terça-feira, agosto 17, 2010

Tem mais pequeno?

Todos sabemos e reconhecemos algumas características do nosso amantíssimo povo português: a mania de dizer mal do governo e dos vizinhos, a inveja do sucesso alheio, a maneira absolutamente única de ver sempre o lado negro da vida ou a capacidade de projetar escarretas a várias dezenas de metros são apenas algumas delas. Mas há uma de que nunca se fala e que talvez seja a única que mais ninguém no mundo tem, pelo menos que eu saiba:
Os portugueses são uns Houdinis do jogo “cálculo mental”.
Supreendidos? Nunca viram? Não conhecem?
Nah.
Ora vejamos:

Tudo se processa como num jogo tradicional.
Confesso que nesta época do ano em que ando mais na rua, esta maluqueira do “cálculo mental” deixa-me como quando está muita gente a jogar raquetes à beira mar – sem saber para onde fugir. A pessoa quer tirar uma férias descansada mas, a cada esquina aparece um taradinho das contas a testar a nossa capacidade de resposta.
Vá lá que a coisa é consentida - eu, pelo menos nunca vi ninguém reclamar.

A situação desenrola-se apenas em território nacional, em cafés, esplanadas, quiosques, estações de serviço, enfim, locais abertos ao público. Para haver partida tem de estar um empregado ao balcão e um cliente do outro lado. Frente a frente.
Quem desencadeia o jogo é o cliente e, para isso, tem de dizer a senha. Esta pode ser a frase “quanto é” ou uma semelhante, acompanhada pela exibição de algum dinheiro.
Mas quem decide se quer jogar é o empregado de balcão, através da resposta imediata que vai desencadear o cálculo veloz:

- Arranja-me dois cêntimos?
- Por acaso não tem um euro, noventa cêntimos, cinquenta, um...
- Um euro e vinte e três cêntimos, não me arranja, não?

Se por acaso o cliente não está interessado em ir a jogo deverá responder imediatamente “não tenho”. A esta resposta segue-se por norma um suspiro aborrecido ilustrado por um revirar de olhos do empregado ou por algum insulto murmurado entredentes, ambos dirigidos ao parvalhão do cliente que teve a ousadia de recusar a partida.
Ora isso tem uma consequência terrível para o empregado: obriga-o a dar o troco em moedas. E isto sim, é um drama. É a derrota.

Apesar de bizarro, por estas bandas o hábito do jogo está instituído e, em boa verdade, já (quase) ninguém pensa muito nele. Por vezes até já somos nós que avançamos para o jogo ao facilitarmos o troco mesmo antes de no-lo pedirem.

Agora experimentem ir a qualquer país do planeta, entrar numa.... sei lá... estação de serviço, e por exemplo: a conta é de 6,20€ e vocês dão uma nota de 10€ e 1,20€ em moedas para receberem 5€ de troco.
Experimentem!
Fica tudo a olhar para vocês como se tivessem um prato atravessado na boca ou os olhos fora das órbitas.
Já me aconteceu.

Imaginem só a vidinha infernal dos incautos estrangeiros que veem para cá de férias convencidos de que vão para a província descansar a cabeça...
Queriam!

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