...dos últimos dias, ontem à noite agarrei na minha mais velha e desandámos as duas para o CascaiShopping. Os pretextos eram dois: tirar fotocópias dos cadernos dela para levar a uma amiga que está com gripe e comprar comida para o cão.
Resolvida a primeira tarefa, abraçámos a segunda.
Se até ontem não existia para mim piores vendedores que os de timesharing, agora a pústula foi tomada por um novo tipo de larvas: os vendedores de comida para animais.
Foi assim:
Eu:
- Boa noite.
Empregado solícito:
- Boa noite.
Eu:
- Olhe, eu queria comprar comida para o meu cão e preciso de um conselho seu.
Empregado cagão, de sobrolho levantado:
- Sim?
Eu, receosa:
- A ração que nós costumamos dar ao cachorro é a Royal Canin, mas isso é o mesmo que alimentar o cão a bifes do lombo, por isso eu estava aqui a pensar se não haveria uma mais baratinha, mesmo que de qualidade ligeiramente inferior...
(tipo bife de perú, pensei eu)
Empregado empertigado:
- Ai, não. Quer dizer, ter temos, mas não são boas rações. Cá em Portugal só há cinco boas: Royal, Eukanuba... (e desata para lá a debitar mais umas marcas de que eu nunca ouvi falar).
Eu, ligeiramente irritada:
- Mas são más? Tipo causam distúrbios intestinais, fazem cair o pelo ou cegam os pobres bichos?
Empregado empertigado, em tom condescendente:
- Não, nada disso, minha senhora. Mas sabe, eu trato a minha cadela como se fosse minha filha...
(se há coisa que eu não aguento nesta vida é que me tratem por “minha senhora”)
Eu, um bocado mais irritada:
- Sabe, é que eu filhos tenho três e não os alimento a caviar e champanhe francês, mas não tarda nada não tenho dinheiro nem para lhes dar ossos moídos. Repare que eu não pretendo dar ao cachorro lixo nem restos de animais em decomposição, só queria saber se há alguma ração mais em conta, é que ele só tem ainda seis meses e já gastamos com a comidinha dele quase o mesmo que em escolas.
Empregado ainda mais condescendente:
- Tudo bem, arranjo-lhe uma mais barata. Mas está a ver aquela cadela ali?
(e aponta para um hipopótamo dourado a ressonar no meio da loja)
Se não fossem as rações boas que sempre lhe dei, ela hoje já não se mexia, coitadinha.
(e toca de chamar a morsa com nome de mulher, para perto de nós, o que causou logo um chilique na Teresa, que morre de medo até do Migas)
Empregado condescendente, muito técnico e ligeiramente irritado comigo, continua:
- Se fosse um cão pequeno, vá, até aos dez quilos, ainda podia optar por um outro alimento, mas os cães grandes - já percebi que o vosso é grande, não é? - precisam de reforçar as articulações para poderem permanecer no seio da família mais tempo e com mais qualidade de vida. Além de que os cães de grande dimensão têm muita tendência para problemas no estômago...
Eu, fula da vida, a ponto de lhe enfiar uma coleira estranguladora pela goela abaixo:
- Ok pronto, ganhou. Dê-me lá a Royal de 15 quilos, por favor.
Paguei, agarrei na saca e atravessei o shopping de uma ponta à outra com aquilo ao lombo, em cinco segundos, com a Teresa quase a correr atrás de mim.
Sou fraca, por isso garanto que para a próxima nem passo perto dele e da sua lojinha pretenciosa. Vou direitinha ao Continente.
1 comentário:
Olá!
Sou leitora do má assiduo, e por isso linkei-te no meu recém-nascido blog! Espero que não te importes!!!
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