Se a memória não me falha estávamos em 1992, no final do primeiro ano do curso ou perto disso. A minha irmã Leonor, as nossas amigas Mónica e Ana Margarida e eu decidimos fazer uma viagem. Como a idade era poucochinha (eu e a Mónica tínhamos 18, a Leonor 19 e a Ana 20, acho eu) os recursos também eram escassos, por isso começamos logo por investigar de entre o leque de amigos, conhecidos e amigos dos amigos, quem é que vivia onde e tinha casa onde coubéssemos, ou mais ou menos, as quatro.
Não foi necessário grande esforço. Quem vivia fora ocupava geralmente um quarto microscópico em casa de uma velha chata e forreta, o que levava à exclusão imediata desses.
Concentramos-nos então na malta dos apartamentos. Depressa decidimos o nosso destino: a malta dos apartamentos eram...um.
O rapaz em questão era um amigo do meu irmão, por arrastamento amigo nosso também, que vivia numa casa, uma vivendinha, em Londres com mais três companheiros – um português e dois ingleses. Maravilha das maravilhas, estavam todos de férias, pelo que a casa seria todinha e apenas para nós.
Aterramos em Heathrow já de noite – em Londres escurece lá para as quatro da tarde, mas já era de noite mesmo. De papelinho com a morada em riste, chave preciosamente guardada pela Leonor, malas aos trambolhões e uma fome desvairada, lá passámos de metro em metro, de linha em linha, até as pessoas serem cada vez menos e os nervos cada vez mais. Finalmente Surrey Quays (não era?), o fim da linha, quase.
Saímos do metro no instante em que São Pedro puxou o autocolismo. Como se não bastasse, a zona era tão má que nem os taxis paravam. Seguimos a pé, atentas, em busca do Mac Donald’s lá do sitio, em frente do qual era suposto virarmos à esquerda. Voilá.
Já passaram uns anitos, não guardei muitos dos detalhes. Lembro-me que a casa era simpática, tinha dois andares mas não tinha quase móveis nenhuns. Não sei se tinha cozinha, mas não me lembro de a ver. Mas uma coisa nenhuma de nós poderia esquecer – o quarto do Religioso. O Religioso era um dos ingleses que vivia lá e que devia ser uma personagem bastante peculiar. Tenho até ideia de que ele apareceu por lá e tudo, não foi? Tinha um crucifixo enorme pendurado na parede e era assim meio gótico. Para nós, provincianas dos sete costados, aquilo era muito à frente, tal como o punk de gigantesca crista colorida e careca integralmente tatuada com um lagarto lindo de morrer, que vimos na rua mas que até aí só tínhamos visto na parte das aberrações da revista do National Geographic.
Logo ali à chegada tivemos o primeiro choque. O nosso amigo dono da casa telefonou para nos comunicar que o outro português que lá vivia afinal chegava de Portugal no dia seguinte e ia lá para casa.
Coitado. Não tinha ideia do que o esperava. Foram dias alucinantes, alucinados, sem um momento de lucidez ou sossego. Uma semana em que rimos, rimos tanto!
Nós, galinhas adolescentes, completamente excitadas com o programa de aventura.
O inferno dele começou logo quando compramos, e durante uma semana ouvimos até à loucura, aos berros, claro, o album Tourism dos Roxette, que ainda hoje é a banda sonora dessa viagem.
O rapaz nem sabia já onde havia de meter a cabeça. Ou o cd. Ou a nós. Mas como a bagagem dele tinha ido parar a Tóquio e ele passou quase uma semana sem mudar de roupa (e desconfiamos que sem uma banhoca), nós entendemos que a tortura não era demasiada.
Não me vou alongar em detalhes da viagem, até porque as memórias já estão um bocadinho turvas e porque seria enfadonho – é como ver fotografas das viagens dos outros.
Mas acabou em grande.
No dia da partida decidimos ir para o aeroporto de taxi. Tínhamos muita bagagem, estávamos cansadas e ainda nos restavam algumas libras. Como dispunhamos de mais tempo para o caminho acabamos por partir mesmo a queimar. Já em enorme stress entramos pelo terminal 1 do aeroporto de Heathrow feitas loucas a correr, aos tropeções em malas, sacolas, saquinhos e porcarias até aterrarmos num balcão qualquer aos gritos “flight number não sei qantos to Lisbon Portugal?” e ouvirmos aterrorizadas as palavras quase cuspidas pela cabra da funcionária: “closed”. E “closed” porque Londres não tem as dimensões de Lisboa e o Terminal 4, de onde seria suposto partirmos, era a 40 minutos do sítio onde estávamos. Um pormenor. Chorámos, pintámos a manta, e lá conseguimos que nos trocassem os bilhetes sem acréscimo de custo, para um vôo no dia seguinte de manhã muito cedo.
Informaram-nos que no Terminal 2, a 10 minutos do 1, havia cacifos para fechar a bagagem. Lá fomos arrumar as coisas, ligamos ao nosso companheiro e partimos de metro para Surrey outra vez. Como não podíamos perder o avião e nem sequer tínhamos uma muda de roupa, decidimos não dormir. Ficamos na palheta, a beber umas jolas, grande risota. Está claro que adormecemos. Acordamos às 5 da manhã em histeria absoluta. Não havia já fundos para andar de taxi, pelo que teríamos de ir de Metro, viagem que levaria cerca de uma hora. Saímos disparadas a correr e fomos a contar os segundos. À chegada ao aeroporto alguém lembrou: as malas estavam nos cacifos no Terminal dois e o avião partiria do um, onde nós estávamos a chegar.
Duas desarvoraram para levantar as malas enquanto as outras iam procurar o check in.
Para ouvirmos novamente o impávido balido: “closed”.
Dessa vez assustamos-nos mesmo. Já estávamos completamente lisas, não podíamos comprar outros bilhetes! Chorámos, pedimos, implorámos, suplicamos...e ok. Nova remarcação para daí a não sei quantas horas, já de noite. Nessa altura estávamos tão íntimas das “collect calls” que no aeroporto já devia haver um telefone só para nós.
Juntamos todo o dinheiro que tínhamos e compramos um café com leite e uma sandwich que dividimos pelas quatro. E esperámos. Sentadas, de frente para o placard das partidas. Sem arredar pé. Depois de termos perguntado a dezoito pessoas se estávamos no Terminal certo.
E embarcamos finalmente.
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