quarta-feira, março 09, 2011

Beyblade

Na Austrália há gafanhotos, no Brasil há formigas, na Ásia há serpentes, em Espanha há espanhóis. Por cá, a praga do momento chama-se Beyblade.

Beyblades são uns piões pequenos e plásticos que infestaram as nossas vidas. Ao contrário dos piões de madeira da nossa infância, autênticas obras de artesanato fiável e resistente, estes são uma espécie de crias de pião em plástico e metal. Como os nossos filhos – pequenos, rápidos e todos tecnológicos. Só que, enquanto para lançar um pião dos nossos era preciso um doutoramento ou, em alternativa, licença de porte de arma, estes míni piões até têm uma seta a apontar o sitio onde o lançador se encaixa, não vá a criança ficar traumatizada por não conseguir. Vai daí, como qualquer aselha consegue pôr aquilo a rodar, não precisando para isso de mais que um par de braços e outro de mãos, todos os petizes querem um. E como há alguns vinte e sete modelos diferentes, cada uma com a sua lâmina, boquilha, roda de fusão e mais não sei quê, as crianças precisam absolutamente de vários.

Ora os senhores que importam isto, ou os fabricantes, ou lá quem trata de colocar o produto nas lojas, não devem ter a noção do estado emocional em que andam a deixar os nossos pequenos junkies. Desde novembro que só aparecem alguns Beyblades, apenas em algumas lojas e somente quando calha, o que, os deixa em permanente desespero, quais drogados a ressacar.

Pois, aqui há dias, o meu filho alertou-me para a iminência da chegada desses pequenos infernos barulhentos ao Toys ‘R Us, divulgada por um amigo da escola que o terá alegadamente ouvido à sua mãe e suplicou-me que me deslocasse lá para ver se, finalmente, conseguia a Fénix ou o Aquário.

Desconfio que os nossos pais nunca fariam isto, mas lá fui eu.

Nove da matina, passo pela porta. Fechada.

Omessa! – penso. Mas isto não é como o Continente? Pois não é mesmo, abre apenas às dez. Estaciono. Ligo o rádio. Pego no crochet.

Espero.

De quando em vez levanto a cabeça para ver as horas e olhar em volta. Nove e oito, nove e dezanove, nove e vinte e dois, nove e trinta e sete.

Olho para a porta e quase bato com a cabeça no teto do carro. À porta da loja encontram-se seguramente umas cinquenta pessoas. Saio apressada a juntar-me à horda, receosa que me esta me esmague e roube os piões do meu menino. Estão sete graus, está vento e eu de cabelo molhado. Ao meu lado está uma mãe de cabelo molhado também. Sorrimos, cúmplices, e amarfanhamo-nos mais para dentro da gola dos nossos casacos.

O tuga, já o tenho dito várias vezes, é um povo giro. Está ali tudo bem disposto, as pessoas falam umas com as outras, veem-se caras simpáticas e sorrisos amistosos. Mas a cada minuto que passa vão-se encostando mais ao vidro da porta, observando como quem não quer a coisa: eu cheguei antes, eu estou aqui há mais de quinze minutos, eu já cá vim dezoito vezes. E eu a pensar, perdão, meus senhores, mas quem chegou antes fui eu. Na boa. Espero.

Do lado direito está um septuagenário, careca e sorridente, que nos fala da sua aposentação de oficial de marinha de guerra, da esposa que está a arruinar a farda de gala para fazer uma máscara para a neta mais velha que é muito arrapazada e é para ela que leva os beyblades, já a mais nova é uma princesinha, um doce de menina.

Oiço uma senhora, com vincado sotaque do norte, observar que a filha que vive em Denver não sabe o que são Beyblades. Mais atrás, uma outra concorda, que a sobrinha da Califórnia também nunca ouviu falar. Já um rapaz magrinho defende que isso é normal, pois é uma moda só da Europa. Uma senhora minúscula diz que não, que esteve em Colónia e também não sabem o que isso é. O rapaz faz aquela expressão condescendente de quem pensa: daahhh, tal como eu disse, só na Europa é que há.

Nesta altura a rapariga de cabelo molhado estremece e comenta que está gelada. Logo a senhora à minha frente afirma que tem ali o marido, pois encoste-se a ele, na pior das hipóteses podem servir para isso, não? Que não, que o rapaz ao lado dela é só um amigo, o marido já se pirou há uns anos e ela nunca mais quis saber de homens para nada.

Mesmo junto à porta está uma senhora com bom ar, avó. Ao olhar para ela não lhe dou mais de sessenta anos mas depressa concluo que isso não é possível, pois em dois minutos já sei que ela tem um filho de quarenta e nove que está com uma grande gripe e ela foi sozinha de carro daqui para o Ribatejo onde ele vive só para tomar conta dele, já que a nora, essa egoísta, não pode. Diz que tem de trabalhar, vejam só. Na mão segura um papel onde apontou com todo o detalhe a descrição dos Beyblades que os netos pediram e vai acrescentando que dali não sai sem aquilo que quer. Sou rija, diz ela. E eu observo que deve ser, sim, pois estão sete graus e ela está de saia e sapatos abertos, sem meias. E para provar o que diz lá conta ao auditório, que a esta altura já vai em perto de uma centena, que na idade dela não há muita gente que fizesse o que ela fez na véspera, pois desmontou dois móveis e uma cama e montou tudo noutra divisão, sozinha. Que a rijeza lhe vem de um hábito que mantém há quarenta e três anos – um dente de alho esmagado com um copo de água morna, todos os dias antes do pequeno almoço. A rapariga ao lado dela, ao ouvir isto faz um trejeito enojado ao que a senhora responde logo com um bafo para cima de nós: cheiro mal? Não cheiro!

As portas abrem-se e já não sorrimos, já não somos todos amigos. Corremos que nem danados, aos encontrões e pisadelas, com um objectivo firme e comum, nem que para isso tenhamos de andar ao estalo com as avózinhas todas: Beyblade.

Gosto tanto disto! É que gosto mesmo. E três já cá cantam.




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