Faz hoje ao meio-dia exactamente nove anos que entrei no Hospital Particular de Lisboa com um atraso de três horas relativamente à hora que tinha combinado com a Drª Cristina. Logo ali levei um raspanete da enfermeira de serviço, uma mulher gorda e eficiente que mais tarde soube ser a planetáriamente reconhecida Capitolina – é que estava gente a ligar para lá há duas horas para saber se o meu bebé já tinha nascido e eu sem aparecer e ela não era secretária de ninguém..
Na iminência de me debulhar em lágrimas, lá consegui articular duas palavritas - desculpei-me com o trânsito, uma manhã dificil, sabe como é.
Mas a realidade foi bastante diferente. Se é verdade que eu tinha combinado com a Drª às nove, também é verdade que não preguei olho a noite inteira e bem antes da hora marcada já estava em Lisboa.
Mas eu estava tão nervosa, tão apavorada e as minhas pernas tão paralisadas que se recusavam terminantemente a obedecer aos desmandos do meu marido que, sentado comigo numa mesa do café em frente do hospital, tentava a todo o custo convencer-me a acabar com o suplício antes de enlouquecermos os dois.
Finalmente, entre náuseas, cambaleios e baixas de tensão arterial lá me decidi. Seria tudo tão mais fácil se fosse espontâneo! Naquele dia jurei a mim mesma que, mesmo que viesse a ter mais dezoito filhos, não tornava a manipular a natureza a meu jeito, só para não calhar a meio da noite. Que se lixasse! Seria quando fosse, quando doesse ou alagasse, que quanto a isso já não podemos fazer nada, nem fugir, nem adiar, nem sequer pensar nisso.
Às 13,30H colocaram-me o soro e eu estendi-me a ler a Caras para enganar a fome que me consumia, enlouquecia e outras palavras acabadas em ia.
Como o processo não estava assim tão rápido, uma meia hora depois da epidural a Drª decidiu ir lanchar, noticia que me trouxe de forma irresponsável e leviana, por volta das 17.30H.
É que, se em vez de pernas eu não tivesse ali adormecidos dois hipopótamos, eu garanto que lhe tinha saltado aos fagotes. O estado apoplético em que me encontrava desde a véspera tínha-me reduzido o estômago ao tamanho do buraco de uma agulha, fazendo com que não tivesse lá entrado praticamente nada em cerca de vinte e quatro horas. Mas, a partir do momento em que me tinham posto o soro, eu tinha relaxado. E com o relaxamento veio uma fome absurda, dificil de controlar, provocadora de lágrimas e discussões e alterações da minha personalidade já de si bastante hormonal.
Passados uns dez minutos da saída da médica senti “aquilo”. “Aquela” vontade. A minha mãe estava comigo e eu desatei aos gritos que fosse chamar o Filipe, que a criança nascia, depressa, depressa!
A minha mãe já tinha reparado no meu estado psicótico e desvalorizava, atribuíndo o meu nervosismo à fome – vá lá, filha, tem calma. Ainda falta, não ouviste a médica? Vou ver se podes beber um pouco de água.
E eu que não, que não, que a médica não sabia nada, que não queria água porra nenhuma, que chamasse a parteira e rápido ou seria mesmo ela a fazer o parto.
Mais para me acalmar do que por convicção, lá foi a minha mãe chamar a parteira. No caminho cruzou-se com o Filipe e achou que talvez fosse bom ele ir até lá acalmar-me também.
Passados quinze minutos, às 17.55H de Sexta –Feira, dia 09 de Fevereiro de 2001, com trinta e oito semanas de gestação, 3,050Kg de peso e cinquenta centímetros de comprimento, sem esforço nenhum, nasceu o Vasquinho. Trazia o cabelo em pé, a goela afiada e um conjunto de balde e esfregona para oferecer à mana que o esperava ansiosa.
Ao parto assistiu o Pai. A médica não.
Lembro-me tão bem. Está tudo tão claro na minha memória - cada emoção, cada arrepio, cada lágrima, cada sorriso. O alívio.
Parece mesmo que foi ontem.
Hoje vai ser um daqueles dias especiais em que a única coisa que o preocupa é verificar se cada pessoa que se chegue perto dele também vem devidamente munida de um presente.
Acho que sim, é uma boa preocupação.
Parabéns filho! Aproveita bem.
3 comentários:
Magnifica descrição. Muitos parabéns, ao rebento e aos plantadores das sementes. É realmente tudo igual, mas alguns são mais iguais.
Muito obrigada! Fico feliz.
Gostei... da dor nasce o amor... :)
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