi que ela tinha vomitado, mas a Mafalda esclareceu-me imediatamente: a Teresinha estava carregadinha de piolhos, coitadinha.
Dado o avançado da hora, já nada podia fazer, assim meti-a na cama e acordei no Domingo quase de madrugada, para ir à farmácia comprar o desparasitante – que nojo!
Aqui posso acrescentar que nunca um cabrão de um piolho tinha tido a ousadia de transpôr as portas da minha casa e eu vivia radiante e (confesso) um nadinha orgulhosa com isso – como se quem tem piolhos fossem só os porcos, mesmo sabendo que o piolhame até se dá melhor em cabeças lavadinhas.
Arranquei de casa a toda a brida, rumo à Farmácia das Fontaínhas onde entrei afogueada. O Filipe diz que eu sou um bocado histérica, eu reconheço. E falo alto e sou “espaçosa”. E pedi à senhora depressa, depressa, asinha, asinha, cinco embalagens de Nix. Quando ela voltou lembrei-me de lhe mostrar o meu pescoço, para que me indicasse um anti-prurido qualquer.
A farmacêutica olhou, olhou, e depois disse-me no mesmo tom em que me tinha ouvido:
- A senhora tem é piolhos, ponha o Nix também.
E assim se passa uma vergonha memorável.

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