quarta-feira, junho 23, 2010

Uma viagem a Londres

O facto de ter dado de caras, assim do nada, com uma fotografia antiga, fez-me recordar...

Se a memória não me falha estávamos em 1992, no final do primeiro ano do curso ou perto disso. A minha irmã Leonor, as nossas amigas Mónica e Ana Margarida e eu decidimos fazer uma viagem. Como a idade era poucochinha (eu e a Mónica tínhamos 18, a Leonor 19 e a Ana 20, acho eu) os recursos também eram escassos, por isso começamos logo por investigar de entre o leque de amigos, conhecidos e amigos dos amigos, quem é que vivia onde e tinha casa onde coubéssemos, ou mais ou menos, as quatro.

Não foi necessário grande esforço. Quem vivia fora ocupava geralmente um quarto microscópico em casa de uma velha chata e forreta, o que levava à exclusão imediata desses.

Concentramos-nos então na malta dos apartamentos. Depressa decidimos o nosso destino: a malta dos apartamentos eram...um.

O rapaz em questão era um amigo do meu irmão, por arrastamento amigo nosso também, que vivia numa casa, uma vivendinha, em Londres com mais três companheiros – um português e dois ingleses. Maravilha das maravilhas, estavam todos de férias, pelo que a casa seria todinha e apenas para nós.

Aterramos em Heathrow já de noite – em Londres escurece lá para as quatro da tarde, mas já era de noite mesmo. De papelinho com a morada em riste, chave preciosamente guardada pela Leonor, malas aos trambolhões e uma fome desvairada, lá passámos de metro em metro, de linha em linha, até as pessoas serem cada vez menos e os nervos cada vez mais. Finalmente Surrey Quays (não era?), o fim da linha, quase.

Saímos do metro no instante em que São Pedro puxou o autocolismo. Como se não bastasse, a zona era tão má que nem os taxis paravam. Seguimos a pé, atentas, em busca do Mac Donald’s lá do sitio, em frente do qual era suposto virarmos à esquerda. Voilá.

Já passaram uns anitos, não guardei muitos dos detalhes. Lembro-me que a casa era simpática, tinha dois andares mas não tinha quase móveis nenhuns. Não sei se tinha cozinha, mas não me lembro de a ver. Mas uma coisa nenhuma de nós poderia esquecer – o quarto do Religioso. O Religioso era um dos ingleses que vivia lá e que devia ser uma personagem bastante peculiar. Tenho até ideia de que ele apareceu por lá e tudo, não foi? Tinha um crucifixo enorme pendurado na parede e era assim meio gótico. Para nós, provincianas dos sete costados, aquilo era muito à frente, tal como o punk de gigantesca crista colorida e careca integralmente tatuada com um lagarto lindo de morrer, que vimos na rua mas que até aí só tínhamos visto na parte das aberrações da revista do National Geographic.

Logo ali à chegada tivemos o primeiro choque. O nosso amigo dono da casa telefonou para nos comunicar que o outro português que lá vivia afinal chegava de Portugal no dia seguinte e ia lá para casa.

Coitado. Não tinha ideia do que o esperava. Foram dias alucinantes, alucinados, sem um momento de lucidez ou sossego. Uma semana em que rimos, rimos tanto!

Nós, galinhas adolescentes, completamente excitadas com o programa de aventura.

O inferno dele começou logo quando compramos, e durante uma semana ouvimos até à loucura, aos berros, claro, o album Tourism dos Roxette, que ainda hoje é a banda sonora dessa viagem.

O rapaz nem sabia já onde havia de meter a cabeça. Ou o cd. Ou a nós. Mas como a bagagem dele tinha ido parar a Tóquio e ele passou quase uma semana sem mudar de roupa (e desconfiamos que sem uma banhoca), nós entendemos que a tortura não era demasiada.

Não me vou alongar em detalhes da viagem, até porque as memórias já estão um bocadinho turvas e porque seria enfadonho – é como ver fotografas das viagens dos outros.



Mas acabou em grande.

No dia da partida decidimos ir para o aeroporto de taxi. Tínhamos muita bagagem, estávamos cansadas e ainda nos restavam algumas libras. Como dispunhamos de mais tempo para o caminho acabamos por partir mesmo a queimar. Já em enorme stress entramos pelo terminal 1 do aeroporto de Heathrow feitas loucas a correr, aos tropeções em malas, sacolas, saquinhos e porcarias até aterrarmos num balcão qualquer aos gritos “flight number não sei qantos to Lisbon Portugal?” e ouvirmos aterrorizadas as palavras quase cuspidas pela cabra da funcionária: “closed”. E “closed” porque Londres não tem as dimensões de Lisboa e o Terminal 4, de onde seria suposto partirmos, era a 40 minutos do sítio onde estávamos. Um pormenor. Chorámos, pintámos a manta, e lá conseguimos que nos trocassem os bilhetes sem acréscimo de custo, para um vôo no dia seguinte de manhã muito cedo.

Informaram-nos que no Terminal 2, a 10 minutos do 1, havia cacifos para fechar a bagagem. Lá fomos arrumar as coisas, ligamos ao nosso companheiro e partimos de metro para Surrey outra vez. Como não podíamos perder o avião e nem sequer tínhamos uma muda de roupa, decidimos não dormir. Ficamos na palheta, a beber umas jolas, grande risota. Está claro que adormecemos. Acordamos às 5 da manhã em histeria absoluta. Não havia já fundos para andar de taxi, pelo que teríamos de ir de Metro, viagem que levaria cerca de uma hora. Saímos disparadas a correr e fomos a contar os segundos. À chegada ao aeroporto alguém lembrou: as malas estavam nos cacifos no Terminal dois e o avião partiria do um, onde nós estávamos a chegar.

Duas desarvoraram para levantar as malas enquanto as outras iam procurar o check in.

Para ouvirmos novamente o impávido balido: “closed”.

Dessa vez assustamos-nos mesmo. Já estávamos completamente lisas, não podíamos comprar outros bilhetes! Chorámos, pedimos, implorámos, suplicamos...e ok. Nova remarcação para daí a não sei quantas horas, já de noite. Nessa altura estávamos tão íntimas das “collect calls” que no aeroporto já devia haver um telefone só para nós.

Juntamos todo o dinheiro que tínhamos e compramos um café com leite e uma sandwich que dividimos pelas quatro. E esperámos. Sentadas, de frente para o placard das partidas. Sem arredar pé. Depois de termos perguntado a dezoito pessoas se estávamos no Terminal certo.

E embarcamos finalmente.

quarta-feira, junho 16, 2010

Portugal!

Ontem consegui espreitar o jogo inaugural dos Navegadores, no Mundial 2010. Sim, também eu interrompi uns bocadinhos o meu trabalho para ver em que é que paravam as modas lá na África do Sul. Não parei todo o tempo e não vi o jogo todo, apenas o suficiente para me sentir bem com a minha luso-consciência sem me sentir mal com a minha profisso-consciência. No final senti vergonha. Não foi pela aborrecida prestação dos jogadores lusos – eles são pagos para jogar à bola e é isso que fazem, umas vezes de forma mais inspirada, outras nem por isso, mas que se entendam com quem lhes paga. A vergonha que senti foi pelos restantes portugueses, todos os que não estavam dentro do campo, em Port Elisabeth.
Todos os dias encontro por aí críticos ferozes de Portugal enquanto nação e de Portugal enquanto equipa de futebol. Uns afirmam ter vergonha de viver num país corrupto, onde muitos pagam os luxuosos desvarios de uma meia dúzia de poderosos com ambição a mais e escrúpulos a menos. Outros, os treinadores de bancada, gastam o seu tempo e latim a questionar as escolhas do Professor, a estratégia do Professor, a prestação do Ronaldo, do Deco, do Coentrão ou a lesão misteriosa do Nani relativamente à do Drogba. Todos se insurgem contra os nossos jogadores comparando os milionários salários que recebem com as fracas exibições que nos têm oferecido últimamente. Mas são esses mesmos críticos os primeiros a afinfar o traseiro na primeira cadeira, banco, sofá ou assento de qualquer espécie que apareça, para poderem devidamente criticar e escarnecer do seu país. Na empresa onde gastam as horas que faltam para ir embora, no café onde ocupam o tempo e os subsídios, no shopping onde vibram mesmo que de pé, em frente a um televisor suspenso na montra de uma qualquer loja de electrodomésticos em promoção – qualquer lugar serve para dizer mal de Portugal e para ver futebol.
É isto que me entristece. Por todo o lado vemos bandeirinhas, bandeirolas, vuvuzelas, frases feitas e sei lá mais o quê, manifestações hipócritas de apoio a Portugal, que se transformam em ataques sanguinários aos protagonistas do momento assim que o Tiago falha um livre ou o Liedson faz uma falta. Mas agora pergunto eu: Enquanto os nossos jogadores estão na África do Sul a fazer efectivamente alguma coisa por Portugal, o que é que cada uma dessas pessoas, o que é que cada um destes juízes implacáveis faz pelo seu país? Quando é que cada um desses cidadãos exemplares fez de facto a diferença no seu país, na sua empresa, no seu bairro, na sua rua, na escola dos filhos ou mesmo dentro de sua casa, por forma a tornar a realidade melhor e mais exemplar, em lugar de se preocupar apenas com a prestação ao futebol de duas dúzias de miúdos para quem uma vitória é de certeza mais importante que para qualquer um de nós? Quem é que desses jogadores de sofá se poderá vangloriar de ter uma prestação imaculada no seu emprego, de marcar golos a cada chuto, todos os dias, em todos os jogos?
E mais. Onde estão esses patrioticos aficcionados do patriotismo quando os nossos deficientes ganham medalhas sucessivas em paraolimpíadas para as quais se treinaram a expensas próprias e das quais regressaram felizes para darem de caras com um enorme nada a recebê-los? E onde estão quando as nossas estrelas internacionais do Judo, do Atletismo, do Triplo Salto, mais precisam de claques, força e apoio?
Suponho que sentadinhos com o rabiosque bem em cima das bandeirolas que desdobram e arejam uma vez a cada dois anos, para irem para o café criticar Portugal, os portugueses e as prestações dos nossos nos campeonatos de futebol.

quarta-feira, junho 09, 2010

Um homem e um colchão

Era uma vez um casal. Esse casal vivia feliz e contente numa casinha. Dentro dessa casinha havia um quarto e dentro do quarto uma cama. Grande. De casal. Para o casal dormir.
Nesse casal, que vivia numa casinha onde havia um quarto com uma cama grande onde podiam dormir, o homem ressonava. Muito. Sempre.
Ela, a mulher, tentava todas as noites dormir na sua cama, dentro do quarto, dentro da casinha, mas tinha muita dificuldade. A mulher não era surda. A mulher ouvia o ronco. E não dormia. E dava estalinhos com a língua para ele parar. E abanava-o. E tapava-lhe o nariz e virava-o de lado e dava-lhe pontapés. E dizia-lhe para ele ir ao médico. E nessa casinha onde o casal vivia feliz e contente num quarto com uma cama grande, ninguém dormia.
E ele dizia que ela era má. Que não o deixava descansar.
Talvez de tanto ouvir estalinhos de língua, um dia o homem, que ressonava, começou com estalinhos nas costas. As costas estalavam-se-lhe pela manhã, quando ele acordava da noite sem dormir. Durante muito tempo as costas do homem estalaram todos os dias pela manhã. Um dia ele decidiu. Era do colchão. Do colchão da cama grande de casal. E decidiu trocar de colchão. E o casal foi comprar um colchão novo para a cama grande.
O tempo passou. O colchão não era bom. As costas estalavam. O homem ressonava. Ninguém dormia.O homem decidiu trocar de colchão.
O casal foi e comprou outro colchão. Para a cama grande, de casal, que estava no quarto, dentro da casinha onde viviam felizes e contentes. Mas as costas estalavam, o homem ressonava e, na casinha ninguém dormia.
Como o casal não dormia mas aprendia, este colchão, de cama grande, tinha um prazo para ser devolvido e reembolsado. E o homem pediu à mulher se o devolvia. Ele comprava outro, noutro sitio. Melhor. Para dormirem.
E a mulher assim fez. Devolveu o colchão da cama grande de casal que estava num quarto dentro de uma casinha onde viviam felizes e contentes. E o homem, que ressonava, tinha estalinhos nas costas e trabalhava muitíssimo, não teve tempo e não comprou outro.
Agora num quarto, dentro de uma casinha linda, há uma cama grande, de casal, para o casal dormir. O homem ressona e tem estalinhos nas costas, mas agora o casal não dorme porque não tem colchão nenhum.
FIM