quarta-feira, junho 16, 2010

Portugal!

Ontem consegui espreitar o jogo inaugural dos Navegadores, no Mundial 2010. Sim, também eu interrompi uns bocadinhos o meu trabalho para ver em que é que paravam as modas lá na África do Sul. Não parei todo o tempo e não vi o jogo todo, apenas o suficiente para me sentir bem com a minha luso-consciência sem me sentir mal com a minha profisso-consciência. No final senti vergonha. Não foi pela aborrecida prestação dos jogadores lusos – eles são pagos para jogar à bola e é isso que fazem, umas vezes de forma mais inspirada, outras nem por isso, mas que se entendam com quem lhes paga. A vergonha que senti foi pelos restantes portugueses, todos os que não estavam dentro do campo, em Port Elisabeth.
Todos os dias encontro por aí críticos ferozes de Portugal enquanto nação e de Portugal enquanto equipa de futebol. Uns afirmam ter vergonha de viver num país corrupto, onde muitos pagam os luxuosos desvarios de uma meia dúzia de poderosos com ambição a mais e escrúpulos a menos. Outros, os treinadores de bancada, gastam o seu tempo e latim a questionar as escolhas do Professor, a estratégia do Professor, a prestação do Ronaldo, do Deco, do Coentrão ou a lesão misteriosa do Nani relativamente à do Drogba. Todos se insurgem contra os nossos jogadores comparando os milionários salários que recebem com as fracas exibições que nos têm oferecido últimamente. Mas são esses mesmos críticos os primeiros a afinfar o traseiro na primeira cadeira, banco, sofá ou assento de qualquer espécie que apareça, para poderem devidamente criticar e escarnecer do seu país. Na empresa onde gastam as horas que faltam para ir embora, no café onde ocupam o tempo e os subsídios, no shopping onde vibram mesmo que de pé, em frente a um televisor suspenso na montra de uma qualquer loja de electrodomésticos em promoção – qualquer lugar serve para dizer mal de Portugal e para ver futebol.
É isto que me entristece. Por todo o lado vemos bandeirinhas, bandeirolas, vuvuzelas, frases feitas e sei lá mais o quê, manifestações hipócritas de apoio a Portugal, que se transformam em ataques sanguinários aos protagonistas do momento assim que o Tiago falha um livre ou o Liedson faz uma falta. Mas agora pergunto eu: Enquanto os nossos jogadores estão na África do Sul a fazer efectivamente alguma coisa por Portugal, o que é que cada uma dessas pessoas, o que é que cada um destes juízes implacáveis faz pelo seu país? Quando é que cada um desses cidadãos exemplares fez de facto a diferença no seu país, na sua empresa, no seu bairro, na sua rua, na escola dos filhos ou mesmo dentro de sua casa, por forma a tornar a realidade melhor e mais exemplar, em lugar de se preocupar apenas com a prestação ao futebol de duas dúzias de miúdos para quem uma vitória é de certeza mais importante que para qualquer um de nós? Quem é que desses jogadores de sofá se poderá vangloriar de ter uma prestação imaculada no seu emprego, de marcar golos a cada chuto, todos os dias, em todos os jogos?
E mais. Onde estão esses patrioticos aficcionados do patriotismo quando os nossos deficientes ganham medalhas sucessivas em paraolimpíadas para as quais se treinaram a expensas próprias e das quais regressaram felizes para darem de caras com um enorme nada a recebê-los? E onde estão quando as nossas estrelas internacionais do Judo, do Atletismo, do Triplo Salto, mais precisam de claques, força e apoio?
Suponho que sentadinhos com o rabiosque bem em cima das bandeirolas que desdobram e arejam uma vez a cada dois anos, para irem para o café criticar Portugal, os portugueses e as prestações dos nossos nos campeonatos de futebol.

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