Não sou uma pessoa nostálgica. Não sou dada a saudosismos nem a pensamentos do género "dantes é que era bom" ou "já não há cavalheiros como antigamente" (apesar de esta última ser uma triste verdade que nós, as mulheres, fingimos ignorar sem sucesso).
Mas gosto de ter memória e de poder recordar. São esses pequenos nadas que nos dão perspectiva e nos ajudam a compreender que evoluímos. Ou não.
Isto tudo porquê? Porque hoje tive uma conversa muito engraçada com algumas amigas - umas da minha idade outras ligeiramente mais velhas, mas ainda raparigas, claro. Umas miúdas - afinal o que são vinte anos para a humanidade?
Foi uma conversa em que recordámos.
Recordámos a moda da nossa juventude.
Começámos por falar de enchumaços, esses volumosos adereços dignos de qualquer selecção de futebol americano, recheio absolutamente fundamental de qualquer parte de cima vestível por nós. Entre outras peças de museu, ainda guardo um casaco amarelo canário, extraordinário, com os maiores aumentadores de ombros do mundo. Que adorava. Sim, quem nunca usou que se atreva a gozar.
Rimos das franjas que adornaram a certa altura as nossas modernérrimas camisas de ganga com omoplatas forradas a tecidos floridos e os casacos de camurça foleira e mal curtida.
E, Cristo, quem pode esquecer as galochas de salto alto, que se podiam usar de cano dobrado ou direito e faziam transpirar os pés até ao joelho? Pés esses calçados com a inevitável meia de losango, em lã quentinha e bastante cheirosa ao fim do dia.
E os Sanjo? Quem nunca sonhou com uns?
Lembrámos os Porfírios, loja icon de moda lisboeta, que comercializava os lenços mais emblemáticos das betas da linha. E a Migacho, loja da qual lá aparecia uma toillette nova em casa uma vez por ano mas que tinha uma proprietária capaz de dar lições de marketing a qualquer Kotler pois tratava toda a gente pelo nome - incluíndo os filhos.
E ainda rimos mais das poupas que seguravam bandoletes de veludo que arrepelavam e faziam dores de cabeça. E das molas com flores encarnadas ou rosa eléctrico, pespegadas no alto de cabeleiras longas e não raras vezes espigadas até à raiz.
E das camisolas de losangos verde "rã", amarelo "canário", azul "arara" e laranja "peixe de aquário".
E dos vestidos em tafetá de cores berrantes com enormes laços ruidosos, mangas em balão que nos chegavam às bochechas e saias rodadas que nos assavam os cotovelos.
E das Lois justíssimas, lançadas pela malta do break dance, que não passavam nos pés e só se conseguiam vestir se estivéssemos deitadas - e eles também (mas não ao mesmo tempo). Sim, eles também usavam calças dessas. E meia branca. E sapato de berloque. E camisolas com grandes carapuços e mangas até ao chão.
E das camisas clandestinamente surripiadas ao mano mais velho, pois tinham mesmo de ser dezoito tamanhos acima para ficarem o máximo com as mini saias dezoito tamanhos abaixo.
Quem não se lembra?
É verdade, não sou saudosista e até tenho para mim que temos ganho bastante em aspecto nos últimos anos, mas no final de tudo isto há apenas uma coisa que me deprime um tudo nada - é que algumas destas pérolas da moda, já andam aí outra vez. E isso é que nos dá a tal perspectiva - a de que o tempo passa mesmo.
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