
Tenho vivido ingenuamente convencida que as donas de casa desesperadas são mulheres remediadas, amarfanhadas pela vida que, divididas entre o T2 com varanda, os meninos, o estafermo e o trabalho, nunca têm vagar para ir ao shopping arranjar as sobrancelhas. Trintonas azedas que passam meses sem jantar num restaurante, semanas sem ver as amigas, dias sem uma conversa que não envolva futebol nem doenças. Esposas desditosas que aturam maridos abrutalhados, egoístas, balofos e chatos, em nome da estabilidade ou da família – conceitos tão extraordinários para eles como física quântica ou renda de bilros. Mulheres para quem aparelhos de fitness são esfregonas, frigideiras, estendais ou aspiradores. Mães rijas que fogem do bêbado do rés do chão e do fiscal da EDP, que pedem ao filho para esconder as sabrinas, antes que o pai o rebente todo com o cinto que lá em casa não entram paneleiros.
A verdade é esta: Donas de Casa Desesperadas são fêmeas sofisticadas, sensuais, magras e corrosivas que embrulham os dias em atividades tão diversas como arranjar intrigas, arranjar problemas ou arranjar amantes na vilazinha amorosa onde fingem habitar moradias tão amplas e arrumadas que até em ficção são improváveis. Jovens e luzidias mulheres, sempre prontas para tardes espirituosas de conversa salpicada por um humor acutilante e inteligente. Quarentonas bem resolvidas e casadas com machos charmosos, educados, sensíveis e cooperantes, com vidas sexuais intensas, divertidas e apaixonadas, tão frequentes na vida real como Big Bangs. Raparigas de cabelos tão brilhantes e bem tratados como os dentes, que se movimentam graciosas e desempoeiradas numa comunidade eclética onde coexistem sem preconceitos nem tabus velhos e novos, abastados e arranjados, falsos e autênticos, infiéis e descomprometidos, crédulos, espertalhões, criminosos e libertinos. Todos na mesma vila, cada um com o seu passado, cada um com o seu segredo.
Donas de Casa Desesperadas é, afinal, uma das melhores séries que passam na televisão.
E agora que já estou mais contente por não fazer parte desse coletivo assustador de galinhas lindas, ricas e espertas resta-me aguardar ansiosamente pelo próximo episódio. Se tenho estado à espera, agora posso desesperar. É já hoje!
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