quinta-feira, fevereiro 18, 2010

Ele há gajas e gajas. E gajos.

Quem me conhece sabe que sou mulher. E até bastante. Mas nunca fui “gaja”, isto no sentido de ter uma amiga em cada dia, segredar, galinhar, fofocar, dizer ou fazer maldades fosse a quem fosse.
Sempre fui um bocado básica: gosto muito de champanhe mas adoro cerveja, sinto-me tão bem num restaurante de luxo como numa tasca, sou capaz de comer e arrotar como um pedreiro e de dizer umas piadas mais brejeiras do que seria conveniente para uma dama, em qualquer sitio onde esteja.
A uma certa altura da vida, a adolescência, tanto os rapazes como as raparigas assumem identidades muito marcadas, com principios e critérios muito fundamentalistas e obtusos, até. Eu nunca fui assim. Na infância passei de longe mais tempo a ler e a fugir dos meus irmãos do que a confraternizar com malta da minha idade, o que me tornou um bocado bicho do mato. Não gostava nem tinha jeito para jogar à bola nem para andar de bicicleta, por isso, fui crescendo e desenvolvendo dons de conversadora competente.
Mais tarde, depois de tirar os óculos e o aparelho dos dentes e aprender a socializar e a vestir-me decentemente, nunca me importei se transpirava loucamente por dançar até ao amanhecer e cedo compreendi que estar confortável é muito mais divertido que estar gira.
Talvez por isso, porque não me identificava de todo com o espírito de “gaja”, em criança e até na adolescência sempre tive melhores e mais francas relações com rapazes do que com raparigas. Não que não tenha ou tivesse tido amigas – claro que tive e tenho – mas como me sentia sempre meio desintegrada nesses grupos muito “femininos”, as minhas amigas sempre foram poucochinhas quando comparadas com o que era normal na minha idade.
Acontece que, talvez por serem poucas e por eu achar que devia preservá-las e ser como elas, eu dedicava a essas amigas uma amizade muito focada e sentia-me verdadeiramente com qualquer desapreço demonstrado – leia-se qualquer insignificante falta de atenção ou segredinho perpetrado nas minhas barbas. É possivel que fosse por eu não saber lidar com essas nuances complexas e intrincadas, das quais vivia completamente alheada, mas a verdade é que sempre fui uma amiga absolutamente disponível, incapaz de magoar deliberadamente outra pessoa, de dirigir ataques cirurgicos, daqueles desferidos mesmo para magoar; de gozar, fazer pouco ou humilhar alguém só porque sim. Talvez devido a essa espécie de credulidade, tinha a paranóia de que um dia iam gozar comigo e eu não ia perceber nada mas, por outro lado acreditava que toda a gente me dizia sempre a verdade. Em suma, era um bocado totó. Mas nem por isso fui infeliz, antes pelo contrário.
Entretanto cresci e continuei fiel a mim mesma, se bem que um bocadinho mais... preparada. Se nunca saí com grupos de amigas para o engate, nunca conspirei com umas contra outras, nunca fui muito fã de dormir fora de casa e sempre detestei da mesma forma emprestar roupa e usar roupa emprestada - mas emprestava, se uma amiga pedisse; também acho que aprendi a topar uma mentira, a dirigir um ataque, a defender-me de uma má intenção e a não me meter na vida dos outros.
Esta é uma postura que mantenho tanto na minha vida privada como na profissional.
Na minha empresa todos se riem porque eu nunca sei nada das fofocas do momento, estou sempre a leste das conversas que acontecem à minha volta e passo o tempo a pensar em comida. Também se riem porque venho trabalhar de cabelo molhado e faço a maquilhagem no carro, muitas vezes já no parque de estacionamento, à vista de todos.
Num grupo de trabalho composto por cinco homens e algumas vinte e cinco mulheres, os homens – todos casados - estão claramente a “mulherizar-se”: falam de cremes e cortes de cabelo, colocam verniz para não roerem as unhas, trocam receitas e vestem e calçam peças no mínimo duvidosas às sextas – feiras. E eu não faço mais nada a não ser gozar com eles e questionar a sua masculinidade (pura gozação, sem preconceito nenhum, que eu cá não sou pessoa de discriminar ninguém).
De tal forma que, aqui há dias, sentei-me no meu lugar, ao computador, e reparei que estava tudo a sussurrar. Sem perceber o que se passava fingi que não tinha dado por nada, até que recebi um email de uma das minhas coleguinhas a dizer para eu olhar para trás. E ao olhar, vi um cartaz que dizia o seguinte:
“Aqui é o lugar d’o Elias – O último dos machos.

1 comentário:

Ulisses Martins disse...

LOL
Viva a sinceridade e ainda bem que é assim. É coisa rara.
Eu tb detesto coscuvilhice e que as pessoas falem da vida dos outros.