quinta-feira, fevereiro 25, 2010

Se eu fosse inventora...

...inventava um relógio que esticasse os dias, uma máquina de repetir as frases que mais digo e um despertador que nos escolhesse a roupa de manhã.
Inventava um secador de cabelo sem fios, uma máquina de estender a roupa e outra que fosse lá engomá-la. E já agora, que a deixasse arrumada.
Inventava saltos altos confortáveis, uma dieta instantânea e uma forma de impedir que a gravidade se sentisse no meu corpo.
Acabava com a morte de crianças, com a demência dos velhos, com o egoísmo dos homens.
Inventava uma máquina de arrumar a casa, de lavar o carro, de mudar fraldas, de curar ressacas.
Uma outra que acabasse com as intrigas, com as mentiras, com as maldades e com as invejas.
Inventava uma forma de acabar com a miséria, com a falta de dignidade, com as catástrofes, com os acidentes, com a violência, com a traição.
Inventava a fórmula do optimismo, da esperança, do riso, do sono e do amor.
Inventava pílulas, bebidas e cigarros que não matassem.
Inventava a maneira de proteger os meus filhos sem ser chata, de gostar do meu homem sem ser ciumenta, de andar de carro sem gastar gasolina, de gastar dinheiro sem ficar pobre.
Inventava uma máquina de alimentação saudável, outra para reciclar o lixo e uma de substituir lâmpadas.
Inventava a forma de acabar com a discriminação, com o terrorismo, com a corrupção.
Inventava a fórmula da sinceridade, da tolerância, da paciência, da simpatia. Da beleza, da generosidade, da alegria e da felicidade.

Se eu fosse inventora inventava tantas coisas... mas como não sou inventei uma solução: agarrar na minha vida e prestar muita atenção ao que é bom, não dar grande importância ao que é menos bom e passar rápidamente ao lado do que é mau.

Bora todos?

quinta-feira, fevereiro 18, 2010

Ele há gajas e gajas. E gajos.

Quem me conhece sabe que sou mulher. E até bastante. Mas nunca fui “gaja”, isto no sentido de ter uma amiga em cada dia, segredar, galinhar, fofocar, dizer ou fazer maldades fosse a quem fosse.
Sempre fui um bocado básica: gosto muito de champanhe mas adoro cerveja, sinto-me tão bem num restaurante de luxo como numa tasca, sou capaz de comer e arrotar como um pedreiro e de dizer umas piadas mais brejeiras do que seria conveniente para uma dama, em qualquer sitio onde esteja.
A uma certa altura da vida, a adolescência, tanto os rapazes como as raparigas assumem identidades muito marcadas, com principios e critérios muito fundamentalistas e obtusos, até. Eu nunca fui assim. Na infância passei de longe mais tempo a ler e a fugir dos meus irmãos do que a confraternizar com malta da minha idade, o que me tornou um bocado bicho do mato. Não gostava nem tinha jeito para jogar à bola nem para andar de bicicleta, por isso, fui crescendo e desenvolvendo dons de conversadora competente.
Mais tarde, depois de tirar os óculos e o aparelho dos dentes e aprender a socializar e a vestir-me decentemente, nunca me importei se transpirava loucamente por dançar até ao amanhecer e cedo compreendi que estar confortável é muito mais divertido que estar gira.
Talvez por isso, porque não me identificava de todo com o espírito de “gaja”, em criança e até na adolescência sempre tive melhores e mais francas relações com rapazes do que com raparigas. Não que não tenha ou tivesse tido amigas – claro que tive e tenho – mas como me sentia sempre meio desintegrada nesses grupos muito “femininos”, as minhas amigas sempre foram poucochinhas quando comparadas com o que era normal na minha idade.
Acontece que, talvez por serem poucas e por eu achar que devia preservá-las e ser como elas, eu dedicava a essas amigas uma amizade muito focada e sentia-me verdadeiramente com qualquer desapreço demonstrado – leia-se qualquer insignificante falta de atenção ou segredinho perpetrado nas minhas barbas. É possivel que fosse por eu não saber lidar com essas nuances complexas e intrincadas, das quais vivia completamente alheada, mas a verdade é que sempre fui uma amiga absolutamente disponível, incapaz de magoar deliberadamente outra pessoa, de dirigir ataques cirurgicos, daqueles desferidos mesmo para magoar; de gozar, fazer pouco ou humilhar alguém só porque sim. Talvez devido a essa espécie de credulidade, tinha a paranóia de que um dia iam gozar comigo e eu não ia perceber nada mas, por outro lado acreditava que toda a gente me dizia sempre a verdade. Em suma, era um bocado totó. Mas nem por isso fui infeliz, antes pelo contrário.
Entretanto cresci e continuei fiel a mim mesma, se bem que um bocadinho mais... preparada. Se nunca saí com grupos de amigas para o engate, nunca conspirei com umas contra outras, nunca fui muito fã de dormir fora de casa e sempre detestei da mesma forma emprestar roupa e usar roupa emprestada - mas emprestava, se uma amiga pedisse; também acho que aprendi a topar uma mentira, a dirigir um ataque, a defender-me de uma má intenção e a não me meter na vida dos outros.
Esta é uma postura que mantenho tanto na minha vida privada como na profissional.
Na minha empresa todos se riem porque eu nunca sei nada das fofocas do momento, estou sempre a leste das conversas que acontecem à minha volta e passo o tempo a pensar em comida. Também se riem porque venho trabalhar de cabelo molhado e faço a maquilhagem no carro, muitas vezes já no parque de estacionamento, à vista de todos.
Num grupo de trabalho composto por cinco homens e algumas vinte e cinco mulheres, os homens – todos casados - estão claramente a “mulherizar-se”: falam de cremes e cortes de cabelo, colocam verniz para não roerem as unhas, trocam receitas e vestem e calçam peças no mínimo duvidosas às sextas – feiras. E eu não faço mais nada a não ser gozar com eles e questionar a sua masculinidade (pura gozação, sem preconceito nenhum, que eu cá não sou pessoa de discriminar ninguém).
De tal forma que, aqui há dias, sentei-me no meu lugar, ao computador, e reparei que estava tudo a sussurrar. Sem perceber o que se passava fingi que não tinha dado por nada, até que recebi um email de uma das minhas coleguinhas a dizer para eu olhar para trás. E ao olhar, vi um cartaz que dizia o seguinte:
“Aqui é o lugar d’o Elias – O último dos machos.

terça-feira, fevereiro 09, 2010

Faz hoje ao meio-dia exactamente nove anos que entrei no Hospital Particular de Lisboa com um atraso de três horas relativamente à hora que tinha combinado com a Drª Cristina. Logo ali levei um raspanete da enfermeira de serviço, uma mulher gorda e eficiente que mais tarde soube ser a planetáriamente reconhecida Capitolina – é que estava gente a ligar para lá há duas horas para saber se o meu bebé já tinha nascido e eu sem aparecer e ela não era secretária de ninguém..
Na iminência de me debulhar em lágrimas, lá consegui articular duas palavritas - desculpei-me com o trânsito, uma manhã dificil, sabe como é.
Mas a realidade foi bastante diferente. Se é verdade que eu tinha combinado com a Drª às nove, também é verdade que não preguei olho a noite inteira e bem antes da hora marcada já estava em Lisboa.
Mas eu estava tão nervosa, tão apavorada e as minhas pernas tão paralisadas que se recusavam terminantemente a obedecer aos desmandos do meu marido que, sentado comigo numa mesa do café em frente do hospital, tentava a todo o custo convencer-me a acabar com o suplício antes de enlouquecermos os dois.
Finalmente, entre náuseas, cambaleios e baixas de tensão arterial lá me decidi. Seria tudo tão mais fácil se fosse espontâneo! Naquele dia jurei a mim mesma que, mesmo que viesse a ter mais dezoito filhos, não tornava a manipular a natureza a meu jeito, só para não calhar a meio da noite. Que se lixasse! Seria quando fosse, quando doesse ou alagasse, que quanto a isso já não podemos fazer nada, nem fugir, nem adiar, nem sequer pensar nisso.
Às 13,30H colocaram-me o soro e eu estendi-me a ler a Caras para enganar a fome que me consumia, enlouquecia e outras palavras acabadas em ia.
Como o processo não estava assim tão rápido, uma meia hora depois da epidural a Drª decidiu ir lanchar, noticia que me trouxe de forma irresponsável e leviana, por volta das 17.30H.
É que, se em vez de pernas eu não tivesse ali adormecidos dois hipopótamos, eu garanto que lhe tinha saltado aos fagotes. O estado apoplético em que me encontrava desde a véspera tínha-me reduzido o estômago ao tamanho do buraco de uma agulha, fazendo com que não tivesse lá entrado praticamente nada em cerca de vinte e quatro horas. Mas, a partir do momento em que me tinham posto o soro, eu tinha relaxado. E com o relaxamento veio uma fome absurda, dificil de controlar, provocadora de lágrimas e discussões e alterações da minha personalidade já de si bastante hormonal.

Passados uns dez minutos da saída da médica senti “aquilo”. “Aquela” vontade. A minha mãe estava comigo e eu desatei aos gritos que fosse chamar o Filipe, que a criança nascia, depressa, depressa!
A minha mãe já tinha reparado no meu estado psicótico e desvalorizava, atribuíndo o meu nervosismo à fome – vá lá, filha, tem calma. Ainda falta, não ouviste a médica? Vou ver se podes beber um pouco de água.
E eu que não, que não, que a médica não sabia nada, que não queria água porra nenhuma, que chamasse a parteira e rápido ou seria mesmo ela a fazer o parto.
Mais para me acalmar do que por convicção, lá foi a minha mãe chamar a parteira. No caminho cruzou-se com o Filipe e achou que talvez fosse bom ele ir até lá acalmar-me também.

Passados quinze minutos, às 17.55H de Sexta –Feira, dia 09 de Fevereiro de 2001, com trinta e oito semanas de gestação, 3,050Kg de peso e cinquenta centímetros de comprimento, sem esforço nenhum, nasceu o Vasquinho. Trazia o cabelo em pé, a goela afiada e um conjunto de balde e esfregona para oferecer à mana que o esperava ansiosa.
Ao parto assistiu o Pai. A médica não.
Lembro-me tão bem. Está tudo tão claro na minha memória - cada emoção, cada arrepio, cada lágrima, cada sorriso. O alívio.
Parece mesmo que foi ontem.

Hoje vai ser um daqueles dias especiais em que a única coisa que o preocupa é verificar se cada pessoa que se chegue perto dele também vem devidamente munida de um presente.
Acho que sim, é uma boa preocupação.
Parabéns filho! Aproveita bem.

terça-feira, fevereiro 02, 2010

De como eu não fui presa (mas se tivesse sido eu compreendia)

Primeiro tenho de confessar um pecado:
Eu falo ao telemóvel enquanto conduzo. E como não oiço nada com o auricular, não o uso. E o alta voz é uma trampa, por isso também não uso. Falo e falo com o telefone colado ao ouvido. Pronto. Já disse.
Sei que está errado, é proibido e é perigoso, mas em abono próprio posso dizer que há coisas piores – não bebo de manhã e fico quase sempre parada enquanto me maquilho. Vá, também não falo muito, é só quando é preciso.
Aqui há tempos encontrei o meu marido à entrada da A5. Ele fez-me sinal para ir atrás dele. Já tínhamos combinado que um dia ele me ensinava um atalho complicado para fugir à rolha ali a seguir às portagens de Carcavelos.
Saímos em Oeiras e uns metrinhos à frente já eu não sabia dele.
Como não queria voltar para trás, decidi ligar-lhe a pedir orientações. Dá-me ideia que para os morcegos poderem ser cegos tiveram de roubar o sentido de orientação a algumas pessoas. Eu fui uma das gamadas. Explicar- me uma direcção em português é o mesmo que fazê-lo em mandarim ou aramaico. Digo que sim, agradeço e fico na mesma.
Parei o carro para procurar o telemóvel na minha mochila do Sport Billy, mas ela estava no chão e tirei o cinto para a apanhar. Como estava com pressa fiz a chamada e arranquei ao mesmo tempo.
O Filipe, que sabe dos meus problemas, atendeu logo e estava a esforçar-se para me orientar. Como se a minha incapacidade crónica de ir daqui para ali não bastasse, havia uma sirene em cima dos meus ouvidos que não me deixava ouvir nada do que ele dizia. Mas era tal a barulheira que decidi olhar pelo espelho para ver onde era a crise. Nessa altura oiço ao altifalante “ por favor encoste a viatura”.
Entrei em pânico. Atirei o telemóvel de pantanas, parei a "viatura" e arvorei o meu semblante mais cândido.
O guarda era uma espécie de Dunga misturado com Bruno Nogueira. Parecia simpático.
- Bom dia, minha senhora ( Ai como detesto que me tratem por “minha senhora”!)
- Bom dia, senhor guarda. (sorriso cintilante)
- Sabe porque é que a mandei parar não sabe?
- Pois, senhor guarda, era porque eu vinha ao telefone, imagino. Mas é que eu estava só a avisar na minha empresa que estou atrasada. Já viu este trânsito?
- Pois, mas reparou que está sem cinto, ou não?
- Ah, estou? É que parei aqui atrás e tinha mesmo acabado de arrancar quando os senhores apareceram.
- Hum...documentos – seus e da viatura.
Drama. Não fazia ideia nenhuma.
- Senhor guarda, deixe ver... sabe o carro é da empresa, não sei bem onde guardam essas coisas...
- Enquanto falava atirei para o chão as três toneladas de papéis e lixo que ocupavam o porta-luvas. No fundo estava uma pastinha verde. Entreguei-a ao guarda. Ele consultou-a e depois observou enfadado que aquilo era o livro de registo das revisões.
Eu desculpei-me:
- Sabe, senhor guarda, se me disser qual o aspecto daquilo que procuro é mais fácil...
O guarda devia estar a achar que eu era estranha e decidiu mudar a estratégia.
- Então dê-me antes os seus documentos, por favor. BI e carta de condução.
Aposto que explicou quais eram os meus documentos para evitar que eu fosse outra vez procurar no porta-luvas.
Para chegar a essa secção tive de escavar outra vez na mochila do Sport Billy. Encontrar a carteira foi complicado mas lá apareceu. Vasculhei todo o interior e, no meio de uma miríade de talões da Zara, da lavandaria e da farmácia lá encontrei o que ele pedia. Mas o senhor estava num dia atento e observou que as moradas dos documentos não condiziam.
Lá fiz o meu ar mais espantado, que não sabia, que era um horror, que ia mudar amanhã.
Entretanto o colega, mais velho, gorducho e sorridente, tinha aparecido e estava a observar atentamente o vidro da frente. Aproximou-se.
- Selo.
- Selo?
- Sim, selo. É obrigatório.
- Ah, o selo! Eu sei. (risinho nervoso). É que o carro é da minha empresa e não me devem ter entregue isso, tenho de ver. Não sou grande coisa com papeladas, sabe?
- E, já agora, o dístico do seguro, também não está aqui.
Parece-me que ele também já estava a ficar um bocadinho nervoso.
- Mas olhe, que o carro tem seguro pode ter a certeza, pois se é de serviço..., disse eu.
- Sim, acredito, mas onde está ele?
- Deve estar aqui na minha carteira.
Desatei outra vez a escarafunchar na carteira até que descobri um papel verde dobrado em quatro. Triunfante entreguei-lho.
- Ufa!Tome, aqui está.
Ele desdobra o papel, olha para mim como se eu fosse azul e tivesse os olhos pendurados nas orelhas e diz:
- Menina, isto é uma multa.
Aí fiquei mesmo sem saber o que fazer. Esgotaram-se-me os sorrisos cristalinos e cintilantes e o arzinho ingénuo ou apatetado, ou lá o que era.
- Vou presa?
- Devia.
E sorriu.
- Vá-se lá embora e tenha juizo.
E foi assim que não fui presa, mas se tivesse sido tinha compreendido.