Ontem ao final da tarde, após mais uma jornada laboral para esquecer e antes de ir buscar a criançada, fui ao Pingo Doce fazer umas comprinhas rápidas (devia ser proibido trabalhar no Verão, faz muito calor. Pensando bem, no Inverno também devia ser proibido. Faz muito frio. E na Primavera, derivado às alergias...).
Entrei no supermercado toda laroca, peguei num cestito daqueles de segurar no braço e fui, qual Capuchinho Vermelho, direitinha à zona dos legumes.
Ora, estava eu cantarolando uma música que não me sai da cabeça há uns dias, uma coisa chamada Marlisse, dos Fisher Z (só hoje é que soube como se chamava), e escolhendo umas cenouritas biológicas com muito bom ar, quando o som de uma discussão me desviou o tino daquilo que estava a fazer.
Empertiguei-me muito bem empertigada, com o pescoço quase a desconchavar-se das clavículas, olhos muito arremelgados e ouvidos bem alerta.
Junto à linha de caixas desenrolava-se uma cena macaca. Aparentemente tratava-se de duas famílias desentendidas porque um dos individuos de uma teria insultado a sogra de um individuo da outra.
A coisa aqueceu, aqueceu, até que ferveu e descambou completamente.
Foi soco, pontapé, chapadão e palavrões que até ferveu. Fiquei feliz por os meus filhotes não estarem ali a ver aquilo. Era homens a bater em homens e homens a bater em mulheres. Homens a defender as mulheres e mulheres a tentar bater em homens. Todo o palavreado que fazia de banda sonora era de fugir, apesar de não se perceber metade entre os berros deles e os achaques, gemidos e fanicos delas.
O grupo movimentava-se pela loja, das caixas para a charcutaria, da charcutaria para o talho, daí para as caixas e por aí fora. Não se sabia para onde eles iriam a seguir, então a malta que como eu, se esforçava por fazer as suas compritas, tinha que andar a desviar-se deles. Ora foge para os azeites e óleos, ora desvia para a higiene pessoal, ora dá uma corridinha até aos congelados que são lá mais ao fundo.
Tudo isto sempre a espreitar pelo canto do olho para não perder pitada enquanto diisfarçava lindamente para os meus companheiros de plateia não se sentirem os únicos, e rezava secretamente para que nenhum dos pugilistas tivesse uma pistola e desatasse para ali aos tiros.
Lá apareceram uns seguranças e uns rapazolas mais afoitos e a coisa esmoreceu, se bem que me parece que foi ser terminada lá fora.
Quando fui finalmente buscar a criançada, contei - lhes o que se tinha passado.
É lógico que ouviram tudo, todos interessados.
Quando cheguei à parte em que expliquei eram cerca de oito ou dez pessoas envolvidas na escaramuça, e que aparentemente se tratava de duas famílias, o Vasco começou:
- Eram oito ou eram dez?
- Sei lá, Vasco, eram umas quantas, não contei.
- E diziam o quê?
- Não sei, insultavam-se e diziam palavrões.
- Que palavrões?
- Não digo, ora!
- E era como? Era cada família em linha de frente para a outra família?
Aí a Teresa interrompeu o massacre.
- Não, idiota, não era um duelo! É tudo ao molho, não é mãe? Uns em cima dos outros.
Encolhi os ombros, já exasperada. E logo o Vasco, que já devia ter o filme todo a passar-lhe à frente dos olhos:
- Já sei, vê-se aquela bola de pó com os braços e as pernas a sair! Fixe! Mãe, agora vou sempre contigo ao Pingo Doce!
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