segunda-feira, setembro 27, 2010

Preâmbulo:
Ora bem. Cá estamos então para dar início à inolvidável experiência – para mim – ainda que potencialmente traumática – para vós – que será levarem com a minha opinião acerca de qualquer treta que me ocorra, se bem que desta feita, devidamente disfarçada de dica.
Toda a gente sabe que dicas são pequenos segredos de comprovada utilidade que subsistem geração após geração, nos quais a fantasia, o milagre, o saber ancestral e a pura charlatanice ocupam o mesmo espaço que a ciência (quando ela se digna a comparecer).
A palavra Tomo aparece logo no título para conferir alguma credibilidade à coisa, tipo saber enciclopédico e tal.

Tomo Primeiro – Dica de Beleza

A primeira coisa que qualquer pessoa deve fazer quando confrontada com uma dica de beleza oferecida em qualquer revista é... fugir dela. Ignorá-la completamente. Passar de imediato para outra página, mesmo que esteja repleta de fotografias da horripilante fronha da Jocelyn Wildenstein (esta senhora merece uma pesquisa no Google, garanto).
E isto porquê? Porque na esmagadora maioria dos casos os conselhos de beleza são-nos fornecidos por umas assalariadas sem gosto nenhum, cujo salário é pago por um certo e determinado número de empresas que partilham o objetivo único de divulgarem o último grito da banha da cobra de cada uma. Isto aplica-se tanto à área da cosmética, como à da indústria dos trapos, vulgarmente apelidada de industria da Moda.
No fundo, o que estas empresas pretendem é aproveitar-se de uma de duas características patentes na personalidade das mulheres que vivem em função destas coisas (há quem padeça das duas em simultâneo): falta de auto-estima ou excesso de nada que fazer.
A estratégia é relativamente simples. As marcas investigam quais as causas mais comuns de insatisfação (física) da sua potencial freguesia. Rapidamente descobrem que (mais coisa menos coisa) nas mulheres são as rugas, a flacidez, a celulite, a altura, o cabelo, as estrias e a menopausa. Nos homens serão as rugas, os pêlos (agora), a calvice, a pança dilatada, a perda de massa muscular e a perda de vigor em geral. Vai daí, as ditas marcas divulgam produtos inovadores e requintados na esperança de criarem na consumidora ou consumidor (isto já está cheio deles) a necessidade suprema de os adquirirem – os técnicos de marketing chamam-lhe desejo, mas não é, é mesmo necessidade.
Ora, para alguém que sendo um ser humano naturalmente imperfeito, também disponha de muito tempo livre (e algum capital) ou que tenha problemas ao nível da auto-estima (e algum capital), a ideia de passar mais um minuto que seja da sua pobre existência sem adquirir o creme renovador celular que tira rugas, pele e bocados de cérebro em simultâneo ou a calça tão justa que faz as pernas parecerem chouriços ao fumeiro enquanto gangrenam por falta de circulação, torna-se absolutamente insuportável.
E depois, quando a pessoa já se arruinou – sim, porque estas coisas são todas um horror de caras – as ditas empresas lançam um produto igualzinho ao anterior mas com a embalagem prateada e preta ou mais uma lantejoula do lado de dentro da bainha da perna direita, e botam-lhe o dobro do preço em cima sob o pretexto de estarem a vender um sonho. E a pessoa, desgraçada, lá vai a correr arruinar-se mais um bocadinho, porque aquilo sim, aquilo é que funciona mesmo.
Isto pode parecer um cliché (se calhar porque é de facto um cliché) mas a verdade é que a beleza está dentro de cada um. Ok, a beleza beleza, a beleza estética, pode estar do lado de fora, mas o charme, o carisma, a sensualidade, aquilo que faz mesmo a diferença, está dentro de cada um de nós. E por muitos cremes inovadores e roupas caras e modernas que se ponha em cima para se ficar mais bonito, a verdade é que nenhuma dessas coisas nos faz ficar mais interessantes. Pode ser suficiente para uma noite, mas nunca será para uma vida inteira.
Para mim, de entre todas as características que se pode ter, só há uma que distingue as pessoas entre bonitas e feias, inteligentes e tacanhas, sensuais e calhaus: o sentido de humor.
Uma pessoa que saiba rir – dos outros, da vida, mesmo quando ela não lhe corre assim tão bem, mas principalmente de si própria – emana uma luz a que ninguém pode ficar indiferente. Riam do vosso rabo gordo, da borbulha na testa, dos defeitos dos vossos maridos, das asneiras dos vossos filhos. Riam da parede rachada, do cano entupido, da crise internacional, do carro avariado. Riam de tudo aquilo que não tenham mesmo que chorar.
É isso que nos torna mais bonitos.

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