quinta-feira, abril 29, 2010

Parabéns Avó!

Para muitos o dia 28 de Abril será uma data importante a recordar - um dia de aniversário ou de casamento, o dia em que nasceu o primeiro filho, em que compraram o primeiro carro ou em que arranjaram o primeiro emprego – mas para a maioria esta data não passará certamente de mais uma a riscar no calendário dos dias sempre iguais que ainda faltam para as férias.O total é a soma das partes, da mesma forma que o Mundo é a soma de muitos mundinhos pequeninos. E neste meu pequeno mundo, hoje é um grande dia: uma filha, quatro netos e sete bisnetos depois, a minha avó completa hoje 94 Primaveras.Ah, grande coisa, dirão alguns, a minha avó teve dezoito filhos, quarenta e sete netos e cento e oito bisnetos, ficou viúva com vinte e sete anos e fez ontem cento e quatro.É uma grande coisa, sim.Para começar poucas avós carregarão a cruz de terem nascido sob a graça de Natércia Cândida. De entre todos os lindos nomes que lhe poderiam ter chamado, dos quais Maria seria certamente um deles, os meus bisavós escolheram este. Original, sem dúvida. Poético, certamente – Natércia é um anagrama de Caterina (a amada de Camões), nome que o meu bisavô Pinto não quis dar à única filha porque era foleiro (nunca percebi porque é que na minha família os avós eram um apelido apenas). Como todas as pessoas nascidas durante a Primeira Grande Guerra, a minha avó não teve uma vida fácil. Mas também não fez por a simplificar. Para além dos problemas conjunturais da época ainda teve de lidar com outra questão altamente incomum para aqueles tempos e que causou grandes atritos entre ela e os pais – os meus bisavós não eram casados. E só casaram mesmo antes de Natércia dar o nó com o seu marinheiro Artur, devido a pressões de tal ordem que fariam corar muitos ditadores. Aliás, a minha avó Natércia tem uma personalidade fortíssima. Tem sempre uma opinião formada sobre qualquer assunto, desde o TGV ao penteado novo da Odete Santos, passando pela roupa das amigas ou pela aprovação do casamento gay – que ela acha lindamente.Ao longo da sua vida, mesmo quando pediu conselhos sempre os ignorou sem pudor e só fez o que entendeu, quando e como lhe deu na real gana. De tal maneira que, nós costumávamos por graça comparar a sua conduta à dos seus famosos companheiros de aniversário, António de Oliveira Salazar e Saddam Hussein. Mas a senhora não achava muita piada e nós acabámos por deixar de lhe dar cabo do juízo.Um dos enormes desgostos que teve a minha avó foi o facto de só ter tido uma única filha. Se concebê-la foi uma complicação de sete longos anos, tê-la foi uma ainda pior, que quase terminou ali para as duas. Felizmente para nós, a minha mãe não sofria do mesmo problema e cá estamos os quatro, mais quatro, mais sete/oito para celebrar mais uma vez com ela esta data tão especial.Terá os seus defeitos, a Avó Natércia, todos temos os nossos, mas apesar de já estar um bocadinho surda, é a avó mais presente, atenta, carinhosa, preocupada, lúcida, generosa e rija do Mundo e a nossa vida sem ela seria com certeza muito diferente. Muito mais vazia.Parabéns Avó. Lá estaremos todos mais logo para te cobrir essa cara linda de beijinhos.

sexta-feira, abril 16, 2010

Calinadas

Para mim escrever e falar é mais ou menos como vestir-me – faço-o todos os dias e como acho que fica melhor, mas não sou muito amiga de regras.
Ainda assim esforço-me para fazer ambas as coisas com alguma correcção - dar erros a escrever ou a falar é semelhante a vestir mal: um jornalista que apareça na televisão com um casaco metalizado e uma gravata de cetim com aplicações cintilantes, para além de parecer o Herman José vai desviar a atenção do espectador daquilo que interessa mesmo, as notícias que está a dar. O mesmo se passa com as palavras. Se as dizemos ou escrevemos incorrectamente corremos o risco de o conteúdo se perder no meio da confusão.
Não sei se será porque se lê cada vez menos, segundo consta, ou porque o negócio da moda cada vez movimenta balúrdios maiores, mas a verdade é que a cada dia as pessoas se vestem melhor, mas falam pior. E, se acho lindamente que vistam bem, chateia-me muito que se fale mal.
Chateia-me, entre outros motivos, porque todos aprendemos em pequenos a ter respeito pelos velhos e a tratá-los bem, o que torna incompreensível a forma como se tem vindo a violentar de forma vil e impune a desgraçada da nossa velhinha língua – e já nem menciono aquela trampa daquele acordo ortográfico que nos quer fazer passar a escrever em brasilês. Se querem que passemos a escrever noutra língua, então que seja a do país que nos está a anexar: Espanha.
Falo aqui de outra formas de maus tratos sem lei que as regule, portanto, ninguém que as proíba:

(estes são apenas uns exemplozitos, sim? Sem ofensa nem presunção)

#1
A estrangeiração:
Consiste em substituir, por vezes sem critério que o justifique, algumas palavras de uma frase por outras em inglês ou inglesado, numa tentativa de dar uma aparência altamente técnica e especializada a um discurso banal ou que se quer propositadamente incompreensível.
Muito comum dentro das empresas, principalmente ao nível dos quadros médios e superiores viciados em gadgets e telemóveis topo de gama, que vão (ou não surpreendiam se fossem) para a praia de sapatos de vela com meias e portátil à tiracolo.

Por exemplo:
- Envia-me aí um meeting request para falarmos do benchmarking e depois broadcasta os resultados. Não te esqueças de fazer backup do portfolio.
- Vou googlar para ver se encontro um link que relacione a informação com os vossos inputs e depois dou-vos feedback.

#2
A baralhamentalização:
Consiste em atirar para o meio de um discurso que decorre com aparente normalidade, uma palavra que não tem nada a ver com nada, mas cuja sonoridade é semelhante à da palavra correcta.
É praticada no quotidiano por pessoas adultas com distracção crónica ou que gostavam de saber falar com palavras caras - mas não se ajeitam.

Por exemplo:
- Agora que já expus os meus argumentos, tirem vocês as vossas próprias inalações.
- Tenho aqui uma ideia que gostaria de vincular na comunicação social...

#3
A erroortografioralização:
Trata-se de ofender determinados vocábulos de forma sistemática e por vezes, consciente.
Verifica-se tanto na escrita como na oralidade, tanto em adultos como em crianças, tanto em pessoas instruídas como em analfabetos e parece que não há maneira de resolver o problema, já que persiste há bué.

Acontece em todo o lado, mesmo onde menos se espera e os exemplos são tantos que não há espaço para os listar.

Por exemplo.
- Ontro dia vi-te na rua.
- Há-dem ver como é!
- Vou c’a mulher ao cinema.
- Não hesiste ninguém como tu!


#4
A exageramentalização:
Esta tradição é mais oral, uma vez que ao escrever a pessoa está mais concentrada. Acontece geralmente quando se pretende enfatizar uma ideia ou conceito e não se presta atenção ao que se está a dizer.
Não escolhe cargo, instrução nem condição social, sendo um fenómeno género Trivial Pursuit – dos 7 aos 77.

- Na grande maior parte das vezes...
- Geralmente vou sempre à frente...
- Tenho uma amiga minha...
- Há duzentos anos atrás....

#5
A smsamentação:
Este é um fenómeno exclusivo da escrita e o que mais me perturba. Começou por grassar entre os jovens que por não terem dinheiro se tornaram fanáticos dos sms’s, mas posteriormente alargou-se às gerações com idade para terem juízo.
Consiste em substituir os “cês” por “kapas” “os” por “us” e suprimir do texto quase todas as vogais, todos os acentos e toda a pontuação. O resultado traduz-se num amontoado de letras que temos de ler alto para vagamente compreendermos o que significa.

Por exemplo:
- Mae posso jntr m csa d Joana
- Tou cm drs d brriga
- El dz k sim


A nossa língua é famosa no mundo inteiro por ser antiquíssima, rica, complexa, bela, musical e poética. Foi utilizada para escrever das mais belas obras literárias de sempre, para exprimir ideias de grandes pensadores, para cantar canções que se tornaram marcos da nossa história. Mas a malta de cá decidiu que não presta. E decidiu matá-la.
À pancada.

quinta-feira, abril 08, 2010

Há uns anitos largos - se a memória ainda não me atraiçoa, nos idos de oitenta e tal - um jornalista novinho e irreverente tinha uma coluna de sucesso num jornal semanário sério e conservador. A coluna, chamada “A Causa das Coisas” versava sobre a Portugalite: “ é uma inflamação nervosa que consiste em estar sempre a dizer mal de Portugal. É altamente contagiosa (transmite-se pela saliva) e até hoje não se descobriu cura.” O jornalista, era o Miguel Esteves Cardoso e o jornal que o publicava era o Expresso.
Nessa mesma época, este jardim à beirinha da praia juntava-se com estrépito e fulgor, a uma cena que não se percebia muito bem para que servia, mas da qual todos sabíamos o nome: CEE.
Preocupado com uma questão prática incontornável, a famosa complexidade da nossa língua, MEC escreveu uma crónica hilariante, onde tentava traduzir para inglês os nomes de algumas localidades lusas.
O tema, que até à data não teria ocupado nem dois segundos do meu tempo mental – até porque eu era práticamente uma criança – arrancou tais gargalhadas à minha mãe que eu nunca mais me esqueci.
Uns bons anos depois acabei por comprar o livro onde estavam compiladas todas as crónicas, talvez umas cem. E foi com verdadeiro prazer que li finalmente o célebre texto onde ele se preocupava, por exemplo com a forma como um natural de Chão – de- Meninos (Sintra) iria explicar a sua morada a um turista inglês.
Ora, aqui há umas semanas, surgiu numa conversa o tema da toponímia nacional. Entre gargalhadas sonoras e um tanto brejeiras discorremos sobre os nomes dos habitantes de terriolas como Punhete, Aliviada ou Rego do Azar – todos nomes reais. Falámos sobre o Joaquim da Quarta-Feira que é amigo de não sei quem. Rimos às gargalhadas com a ideia da pergunta “gostas de Lisboa?” quando feita a um habitante de Picha... enfim.
Então decidi fazer uma breve investigação internética para ver se descobria mais terras giras para a conversa. Encontrei verdadeiras pérolas e faço aqui homenagem às pessoas que lá vivem. Às vezes não deve ser fácil de explicar.
Imagine-se uma jovem de Angra do Heroísmo numa repartição pública. Quando perguntam – localidade - ela responde: Às Dez. Depois de grande discussão que se imagina: mas eu perguntei a localidade, e a moça a responder que nem uma mula: e eu respondi Às Dez! A funcionária vai pensar que ela ou é taralhoca da cabeça ou está a fazer pouco dela e manda-a gozar com a prima.
Num outro caso, um alentejano de Estremoz encontra o marido da irmã que é meretriz e pergunta-lhe de onde vem. O desgraçado responde com honestidade , da Venda da Porca. O cunhado ofende-se, diz-lhe que vá chamar porca à mãezinha e afinfa-lhe uma pêra que o deixa estendido.
Felizmente temos várias terras chamadas Paraíso, mas também há uma que dá pelo alegre nome de Purgatório e outra simpática, ao pé de Caminha, que se chama Pobreza. Nesta última imagine-se a alegria da criança que vive na miséria quando a mãe lhe explica que para sair da Pobreza só tem de ir apanhar a camioneta à do Ti Manel.
E depois temos outras pérolas que dispensam comentários: Bexiga, Cama Porca, Vale da Rata, Cemitério, Vergas, Vinha da Desgraça, Mal Lavado, Coxo, Endiabrada, Pés Escaldados, Máquina, Terça.... é um sem fim, uma ode à imaginação (aliás há um Imaginário, perto das Caldas).
Mas para mim, o topo de gama, o XPTO, o cúmulo dos cúmulos, é esta.


Bolas, pá!

quinta-feira, abril 01, 2010

Dia das Mentiras ou O mundo poderia ser um sitio muito melhor para viver!

Há várias explicações para a existência do Dia das Mentiras. A mais palusível diz que a brincadeira surgiu em França onde, desde o inicio do século XVI, se festejava o Ano Novo no dia 25 de Março, por coíncidir com a chegada da Primavera. As festas duravam uma semana e terminavam no dia 01 de Abril, data oficial de entrada no novo ano.
Depois da adopção do calendário gregoriano, decretou-se que o ano novo seria comemorado no primeiro de Janeiro. Alguns franceses não gramaram da mudança e continuaram a seguir o calendário antigo, festejando o Ano Novo a 1 de Abril. Grupos de gozadores passaram então a ridicularizá-los, a enviar presentes esquisitos e convites para festas que não existiam. A tradição evoluiu até ao que vemos hoje.

Eu acho uma anormalidade. Não faz sentido nenhum um dia das petas, ninguém acredita em nada do que lhe dizem, anda meio mundo a desconfiar da outra metade e as conversas tornam-se completamente repetitivas.
Por exemplo, no ano passado (ou há dois anos?), aproveitando o facto de o primo Tiago ir ficar em casa sozinho com a empregada, o Vasquinho pediu para lá ir passar o dia com ele. A meio do dia liga-me a cunhada ligeiramente enervada a dizer que tinha recebido um telefonema relatando que os príncipes estavam civilizadamente a jogar à pedrada no jardim – nada mais normal - quando um calhauzito mais atrevidote passou a vedação por cima e assentou mesmo no vidro da frente de um jipe que passava, partindo-o. Claro que eu não acreditei, óbvio. E foi o cabo dos trabalhos para ela me convencer: É tanga, dizia eu, não é nada, dizia ela, e eu dizia mas achas que sou parva? E ela respondia que sim, que achava, mas que era verdade na mesma. E eu dahhh e ela, é mesmo verdade, e a dona do carro está fula.
Aparentemente a conversa dela com a empregada deve ter sido semelhante, mas sem a parte do estás parva. Mesmo assim, no caminho para casa dela, acalentei secretamente o desejo de ter sido redondamente enganada.
Sem sorte.
Portanto, o dia das Mentiras podia acabar.
Útil, útil seria fazer aqui umas alteraçõezitas, que muito significariam para todas nós:
Facto: as mulheres são mais que os homens, pelo que é crucial que andem felizes ou a vida deles pode ser um inferno.
Facto: É absolutamente indiferente em que dia começa o ano. Desde que toda a gente saiba em que dia é, qualquer um é bom.
Sugestão: (vejam bem isto que é lindo!) Passava-se o Reveillon de novo para 01 de Abril, acabando-se com isto das petas e deixava-se o 01 de Janeiro livre para uma iniciativa muito mais importante: o Dia Internacional da Luta Contra a Celulite. Isso sim, seria uma iniciativa louvável. Em vez de perder tempo e gastar neurónios que tanta falta lhe faz com mentiras que toda a gente descobre em menos de nada, a Comunicação Social passaria a divulgar na mesma proporção dicas para o extermínio de celulites e todos os tipos de gorduras localizadas, mas com a devida antecedência relativamente ao Verão (daí o dia 01 de Janeiro). Mais, os conselhos dados seriam de aplicação imediata e milagrosa nas nossas ancas, nádegas e barrigas, mediante a mera verbalização de uma palavra passe que nesse dia chegava a cada mulher através de sms para o seu telemóvel. Se isto acontecesse, se num dia apenas todas as asneiras e exageros cometidos durante um ano desaparecessem milagrosamente para darem lugar a massa muscular firme e delgada, se não tivéssemos de nos mergulhar em cremes, loções, massagens, comprimidos e auto-bronzeadores durante metade do ano, tenho para mim que poderiam acabar com os dias da Mãe, da Mulher e dos aniversários de todas nós, que ninguém se ralava muito. E ainda podiam fazer uma ligação de TGV Luz-Alvalade, patrulhar a foz do Tejo com submarinos alemães ou oferecer bilhetes de avião no metro em hora de ponta que, poucas de nós se incomodariam. Só de imaginar a vida perfeita, a autoestima perfeita, o Verão perfeito...
Sim, o Mundo podia ser um sitio muito melhor para viver!