Estava o Zé Tó muito contente
Na sua vidinha magra e decente
Trabalhava, poupava, não gastava tostão
O dinheiro guardava dentro do colchão
Um dia viu a tv a oferecer
Várias maneiras de ele enriquecer
“Venha cá Zé Tó, mais o seu colchãozinho
Nós tratamos da saúde ao seu dinheirinho”
O Zé Tó fez como disseram no televisor
Em pouco tempo já se sentia doutor
Coçou a careca, começou a pensar
Agora sou rico, tenho que mostrar
Não gastou logo tudo, foi devagar
Mas apanharam-no depressa, era fácil de topar
Ofereceram, ajudaram, fizeram desconto,
O Zé Tó gastou, foi até ficar tonto.
Vieram os filhos, queriam sempre mais
“Toda a gente tem” exigiam aos pais.
E o Zé Tó comprava, sem pejo nenhum
O mundo todo, inteiro para cada um.
Trocou tudo na vida, até as ambições
Descobriu o milagre das prestações
Todos os dias saía para trabalhar
E descobria mais e mais para comprar
Mas ele afinal não era tão rico assim
O dinheiro já estava quase no fim
De novo a menina, no televisor
“Zé Tó venha cá, é mesmo com o senhor”
Era muito barato, custava muito pouco
De tanta alegria, o Zé Tó ficou louco
Mais um computador, uma viagem de avião
Era só pedir, nunca diziam que não.
Ao fim de algum tempo desta maluqueira
Começou a sair cara, a brincadeira
Eram tantas as prestações que tinha para pagar
Que já lhe faltava com que se sustentar
Por fim já perto do desespero total
Mesmo sabendo que não tinha feito por mal
Foi ter com a menina do televisor
E pediu ajuda “ajude-me por favor!”
A menina afastou-o, virou a cara para o lado
Percebendo que o senhor estava quase acabado
E enviou uma carta, uma notificação
“Ou paga tudo ou fica até sem o colchão”
E veio o desemprego, a crise, os impostos
Agora somava, mas eram desgostos
A família fugia, exigia, cobrava
E ele a ver que nunca mais se safava
Foi com uma pistola segura pela coronha
Que ele encontrou saída para a vergonha
Tornou-se gatuno, vigarista, vilão
Roubou quem pôde para devolver ao colchão.
Quando recuperou quase todo o dinheiro
Comprou uma empresa para o filho engenheiro
Agora vive bem, chamam-lhe doutor
Mas pelo sim pelo não, já não tem televisor.
Sem comentários:
Enviar um comentário