terça-feira, setembro 22, 2009

O Porquê das coisas

Quando eu tinha oito anos tive uma hepatite. Males do fígado curam-se com dieta rigorosa e descanso absoluto, pelo que passei uns dois meses deitada numa cama - os dois únicos meses da minha vida inteira em que tive um quarto só para mim - período em que, não fosse eu uma leitora pouco criteriosa (característica que mantenho), teria enlouquecido.


Nessa altura li todas as colecções que havia no quarto do meu irmão, desde Os Cinco ao Colégio das Quatro Torres, passando pela Patrícia, pela Carlota, pelos Sete e pelas Gémeas no Colégio de Santa Clara.


Mas isto foi depois de a minha mãe perceber que eu andava a saciar o meu aborrecimento nas prateleiras dos seus aposentos, com umas tentativas pueris de compreender um qualquer Sexus que andava por ali, entre outras maravilhas da literatura pós lápis azul.


Todavia, a melhor obra que me foi dada a ler nessa época foi um livro que ofereceram ao meu irmão e que fez as minhas delícias durante uns dias - li-o de uma assentada - chamava-se: O Porquê das Coisas.


Tanto que eu aprendi naquelas páginas: porque deitam os cães a língua de fora? Porque é o céu azul? Porque é impossível espirrar sem fechar os olhos?


Ainda se vende, imagine-se! Mas agora deve ter perguntas mais do género: porque faz o computador shut down quando retiramos a memória RAM do disco? Porque bloqueia o processador se repetirmos não sei o quê que está errado e é estúpido?


Bem, lá estou eu.

Isto tudo para chegar aqui - sou curiosa, interesso-me por tudo, pelas pessoas, e há umas coisinhas que se passam neste mundo que eu pura e simplesmente não consigo perceber.


Portanto, faz-me falta um livro dos Porquês mas para crescidos, que tenha lá, assim de repente, duas respostazinhas:

- Porque correm as pessoas para as filas?
Esta é a primeira porque é, de todas, a que me faz mais confusão. Quem já esteve numa sala de embarque sabe de que falo: hordas de gente a correr, atropelar-se, a acotovelar-se para a porta de embarque, para se prostrarem um minuto depois, ordeiros e pacientes, verticalíssimos, de bagagem de mão em riste, numa fila que anda mais devagar que o cérebro do Recruta Zero. E com que objectivo? O de ficarem mais tempo dentro do avião, mesmo sabendo que, para ele levantar os passageiros têm de entrar todos primeiro - aquilo não é como os carros, em que se pode arrancar com a porta mal fechada.



- Porque rapinam as pessoas tudo o que vêem?


Nauticampo, Fevereiro de 1983 - uma família de seis pessoas atravessa a feira com estrépito: cada adulto arrasta iradamente um par de crianças, que arrastam por sua vez, atrás de si, sacas e sacadas de canetas, pins, porta-chaves e autocolantes (ah, esses maravilhosos autocolantes...), que tencionam levar para casa e com eles forrar todas as paredes, janelas e portas que se atravessarem no caminho.


Mas isto foi há muito tempo, na época em que não havia coisas diferentes, importadas, estrangeiras. Havia apenas autocolantes oferecidos nas feiras e que as crianças saqueavam. O que me espanta é essas crianças, que são os adultos de hoje e andam no trânsito a buzinar e a dizer palavrões, continuarem a ter esse tipo de comportamentos. E os filhos deles a repeti-los.

Malta, não é preciso andarem ao estalo por balões no Jardim Zoológico, por pacotinhos de Ice tea oferecidos em Belém ou por folhetos mal impressos atirados de um avião na praia de Santa Cruz! E podem devolver ao senhor Armindo da padaria o troco enganado e não precisam de aceitar o Bocadellia que as meninas andam a oferecer mas ninguém lá em casa gosta, ouviram?
Irra!

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