quarta-feira, novembro 18, 2009

Numa de aliviar a pressão...

...dos últimos dias, ontem à noite agarrei na minha mais velha e desandámos as duas para o CascaiShopping. Os pretextos eram dois: tirar fotocópias dos cadernos dela para levar a uma amiga que está com gripe e comprar comida para o cão.
Resolvida a primeira tarefa, abraçámos a segunda.
Se até ontem não existia para mim piores vendedores que os de timesharing, agora a pústula foi tomada por um novo tipo de larvas: os vendedores de comida para animais.
Foi assim:
Eu:
- Boa noite.
Empregado solícito:
- Boa noite.
Eu:
- Olhe, eu queria comprar comida para o meu cão e preciso de um conselho seu.
Empregado cagão, de sobrolho levantado:
- Sim?
Eu, receosa:
- A ração que nós costumamos dar ao cachorro é a Royal Canin, mas isso é o mesmo que alimentar o cão a bifes do lombo, por isso eu estava aqui a pensar se não haveria uma mais baratinha, mesmo que de qualidade ligeiramente inferior...
(tipo bife de perú, pensei eu)
Empregado empertigado:
- Ai, não. Quer dizer, ter temos, mas não são boas rações. Cá em Portugal só há cinco boas: Royal, Eukanuba... (e desata para lá a debitar mais umas marcas de que eu nunca ouvi falar).
Eu, ligeiramente irritada:
- Mas são más? Tipo causam distúrbios intestinais, fazem cair o pelo ou cegam os pobres bichos?
Empregado empertigado, em tom condescendente:
- Não, nada disso, minha senhora. Mas sabe, eu trato a minha cadela como se fosse minha filha...
(se há coisa que eu não aguento nesta vida é que me tratem por “minha senhora”)
Eu, um bocado mais irritada:
- Sabe, é que eu filhos tenho três e não os alimento a caviar e champanhe francês, mas não tarda nada não tenho dinheiro nem para lhes dar ossos moídos. Repare que eu não pretendo dar ao cachorro lixo nem restos de animais em decomposição, só queria saber se há alguma ração mais em conta, é que ele só tem ainda seis meses e já gastamos com a comidinha dele quase o mesmo que em escolas.
Empregado ainda mais condescendente:
- Tudo bem, arranjo-lhe uma mais barata. Mas está a ver aquela cadela ali?
(e aponta para um hipopótamo dourado a ressonar no meio da loja)
Se não fossem as rações boas que sempre lhe dei, ela hoje já não se mexia, coitadinha.
(e toca de chamar a morsa com nome de mulher, para perto de nós, o que causou logo um chilique na Teresa, que morre de medo até do Migas)
Empregado condescendente, muito técnico e ligeiramente irritado comigo, continua:
- Se fosse um cão pequeno, vá, até aos dez quilos, ainda podia optar por um outro alimento, mas os cães grandes - já percebi que o vosso é grande, não é? - precisam de reforçar as articulações para poderem permanecer no seio da família mais tempo e com mais qualidade de vida. Além de que os cães de grande dimensão têm muita tendência para problemas no estômago...
Eu, fula da vida, a ponto de lhe enfiar uma coleira estranguladora pela goela abaixo:
- Ok pronto, ganhou. Dê-me lá a Royal de 15 quilos, por favor.
Paguei, agarrei na saca e atravessei o shopping de uma ponta à outra com aquilo ao lombo, em cinco segundos, com a Teresa quase a correr atrás de mim.
Sou fraca, por isso garanto que para a próxima nem passo perto dele e da sua lojinha pretenciosa. Vou direitinha ao Continente.

Os dez mandamentos

Este ano a Teresa passou para o 5º e teve que mudar de escola. Após meses de intensa angústia, aturada pesquisa, contas minuciosas e estatísticas várias sobre o efeito que a decisão teria sobre a qualidade de vida de todos os elementos desta família, optámos por um colégio com qualidade de ensino reconhecida, não demasiado caro e perto da escola onde andam os outros dois.
Como o mundo não é um local perfeito, alguém se lembrou de criar a palavrinha "mas". E o mas desta situação é que o colégio é religioso.
Não é que tenha alguma coisa contra, mas tanto o Filipe como eu somos agnósticos convictos, o que apenas tornou a nossa decisão um bocadinho mais demorada. Concluímos então que mal não faria e até podia ser que lhe fizesse bem. E ela lá anda feliz e contente.
Aqui há dias, ao jantar, a Teresa mencionou que ia ter teste de Moral - pronto, têm destas coisas - que precisava de decorar os dez mandamentos e se, por acaso nós não os sabíamos.
Não querendo passar por ignorantes, lá começámos os dois: não matarás, não roubarás, não cobiçarás a mulher do próximo.
E ela, mas isso são só três!
Como nenhum de nós se lembrava de mais mandamentos, começamos a inventar: não farás mal aos animais, não poluirás as águas e as terras... e assim por diante. Não faltarás ao respeito a ninguém, não deixarás comida no prato. Apesar do ridículo, até achávamos que estes eram uns bons mandamentos e mantivemos o nosso ar compenetrado de pais responsáveis e sérios. Intenção que ela deitou por terra quando se levantou da mesa e, com um suspiro disse:
-Não inventarás os dez mandamentos...

terça-feira, novembro 17, 2009

A gripe e eu (um bocadinho longo, mas foram muitos dias)

Estas últimas semanas não têm sido fáceis: na 3ª feira dia 03 de Novembro, a Teresa foi para a escola de manhã, óptima. Ao fim do dia, quando fui buscá-la, já trazia tudo aquilo a que tinha direito - febre, dores de cabeça, dores no corpo, tosse e dores de garganta. Liguei imediatamente para a tal linha, mas nicles. Falei então para o pediatra que me disse logo de caras que se tratava de um quadro da famosa gripe e para nos prepararmos que íamos ser todos corridos. Explicou-me os sinais de alarme e o que é que eu devia fazer no caso de observar algum deles. E pronto, fiquei de sentinela, passei a dormir só com metade do corpo.
Na noite de quinta - feira o Filipe não se sentia bem, estava engripado, dizia. Nessa mesma noite a Teresa sentiu dificuldade em respirar e acabei a madrugada no hospital com ela, onde o médico também foi de opinião que era um quadro clássico de gripe A H1N1, com direito a papel passado e tudo.
Na sexta, o Filipe ainda não estava bem e ficou de molho, no Sábado também. Mas no Domingo estava melhor e, como tinha o trabalho todo de pantanas decidiu ir trabalhar na segunda- feira. Mas antes disso o Vasco tinha dentista e eu lá fui com ele.
A meio da consulta recebo uma mensagem a dizer para estar atenta quando voltasse para casa, que o cão tinha fugido e sem coleira. Ah, grande Migas, saudades, hein?
No regresso não o vi, portanto esperei que ele voltasse. Mas ele não voltou.
À tarde apareceu cá uma amiga minha para beber um cafézinho na cozinha (uma visita de duas que tive), nada de muito chegado aos doentes. Cinco minutos depois de sair liga-me a dizer que o cão estava a causar desacatos no meio da rua. E lá fui eu disparada, de trela em riste para o meter no carro, tarefa que só consegui com a preciosa ajuda dela - o nosso bebé já passa dos 30 quilos.
Nesse mesm dia, já eu cantava de galo, que afinal éramos todos de pedra e que a coisa afinal não era assim tão contagiosa, quando o Vasco apareceu com um quadro igualzinho. Deitei mãos à cabeça – é que ficar uma semana inteira fechada em casa com uma criança doente não é fácil, agora duas semanas... não devo nada a ninguém, bolas!
Ao Vasco a gripe apanhou mais os intestinos e o estômago e menos a garganta, o que deu uma certa graça à minha segunda semana, para variar.
Estava tudo bem, ele quase recuperado, apesar de tanto ele como a Teresa continuarem a tossir, e eu já cantava de galo outra vez. A Verinha é que é mesmo de ferro. Qual quê? Sábado de manhã, trungas 39,1. Até ferveu, literalmente.
Hoje é terça, dia 17 e o Filipe já anda há dois dias a queixar-se que está pior outra vez. Decidiu ir ao médico, que o mandou fazer a análise. Tem suspeitas.
Afinal parece que a única de pedra sou eu...
No meio disto fala-se da gripe e parece que estamos a falar de lepra daquela que faz cair bocados. Toda a gente foge a sete pés como se o simples facto de eu respirar o mesmo ar lhes fosse queimar os olhos ou os pulmões ou fazer o sangue ficar duro nas veias.
À falta de visitas ou melhor entretém, temos essa maravilhosa e por vezes subvalorizada peça de mobiliário que é a televisão. Posso dizer sem ponta de orgulho, que neste momento sinto-me apta a responder a qualquer pergunta que me façam sobre a programação da porra do Disney Channel. Qualquer pergunta, sem medo.
Como se chama a saloia da meia irmã mais velha do Derek? Casey.
Quantos são os bimbalhões dos Jonas Brothers? Três na banda mais um pequeno.
A que dia da semana dá a trampa do episódio novo dos Feiticeiros de Waverly Place? Segundas.
Como se chama a burra da melhor amiga da Hannah Montana? Lilly.
E quantos videoclips barulhentos e pirosos passam nessa porcaria desse canal todos os dias? Cinquenta e dois mil trezentos e oitenta e seis, porra!
Vêem? Sei tudo. E estou um bocadinho... nervosa?
Agora cheguei ao ponto de, em vez de vomitar a Raven para cima deles, enviar mails ao meu filho, eu semi catatónica no meu portátil, ele amoroso no seu Magalhães, os dois sentados no mesmo sofá, enquanto a Vera pinta o tapete da sala com giz.
Era isso ou eu esgazeava os olhos e ia nua, de gabardina aberta, com umas cuecas do Filipe enfiadas na cabeça, gritar obscenidades para a porta do supermercado.
Toda a gente nos avisa da gripe, mas caramba, ninguém nos prepara para isto! Não prepara mesmo.

terça-feira, novembro 03, 2009

Lógica infantil...

Ontem o Filipe regressou da Suiça onde esteve por uns intermináveis dois dias.
A caminho do aeroporto, onde fomos fazer-lhe a surpresa de o resgatar à corrupta fila dos táxis, munidos de um grande cartaz que a Teresinha passou metade da tarde a fazer - e que por acaso ele foi o único passageiro a sair por aquela porta que não o viu, mas pronto - dizia eu, a caminho do aeroporto passámos perto do Hospital do SAMS. Eu comentei com eles que tinha sido ali mesmo que a Vera tinha nascido. Logo o Vasco perguntou: e dói muito, mãe, deitar o bebé?
Claro que, entre gargalhadas, lhe disse que sim, mas que não se diz "deitar o bebé".
Ele ficou com aquela carinha típica, de olhos redondos espantados e perguntou à Teresa baixinho:
- É pôr o bebé que se diz?