quinta-feira, abril 08, 2010

Há uns anitos largos - se a memória ainda não me atraiçoa, nos idos de oitenta e tal - um jornalista novinho e irreverente tinha uma coluna de sucesso num jornal semanário sério e conservador. A coluna, chamada “A Causa das Coisas” versava sobre a Portugalite: “ é uma inflamação nervosa que consiste em estar sempre a dizer mal de Portugal. É altamente contagiosa (transmite-se pela saliva) e até hoje não se descobriu cura.” O jornalista, era o Miguel Esteves Cardoso e o jornal que o publicava era o Expresso.
Nessa mesma época, este jardim à beirinha da praia juntava-se com estrépito e fulgor, a uma cena que não se percebia muito bem para que servia, mas da qual todos sabíamos o nome: CEE.
Preocupado com uma questão prática incontornável, a famosa complexidade da nossa língua, MEC escreveu uma crónica hilariante, onde tentava traduzir para inglês os nomes de algumas localidades lusas.
O tema, que até à data não teria ocupado nem dois segundos do meu tempo mental – até porque eu era práticamente uma criança – arrancou tais gargalhadas à minha mãe que eu nunca mais me esqueci.
Uns bons anos depois acabei por comprar o livro onde estavam compiladas todas as crónicas, talvez umas cem. E foi com verdadeiro prazer que li finalmente o célebre texto onde ele se preocupava, por exemplo com a forma como um natural de Chão – de- Meninos (Sintra) iria explicar a sua morada a um turista inglês.
Ora, aqui há umas semanas, surgiu numa conversa o tema da toponímia nacional. Entre gargalhadas sonoras e um tanto brejeiras discorremos sobre os nomes dos habitantes de terriolas como Punhete, Aliviada ou Rego do Azar – todos nomes reais. Falámos sobre o Joaquim da Quarta-Feira que é amigo de não sei quem. Rimos às gargalhadas com a ideia da pergunta “gostas de Lisboa?” quando feita a um habitante de Picha... enfim.
Então decidi fazer uma breve investigação internética para ver se descobria mais terras giras para a conversa. Encontrei verdadeiras pérolas e faço aqui homenagem às pessoas que lá vivem. Às vezes não deve ser fácil de explicar.
Imagine-se uma jovem de Angra do Heroísmo numa repartição pública. Quando perguntam – localidade - ela responde: Às Dez. Depois de grande discussão que se imagina: mas eu perguntei a localidade, e a moça a responder que nem uma mula: e eu respondi Às Dez! A funcionária vai pensar que ela ou é taralhoca da cabeça ou está a fazer pouco dela e manda-a gozar com a prima.
Num outro caso, um alentejano de Estremoz encontra o marido da irmã que é meretriz e pergunta-lhe de onde vem. O desgraçado responde com honestidade , da Venda da Porca. O cunhado ofende-se, diz-lhe que vá chamar porca à mãezinha e afinfa-lhe uma pêra que o deixa estendido.
Felizmente temos várias terras chamadas Paraíso, mas também há uma que dá pelo alegre nome de Purgatório e outra simpática, ao pé de Caminha, que se chama Pobreza. Nesta última imagine-se a alegria da criança que vive na miséria quando a mãe lhe explica que para sair da Pobreza só tem de ir apanhar a camioneta à do Ti Manel.
E depois temos outras pérolas que dispensam comentários: Bexiga, Cama Porca, Vale da Rata, Cemitério, Vergas, Vinha da Desgraça, Mal Lavado, Coxo, Endiabrada, Pés Escaldados, Máquina, Terça.... é um sem fim, uma ode à imaginação (aliás há um Imaginário, perto das Caldas).
Mas para mim, o topo de gama, o XPTO, o cúmulo dos cúmulos, é esta.


Bolas, pá!

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