Nós temos um cão.
Chama-se Migas, tem dezanove meses e é doido. É doido e mal educado. É doido, mal educado e selvagem. É doido, mal educado, selvagem e teimoso como uma mula. Além de pesar o mesmo.
Lá em casa passámos os últimos dezasseis meses – ele foi para lá com três - a tentar arranjar uma forma de o pôr a salivar ao toque da campainha, que é como quem diz, a obedecer vagamente, antes de ele acabar com o pouco que resta do nosso juízo. Mas sem grande sucesso. Parece que o bicho goza verdadeiramente o facto de conseguir ignorar-nos e fazer única e simplesmente o que lhe dá na real gana, até nos deixar apopléticos.
Pois ontem, finalmente, fez-se luz e percebi tudo.
Ontem à tarde fomos todos, paizinhos dedicados e presentes, assistir a mais uma performance natalícia dos nossos pequenos. A última deste ano. Como cheguei mesmo a rasar a hora do início fiquei cá atrás, empoleirada numa mesa, a tentar ver alguma coisinha que ao menos justificasse as sete multas que devo ter apanhado pelo caminho.
Quis a divina providência que o meu poleiro fosse mesmo encostadinho ao botão de abertura do trinco do portão exterior do colégio.
No inicio, a campainha tocava, tocava num chinfrim infernal de pais ainda mais atrasados que eu a quererem justificar as suas próprias multas. E eu, nada. Não imaginava que fosse suposto carregar no botão, por isso ignorava olimpicamente o concerto de dling dlongs. Até que alguém me pediu, por favor, que carregasse no botão. E eu carreguei.
Ao longo do espetáculo a campainha ia tocando, na escola há crianças pequenas que não estavam a participar na festa e eram livres de ir embora. Ora eu ignorava os primeiros dois ou três toques, mas depois alguém me dava uma cotovelada e eu lá carregava no botão. Pouco a pouco fui interiorizando o reflexo condicionado até conseguir de uma forma quase inconsciente ouvir o toque e carregar imediatamente no trinco. Um espetáculo. Só me faltava babar.
E assim percebi como é que se ensina o cão. Afinal é tão simples...Primeiro ele tem de aprender a falar
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