quinta-feira, setembro 16, 2010

No principio éramos adolescentes.
Éramos inseguros, borbulhentos, barulhentos e hormonais. Gritávamos mais do que ríamos, discutíamos mais do que namorávamos. Corríamos de um sitio para outro mas nunca estávamos realmente em parte nenhuma. Gamávamos o carro ao pai, a camisola à mãe, a Ginginha ao avô, as moedas da cozinha.
Inventávamos dormidas em casa das amigas para irmos sair à noite, passávamos muito tempo de castigo, desviávamos o correio com as notas, baldávamo-nos às aulas, andávamos de Casal Boss, DT, LC, RZ, Vespino, Vision ou MA a três e sem capacete, fugíamos da polícia e conhecíamos as motas uns dos outros pelo som.
Frequentávamos todos o mesmo liceu, vestíamos os mesmos penados, calçávamos os mesmos Sanjo, esmagávamos as mesmas carteiras Oceano Pacífico no bolso de trás das mesmas Levi’s 501 e vibrávamos em família com os mesmos Festivais Eurovisão da Canção.
Falávamos sobre nada durante horas, pendurados em fios encaracolados de telefones brancos de disco arrastado e fumávamos às escondidas. Tínhamos poucas regras, mas eram para cumprir à risca. Ou nem sempre.
No verão fritávamos em creme de cenoura durante dias inteiros no Guincho para onde o único meio de transporte era a boleia nas motas dos amigos ou em carros de perfeitos desconhecidos. À noite passeávamos o escaldão com duzentos escudos no bolso e um namorico qualquer na ideia. No inverno passávamos dias sem vestir um casaco, bastando para isso que não tivéssemos um que ficasse mesmo a matar na roupa emprestada cuja escolha se eternizava frente a camas abarrotadas de trapos, amigas e gargalhadas.
Íamos ao Oxford ver filmes com o John Travolta em grupos que ocupavam filas inteiras e comíamos chocolates Regina no intervalo.
íamos ao News, ao Palm Beach, ao Plateau, ao Ok, ao Bellburguer, ao Bar dos Pretos. Chegámos a ir ao Vangogo.
Ouvíamos Meat Loaf, Doors, The Cult, Alice Cooper, Def Leppard, Billy Idol, Fisher Z, Queen, Brian Adams e tantas outras bandas e músicas que nos faziam viajar entre emoções que viviam à flor da pele: pulávamos à doida e chorávamos desalmadamente no espaço de algumas cervejas apenas.
Dançávamos slows em discotecas.
E no dia seguinte estávamos capazes de fazer tudo de novo.
Divertíamo-nos à brava.

Depois ficámos crescidos.
Ficámos menos barulhentos e as borbulhas passaram a rugas. As nossas inseguranças deram lugar a outras com ladrões, contratos de trabalho e celulite instalada.
Agora gritamos menos mas mais a sério, ameaçamos menos e cumprimos mais, não gamamos nada e morremos de saudades da sensação.
Passámos a preocupar-nos com contas, escolas e taxas de juro. A falar de negócios, da crise, de doenças e de montes de assuntos até agora exclusivos dos nossos pais. Frequentamos as casas uns dos outros mas andamos sempre ocupados demais para namorar.
Temos cento e quarenta canais de televisão e outros tantos televisores espalhados pela casa, mas não conseguimos manter-nos acordados para ver nenhum.
Deixámos de fumar.
Começamos a ir ao cabeleireiro, à massagem, à pedicure, às finanças e ao advogado. A fazer check –up’s, a ir ao pediatra e ao psicólogo.
Compramos carros e computadores e malas e telemóveis e comparamo-nos secretamente aos nossos amigos.
Acordamos com os filhos, levamos os filhos à escola, vamos com os filhos às atividades, ouvimos os cd’s dos filhos, vamos às festas dos filhos, jantamos fora com os filhos, viajamos com os filhos, conversamos sobre os filhos, dormimos na cama com os filhos.
Custa-nos admitir que em breve teremos de vigiar o correio e o hálito deles como falcões e vivemos obcecados com a alimentação, com a segurança e com o futuro dos filhos.
Saímos cada vez menos e demoramos cada vez mais para nos arranjarmos, mas já temos maquilhagem e a roupa é quase sempre nossa.
Passámos a ter ressacas de três dias e a não sair de casa durante fins de semana inteiros sem razão nenhuma.
Somos conscientes e responsáveis. E sérios. E chatos à brava.

Mas no fundo, no fundo somos as mesmas pessoas.

Continuamos a gostar de rir, de ir às compras, de beber uns copos e de gozar uns com os outros. Nós mulheres, continuamos chatas e exigentes mas estamos mais sensuais. Eles continuam imaturos mas mais confiantes. Continuamos todos a ter ciúmes, a fazer birras, a sentir borboletas no estômago, a calçar sapatos que magoam e a vestir camisolas que picam só porque são espectaculares, a sair de casa sem casaco, a flirtar, a fofocar e a dizer palavrões.

Por isso vamos esquecer que somos grandes, que temos empregos, problemas, prestações e filhos para educar. Vamos ignorar as varizes, as carecas, as panças, os calos, os cabelos brancos, a falta de dinheiro e o cansaço e vamos ter uma noite inesquecível.
Vamos para a borga!
E é já amanhã!
A 105.4 Cascais FM vai pela mão do Miguel Ventura levar a banda sonora das nossas vidas ao Tamariz. E nós vamos com ela.
Vamos rir bué, beber um coche e dançar uma beca.
Bute?
Bruxo!

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