Geralmente passo ao lado daquelas análises retrospectivas que fazemos no Ano Novo, no aniversário da relação ou no nosso próprio. Perco mais tempo a combinar a celebração do que a pensar no que não fiz e devia ter feito, no que não fiz e ainda bem, no que fiz e me arrependo e no que fiz e não devia ter feito. De uma forma muito pragmática penso sempre que não vale a pena perder tempo com o que não posso mudar.
Mas há aqui uma excepção – os aniversários dos meus filhos. De cada vez que um deles celebra a passagem de mais um ano, dou comigo a pensar. Assomam-me sempre à memória recordações intensas como o dia em que soube que estava grávida, as ecografias mais decisivas, as reacções de amigos e familiares, a velocidade com que o tempo passa.
Mas é claro que, as mais vívidas, gravadas em todo o meu ser com a pujança do primeiro dia e que voltam sempre como boomerangs anuais, são as recordações dos partos – as horas que os antecederam, as nossas expectativas nas vésperas, os preparativos, a ansiedade, as inevitáveis dores, as juras de amor eterno, o momento absolutamente mágico e irrepetível que é dar à luz.
Às vezes perguntam-me se não baralho as memórias. Impossível – eles são três e cada gravidez foi única e repleta de momentos próprios, cada parto decorreu de sua forma e cada um deles nasceu em seu sítio, cada um assistido por um médico, eu assistida por três diferentes. O único elemento comum é que, em todos eles, estávamos lá nós. Os dois. Não era eu acompanhada pelo Filipe, era eu e o Filipe – um ser apenas.
Penso muitas vezes, e não apenas nestes dias, na sorte que temos. Tanto ele como eu vimos de famílias sudáveis – fisica e mentalmente – tivemos uma vida boa, bem recheada, que nos preparou. Temos uma relação linda, da qual nasceram três filhos maravilhosos, cheios de saúde, de vida, de alegria, de imaginação. Temos uma vida mesmo boa. Tão boa que por vezes quase sufoco de medo. É por isso que nunca esqueço a importância de aproveitar cada nanosegundo das nossas existências. Aquilo que já vivemos, já vivemos. Está ganho.
Desde criança que adoro fazer anos. Sempre vivi o dia do meu aniversário de uma forma muito especial. Da mesma forma, tenho feito muita questão de proporcionar aos meus filhos dias igualmente especiais, em que cada um deles se sinta o único – quem tem vários filhos saberá bem do que falo, da dificuldade de fazer alguém sentir-se único no seio de uma família grande, principalmente quando se trabalha fora. Às vezes não conseguimos tão bem, suponho, mas a tentativa também conta.
Hoje é um desses dias. A Verinha faz cinco anos e vai ter um dia especial, pensado só para ela. Está feliz como só uma criança feliz consegue estar – absoluta e completamente.
E eu estou feliz por poder proporcionar-lhe isso.
Parabéns filha!
E parabéns Teresinha e Vasquinho, por todos os aniversários que passaram antes de eu ter facebook.
Parabéns para ti, Filipe – o melhor Pai que qualquer criança poderia desejar, o marido que todos os homens deviam ser.
Adoro-vos, família, desde a alma até ao infinito.
Para mulheres chatas, para mulheres que acham que são chatas, para mulheres que acham que os homens as acham umas chatas, para homens chatos, para homens que acham as mulheres umas chatas, para mulheres que acham os homens uns chatos porque as acham umas chatas... Para toda a gente, portanto.
terça-feira, outubro 20, 2009
segunda-feira, outubro 12, 2009
Ele há coisas...
Sou uma pessoa dada a compulsões. Não é que seja obcessiva compulsiva, mas que anda por aqui um genezito vagabundo, lá isso anda.
Esta queda para o exagero é um tudo nada limitativa para mim e imensamente exasperante para quem me rodeia, mas admitamos – às vezes é útil.
Tudo o que decido fazer faço como se disso dependesse a continuação da vida humana no planeta– se estou a ler um livro que me agrada não falo com ninguém, não vejo televisão, chego mesmo a recusar convites - só páro quando chego ao fim. Se me disponho a arrumar um roupeiro não como nem cozinho para ninguém enquanto não voltar a colocar tudo no sítio. Se decido fazer tricot, começo duas ou três peças e fico como um robot até as acabar a todas.
Foi o que me aconteceu recentemente. Só que, deve ser do caruncho, de tanto tricotar, de tanto a lã roçar no meu delicado pescoço, arranjei uma alergia que me ia enlouquecendo. Andei assim uns quatro ou cinco dias, queixosa e entristecida por não poder tricotar a meu bel prazer. Ao cabo deste tempo as borbulhas do pescoço começaram a alastrar pela cabeça toda quase fazendo com que aqui a Martinha, perdesse o juízo.
Na sexta feira foi o aniversário do meu Pai e, apesar do incómodo lá me arrastei para a celebração. Foi uma daquelas reuniões magnas em que nos amontoámos todos: os sete filhos, genros, nora, netas e neto e alguns amigos. Tudo muito cheio de abracinhos e carinhos, que há tanto que não estamos assim todos juntos e é tão bom, que saudades, que saudades!
No Sábado passei a tarde com duas amigas e correspondente descendência. Entre um cigarro e uma língua de gato lá me viram a borbulhagem e emitiram a sua douta opinião – que devia ser uma alergia
À noite, ainda muito incomodada, com o pescoço todo assanhado e a cabeça com o aspecto de ter sido atacada por um enxame de abelhas raínhas com problemas hormonais, lá fui, qual esposa extremosa e dedicada, acompanhar o meu marido a um concerto de música clássica. Posso dizer, sem receio de exagerar, que fui para a Gulbenkian com a mesma vontade com que os meus filhos comem esparregado, e com a mesma cara,. Só que eu não cuspo.
De volta a casa encontramos a baby sitter enfiada na casa de banho com a Teresa. A primeira coisa que me veio à cabeça foi que ela tinha vomitado, mas a Mafalda esclareceu-me imediatamente: a Teresinha estava carregadinha de piolhos, coitadinha.
Dado o avançado da hora, já nada podia fazer, assim meti-a na cama e acordei no Domingo quase de madrugada, para ir à farmácia comprar o desparasitante – que nojo!
Aqui posso acrescentar que nunca um cabrão de um piolho tinha tido a ousadia de transpôr as portas da minha casa e eu vivia radiante e (confesso) um nadinha orgulhosa com isso – como se quem tem piolhos fossem só os porcos, mesmo sabendo que o piolhame até se dá melhor em cabeças lavadinhas.
Arranquei de casa a toda a brida, rumo à Farmácia das Fontaínhas onde entrei afogueada. O Filipe diz que eu sou um bocado histérica, eu reconheço. E falo alto e sou “espaçosa”. E pedi à senhora depressa, depressa, asinha, asinha, cinco embalagens de Nix. Quando ela voltou lembrei-me de lhe mostrar o meu pescoço, para que me indicasse um anti-prurido qualquer.
A farmacêutica olhou, olhou, e depois disse-me no mesmo tom em que me tinha ouvido:
- A senhora tem é piolhos, ponha o Nix também.
E assim se passa uma vergonha memorável.
Esta queda para o exagero é um tudo nada limitativa para mim e imensamente exasperante para quem me rodeia, mas admitamos – às vezes é útil.
Tudo o que decido fazer faço como se disso dependesse a continuação da vida humana no planeta– se estou a ler um livro que me agrada não falo com ninguém, não vejo televisão, chego mesmo a recusar convites - só páro quando chego ao fim. Se me disponho a arrumar um roupeiro não como nem cozinho para ninguém enquanto não voltar a colocar tudo no sítio. Se decido fazer tricot, começo duas ou três peças e fico como um robot até as acabar a todas.
Foi o que me aconteceu recentemente. Só que, deve ser do caruncho, de tanto tricotar, de tanto a lã roçar no meu delicado pescoço, arranjei uma alergia que me ia enlouquecendo. Andei assim uns quatro ou cinco dias, queixosa e entristecida por não poder tricotar a meu bel prazer. Ao cabo deste tempo as borbulhas do pescoço começaram a alastrar pela cabeça toda quase fazendo com que aqui a Martinha, perdesse o juízo.
Na sexta feira foi o aniversário do meu Pai e, apesar do incómodo lá me arrastei para a celebração. Foi uma daquelas reuniões magnas em que nos amontoámos todos: os sete filhos, genros, nora, netas e neto e alguns amigos. Tudo muito cheio de abracinhos e carinhos, que há tanto que não estamos assim todos juntos e é tão bom, que saudades, que saudades!
No Sábado passei a tarde com duas amigas e correspondente descendência. Entre um cigarro e uma língua de gato lá me viram a borbulhagem e emitiram a sua douta opinião – que devia ser uma alergia
À noite, ainda muito incomodada, com o pescoço todo assanhado e a cabeça com o aspecto de ter sido atacada por um enxame de abelhas raínhas com problemas hormonais, lá fui, qual esposa extremosa e dedicada, acompanhar o meu marido a um concerto de música clássica. Posso dizer, sem receio de exagerar, que fui para a Gulbenkian com a mesma vontade com que os meus filhos comem esparregado, e com a mesma cara,. Só que eu não cuspo.
De volta a casa encontramos a baby sitter enfiada na casa de banho com a Teresa. A primeira coisa que me veio à cabeça foi que ela tinha vomitado, mas a Mafalda esclareceu-me imediatamente: a Teresinha estava carregadinha de piolhos, coitadinha.
Dado o avançado da hora, já nada podia fazer, assim meti-a na cama e acordei no Domingo quase de madrugada, para ir à farmácia comprar o desparasitante – que nojo!
Aqui posso acrescentar que nunca um cabrão de um piolho tinha tido a ousadia de transpôr as portas da minha casa e eu vivia radiante e (confesso) um nadinha orgulhosa com isso – como se quem tem piolhos fossem só os porcos, mesmo sabendo que o piolhame até se dá melhor em cabeças lavadinhas.
Arranquei de casa a toda a brida, rumo à Farmácia das Fontaínhas onde entrei afogueada. O Filipe diz que eu sou um bocado histérica, eu reconheço. E falo alto e sou “espaçosa”. E pedi à senhora depressa, depressa, asinha, asinha, cinco embalagens de Nix. Quando ela voltou lembrei-me de lhe mostrar o meu pescoço, para que me indicasse um anti-prurido qualquer.
A farmacêutica olhou, olhou, e depois disse-me no mesmo tom em que me tinha ouvido:
- A senhora tem é piolhos, ponha o Nix também.
E assim se passa uma vergonha memorável.
quarta-feira, outubro 07, 2009
Para contar uma tenho de contar outra antes.
Aqui há atrasado, num jantar muito agradável em casa de uns amigos que vivem emigrados “lá na França”, um amigo deles contou uma história:
Ao que parece, nos anos de juventude, ele e uns “colegas” foram passar uns dias ao Norte e alugaram uma casinha a uma velhota. Quando lá chegaram e a senhora constatou que afinal os marmanjos eram bem mais do que o combinado e achou por bem pedir uns cobres extra aos rapazes.
Eles é que não acharam piada nenhuma ao atrevimento da senhora. Pois se estavam lisos e até tinham arranjado mais uns amigalhaços para aliviar a despesa, que sentido fazia esse disparate? Portanto, fizeram-lhe um manguito e mandaram-na passear. A senhora, nortenha e zangada derivado à afronta dos fedelhos, toca de lhes berrar aos ouvidos, num português cristalino como água de nascente - passo a citar – “Ide-vos foder, seus coninhas!”.
Reparem bem na sofisticação, na subtileza quase poética, na complexidade técnica do imperativo plural colocado na segunda pessoa, com o intuito de reforçar o sentido da ordem ao aumentar a distância imaginária entre emissor e receptor...
Não sei se foi do vinho do jantar (que naquela casa se bebe bem, bebe), se o que foi, mas adorei a história e, logo no momento decidi incluír a expressão no meu vastíssimo léxico. É claro que o decoro me impede de andar por aí a lançar petardos deste gabarito, pelo que tenho passado este último ano e meio a soltar inocentes “ide-vos”, a torto e a direito – motivo de risota constante, primeiro quando eu explicava o significado da expressão, depois porque já muita gente a conhece e acabou por se transformar numa espécie de private joke.
Só que às vezes, no meio destas brincadeiritas pueris, nós olvidamos pequenos detalhes, tais como a existência dos nossos amantíssimos descendentes e sua consequente e muito contemporânea omnipresença nas horas em que estamos assim mais por casa.
Esse detalhe teve como resultado que, no passado Domingo, quando eu disse aos meus piquenos que ia dar o Ídolos, o Vasquinho ficou muito contente – demasiado contente – com o título do programa. Que era muito giro, muito engraçado e ria, ria. E eu, nada, incrédula a avaliar-lhe o estado da psique, uma pontinha de febre, talvez.
De súbito, encarou-me com os olhos espantados, aqueles que ele põe sempre que a dúvida o toma de assalto, e acrescentou – É ide-vos para onde, mãe?
Ao que parece, nos anos de juventude, ele e uns “colegas” foram passar uns dias ao Norte e alugaram uma casinha a uma velhota. Quando lá chegaram e a senhora constatou que afinal os marmanjos eram bem mais do que o combinado e achou por bem pedir uns cobres extra aos rapazes.
Eles é que não acharam piada nenhuma ao atrevimento da senhora. Pois se estavam lisos e até tinham arranjado mais uns amigalhaços para aliviar a despesa, que sentido fazia esse disparate? Portanto, fizeram-lhe um manguito e mandaram-na passear. A senhora, nortenha e zangada derivado à afronta dos fedelhos, toca de lhes berrar aos ouvidos, num português cristalino como água de nascente - passo a citar – “Ide-vos foder, seus coninhas!”.
Reparem bem na sofisticação, na subtileza quase poética, na complexidade técnica do imperativo plural colocado na segunda pessoa, com o intuito de reforçar o sentido da ordem ao aumentar a distância imaginária entre emissor e receptor...
Não sei se foi do vinho do jantar (que naquela casa se bebe bem, bebe), se o que foi, mas adorei a história e, logo no momento decidi incluír a expressão no meu vastíssimo léxico. É claro que o decoro me impede de andar por aí a lançar petardos deste gabarito, pelo que tenho passado este último ano e meio a soltar inocentes “ide-vos”, a torto e a direito – motivo de risota constante, primeiro quando eu explicava o significado da expressão, depois porque já muita gente a conhece e acabou por se transformar numa espécie de private joke.
Só que às vezes, no meio destas brincadeiritas pueris, nós olvidamos pequenos detalhes, tais como a existência dos nossos amantíssimos descendentes e sua consequente e muito contemporânea omnipresença nas horas em que estamos assim mais por casa.
Esse detalhe teve como resultado que, no passado Domingo, quando eu disse aos meus piquenos que ia dar o Ídolos, o Vasquinho ficou muito contente – demasiado contente – com o título do programa. Que era muito giro, muito engraçado e ria, ria. E eu, nada, incrédula a avaliar-lhe o estado da psique, uma pontinha de febre, talvez.
De súbito, encarou-me com os olhos espantados, aqueles que ele põe sempre que a dúvida o toma de assalto, e acrescentou – É ide-vos para onde, mãe?
sexta-feira, outubro 02, 2009
Faz agora três anos...
... que o meu Pai decidiu celebrar as suas primeiras sessenta primaveras com uma festa na sua casa do Alentejo, onde reuniria (e reuniu) aqueles, que ao longo da vida realmente tocaram o seu coração.
Igual a si próprio, não se preocupou mínimamente com as susceptibilidades que tal decisão poderia ferir - apenas resolveu fazer assim. E quem não fosse convidado é porque não estava incluído no rol dos Eleitos, logo, se ficasse aborrecido, que metesse uma rolha.
Quando tivemos de decidir que presente oferecer, nós, os filhos mais velhos, demos voltas e voltas às nossas quase todas loiras cabecinhas. É que o senhor trata de adquirir rigorosamente tudo aquilo que quer, no preciso momento em que o desejo se manifesta. Isso é óptimo para ele, que vive contente, mas dificulta sobremaneira a vida ao resto da população.
Após aturado brainstorming concluímos que, se ele fazia questão de carregar de simbolismo o momento da sua passagem a sexagenário, então seria esse o nosso caminho: fazer um DVD com fotografias, para projectar depois da ceia.
Felizmente, a nossa mãe é uma pessoa extraordinária, pois compilou os momentos mais marcantes da vida dos quatro filhos em albuns ordenados cronológicamente, que foi oferecendo a cada um à medida que voávamos para fora do ninho. Ainda por cima, mesmo estando eles divorciados há quase vinte anos, a senhora conservou todos os albuns relativos aos anos de casamento. E como o nosso Pai casou segunda vez, já tem carradas de fotos dos anos mais recentes.
Resumindo, entrámos em pânico. Eram milhares e milhares de fotografias para seleccionar e o tempo, para não variar, muito escasso.
Passamos rapidamente à definição de critérios: apesar de não parecer nada, o Dr. é um piegas e chora com relativa facilidade. Por isso mesmo, o que nós pretendíamos era obter um momento simbólico, mas que não fosse deprimente nem constrangedor para ninguém.
Vai daí, decidimos reduzir ao mínimo indispensável as fotos onde aparecesse a nossa mãe e aquelas onde estivessem pessoas já falecidas – como o Avô e a Tia Teresa.
Primeira triagem feita e continuavam a ser centenas.
Passamos ao segundo critério: só seriam seleccionadas fotos onde ele estivesse presente e, quanto mais caricata, ridicula e divertida fosse a foto, melhor. Afinal trata-se de um homem que adora divertir-se e estar rodeado de pessoas animadas, pelo que essa tarefa foi a mais simples para nós.
Triagem concluída, passamos à digitalização – ah, como os nossos filhos terão a vida facilitada!
Já que não tinha participado muito nessa fase, ofereci-me para, com a mana mais velha, produzir efectivamente, o dito DVD.
Na antevéspera da festa fomos para minha casa e estivemos entre as 21H e as 05 da manhã, as duas sentadas à frente de um computador a tirar, pôr, acrescentar, cortar, alterar, juntar e ampliar fotografias. No final, já meio vesgas, lembrámos-nos que ainda tínhamos de escolher uma música. O voto foi unânime: tinha de ser o My Way.
Quem conheça o meu Pai saberá que digo a verdade – foi para ele e não para Frank Sinatra, que Paul Anka escreveu aquela letra. Sem sombra de dúvidas.
Pesquisa feita, lá gamámos a versão da net.
Ainda hoje, quando me lembro dessa madrugada, me comovo. Tenho a impressão que terá sido o maior pranto que partilhei com alguém na minha vida. O DVD estava suave, romântico, uma retrospectiva muito positiva de uma vida que foi, e felizmente ainda é, uma vida cheia. Absolutamente perfeito.
Portanto – lixo.
Era tudo o que nós não queríamos. Intensidade dramática aos pontapés, emoções à flor da pele. Quase uma despedida.
Pior – se nós as duas completamente sóbrias, tínhamos ficado naquele pranto, imagine-se a reacção do grupo depois de um jantar bem ensopado, como acontece nestas alturas. Fora de questão.
Mais uma hora e acabamos por escolher o “Simply the Best” da Tina Turner. Coadunava-se bem com a ideia que o meu Pai tem de si próprio – um ego maior que Júpiter - e era uma música animada, que até dava para dançar. Nada de lamechices nem choradeiras. Festas querem-se alegres, não é?
Então deviam ter visto o resultado.
Nem quero imaginar se tivesse ficado o My Way.
Igual a si próprio, não se preocupou mínimamente com as susceptibilidades que tal decisão poderia ferir - apenas resolveu fazer assim. E quem não fosse convidado é porque não estava incluído no rol dos Eleitos, logo, se ficasse aborrecido, que metesse uma rolha.
Quando tivemos de decidir que presente oferecer, nós, os filhos mais velhos, demos voltas e voltas às nossas quase todas loiras cabecinhas. É que o senhor trata de adquirir rigorosamente tudo aquilo que quer, no preciso momento em que o desejo se manifesta. Isso é óptimo para ele, que vive contente, mas dificulta sobremaneira a vida ao resto da população.
Após aturado brainstorming concluímos que, se ele fazia questão de carregar de simbolismo o momento da sua passagem a sexagenário, então seria esse o nosso caminho: fazer um DVD com fotografias, para projectar depois da ceia.
Felizmente, a nossa mãe é uma pessoa extraordinária, pois compilou os momentos mais marcantes da vida dos quatro filhos em albuns ordenados cronológicamente, que foi oferecendo a cada um à medida que voávamos para fora do ninho. Ainda por cima, mesmo estando eles divorciados há quase vinte anos, a senhora conservou todos os albuns relativos aos anos de casamento. E como o nosso Pai casou segunda vez, já tem carradas de fotos dos anos mais recentes.
Resumindo, entrámos em pânico. Eram milhares e milhares de fotografias para seleccionar e o tempo, para não variar, muito escasso.
Passamos rapidamente à definição de critérios: apesar de não parecer nada, o Dr. é um piegas e chora com relativa facilidade. Por isso mesmo, o que nós pretendíamos era obter um momento simbólico, mas que não fosse deprimente nem constrangedor para ninguém.
Vai daí, decidimos reduzir ao mínimo indispensável as fotos onde aparecesse a nossa mãe e aquelas onde estivessem pessoas já falecidas – como o Avô e a Tia Teresa.
Primeira triagem feita e continuavam a ser centenas.
Passamos ao segundo critério: só seriam seleccionadas fotos onde ele estivesse presente e, quanto mais caricata, ridicula e divertida fosse a foto, melhor. Afinal trata-se de um homem que adora divertir-se e estar rodeado de pessoas animadas, pelo que essa tarefa foi a mais simples para nós.
Triagem concluída, passamos à digitalização – ah, como os nossos filhos terão a vida facilitada!
Já que não tinha participado muito nessa fase, ofereci-me para, com a mana mais velha, produzir efectivamente, o dito DVD.
Na antevéspera da festa fomos para minha casa e estivemos entre as 21H e as 05 da manhã, as duas sentadas à frente de um computador a tirar, pôr, acrescentar, cortar, alterar, juntar e ampliar fotografias. No final, já meio vesgas, lembrámos-nos que ainda tínhamos de escolher uma música. O voto foi unânime: tinha de ser o My Way.
Quem conheça o meu Pai saberá que digo a verdade – foi para ele e não para Frank Sinatra, que Paul Anka escreveu aquela letra. Sem sombra de dúvidas.
Pesquisa feita, lá gamámos a versão da net.
Ainda hoje, quando me lembro dessa madrugada, me comovo. Tenho a impressão que terá sido o maior pranto que partilhei com alguém na minha vida. O DVD estava suave, romântico, uma retrospectiva muito positiva de uma vida que foi, e felizmente ainda é, uma vida cheia. Absolutamente perfeito.
Portanto – lixo.
Era tudo o que nós não queríamos. Intensidade dramática aos pontapés, emoções à flor da pele. Quase uma despedida.
Pior – se nós as duas completamente sóbrias, tínhamos ficado naquele pranto, imagine-se a reacção do grupo depois de um jantar bem ensopado, como acontece nestas alturas. Fora de questão.
Mais uma hora e acabamos por escolher o “Simply the Best” da Tina Turner. Coadunava-se bem com a ideia que o meu Pai tem de si próprio – um ego maior que Júpiter - e era uma música animada, que até dava para dançar. Nada de lamechices nem choradeiras. Festas querem-se alegres, não é?
Então deviam ter visto o resultado.
Nem quero imaginar se tivesse ficado o My Way.
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