quinta-feira, agosto 26, 2010

Que cena, meu!

Ontem ao final da tarde, após mais uma jornada laboral para esquecer e antes de ir buscar a criançada, fui ao Pingo Doce fazer umas comprinhas rápidas (devia ser proibido trabalhar no Verão, faz muito calor. Pensando bem, no Inverno também devia ser proibido. Faz muito frio. E na Primavera, derivado às alergias...).
Entrei no supermercado toda laroca, peguei num cestito daqueles de segurar no braço e fui, qual Capuchinho Vermelho, direitinha à zona dos legumes.
Ora, estava eu cantarolando uma música que não me sai da cabeça há uns dias, uma coisa chamada Marlisse, dos Fisher Z (só hoje é que soube como se chamava), e escolhendo umas cenouritas biológicas com muito bom ar, quando o som de uma discussão me desviou o tino daquilo que estava a fazer.
Empertiguei-me muito bem empertigada, com o pescoço quase a desconchavar-se das clavículas, olhos muito arremelgados e ouvidos bem alerta.
Junto à linha de caixas desenrolava-se uma cena macaca. Aparentemente tratava-se de duas famílias desentendidas porque um dos individuos de uma teria insultado a sogra de um individuo da outra.
A coisa aqueceu, aqueceu, até que ferveu e descambou completamente.
Foi soco, pontapé, chapadão e palavrões que até ferveu. Fiquei feliz por os meus filhotes não estarem ali a ver aquilo. Era homens a bater em homens e homens a bater em mulheres. Homens a defender as mulheres e mulheres a tentar bater em homens. Todo o palavreado que fazia de banda sonora era de fugir, apesar de não se perceber metade entre os berros deles e os achaques, gemidos e fanicos delas.
O grupo movimentava-se pela loja, das caixas para a charcutaria, da charcutaria para o talho, daí para as caixas e por aí fora. Não se sabia para onde eles iriam a seguir, então a malta que como eu, se esforçava por fazer as suas compritas, tinha que andar a desviar-se deles. Ora foge para os azeites e óleos, ora desvia para a higiene pessoal, ora dá uma corridinha até aos congelados que são lá mais ao fundo.
Tudo isto sempre a espreitar pelo canto do olho para não perder pitada enquanto diisfarçava lindamente para os meus companheiros de plateia não se sentirem os únicos, e rezava secretamente para que nenhum dos pugilistas tivesse uma pistola e desatasse para ali aos tiros.
Lá apareceram uns seguranças e uns rapazolas mais afoitos e a coisa esmoreceu, se bem que me parece que foi ser terminada lá fora.

Quando fui finalmente buscar a criançada, contei - lhes o que se tinha passado.
É lógico que ouviram tudo, todos interessados.
Quando cheguei à parte em que expliquei eram cerca de oito ou dez pessoas envolvidas na escaramuça, e que aparentemente se tratava de duas famílias, o Vasco começou:
- Eram oito ou eram dez?
- Sei lá, Vasco, eram umas quantas, não contei.
- E diziam o quê?
- Não sei, insultavam-se e diziam palavrões.
- Que palavrões?
- Não digo, ora!
- E era como? Era cada família em linha de frente para a outra família?
Aí a Teresa interrompeu o massacre.
- Não, idiota, não era um duelo! É tudo ao molho, não é mãe? Uns em cima dos outros.
Encolhi os ombros, já exasperada. E logo o Vasco, que já devia ter o filme todo a passar-lhe à frente dos olhos:
- Já sei, vê-se aquela bola de pó com os braços e as pernas a sair! Fixe! Mãe, agora vou sempre contigo ao Pingo Doce!

terça-feira, agosto 17, 2010

Tem mais pequeno?

Todos sabemos e reconhecemos algumas características do nosso amantíssimo povo português: a mania de dizer mal do governo e dos vizinhos, a inveja do sucesso alheio, a maneira absolutamente única de ver sempre o lado negro da vida ou a capacidade de projetar escarretas a várias dezenas de metros são apenas algumas delas. Mas há uma de que nunca se fala e que talvez seja a única que mais ninguém no mundo tem, pelo menos que eu saiba:
Os portugueses são uns Houdinis do jogo “cálculo mental”.
Supreendidos? Nunca viram? Não conhecem?
Nah.
Ora vejamos:

Tudo se processa como num jogo tradicional.
Confesso que nesta época do ano em que ando mais na rua, esta maluqueira do “cálculo mental” deixa-me como quando está muita gente a jogar raquetes à beira mar – sem saber para onde fugir. A pessoa quer tirar uma férias descansada mas, a cada esquina aparece um taradinho das contas a testar a nossa capacidade de resposta.
Vá lá que a coisa é consentida - eu, pelo menos nunca vi ninguém reclamar.

A situação desenrola-se apenas em território nacional, em cafés, esplanadas, quiosques, estações de serviço, enfim, locais abertos ao público. Para haver partida tem de estar um empregado ao balcão e um cliente do outro lado. Frente a frente.
Quem desencadeia o jogo é o cliente e, para isso, tem de dizer a senha. Esta pode ser a frase “quanto é” ou uma semelhante, acompanhada pela exibição de algum dinheiro.
Mas quem decide se quer jogar é o empregado de balcão, através da resposta imediata que vai desencadear o cálculo veloz:

- Arranja-me dois cêntimos?
- Por acaso não tem um euro, noventa cêntimos, cinquenta, um...
- Um euro e vinte e três cêntimos, não me arranja, não?

Se por acaso o cliente não está interessado em ir a jogo deverá responder imediatamente “não tenho”. A esta resposta segue-se por norma um suspiro aborrecido ilustrado por um revirar de olhos do empregado ou por algum insulto murmurado entredentes, ambos dirigidos ao parvalhão do cliente que teve a ousadia de recusar a partida.
Ora isso tem uma consequência terrível para o empregado: obriga-o a dar o troco em moedas. E isto sim, é um drama. É a derrota.

Apesar de bizarro, por estas bandas o hábito do jogo está instituído e, em boa verdade, já (quase) ninguém pensa muito nele. Por vezes até já somos nós que avançamos para o jogo ao facilitarmos o troco mesmo antes de no-lo pedirem.

Agora experimentem ir a qualquer país do planeta, entrar numa.... sei lá... estação de serviço, e por exemplo: a conta é de 6,20€ e vocês dão uma nota de 10€ e 1,20€ em moedas para receberem 5€ de troco.
Experimentem!
Fica tudo a olhar para vocês como se tivessem um prato atravessado na boca ou os olhos fora das órbitas.
Já me aconteceu.

Imaginem só a vidinha infernal dos incautos estrangeiros que veem para cá de férias convencidos de que vão para a província descansar a cabeça...
Queriam!